Lula vence entre os 42% mais pobres (até 1,6 salário mínimo), mas Flávio domina nos 68% restantes da população. Maior queda de Lula ocorreu na classe média-baixa (1,71 salário mínimo), onde juros altos e endividamento afetam percepção de bem-estar.
Flávio Bolsonaro supera pai em todas as rendas; Lula cresce entre mais ricos
O brasileiro segue endividado, apesar dos ganhos de renda
Como assim Flávio ganhou votos em todas as faixas de renda se Lula ainda vence entre os mais pobres?
Flávio ganhou em relação ao pai, Jair Bolsonaro. Comparado a 2022, Flávio avançou sobre Lula em todas as classes—até entre os mais pobres, Lula perdeu 4,3 pontos percentuais. Mas Lula ainda tem mais votos absolutos naquele segmento.
Exato. É importante não confundir "ganho relativo" com "vitória absoluta". Lula ainda vence entre os 42% mais pobres, mas sua margem encolheu.
E por que a classe média está tão insatisfeita se a renda cresceu 26%?
Porque crescimento de renda não é a mesma coisa que bem-estar. Juros altos, endividamento e inadimplência comem o ganho. E tem as apostas online—as pessoas estão gastando com bets.
Mas note que isso é interpretação de economistas. Os dados mostram correlação entre renda e voto, não causação. Não sabemos ao certo por que a classe média votou diferente.
O Nordeste é diferente?
Muito. Quando você tira o Nordeste da análise, a relação entre renda e voto desaparece quase completamente. Lula vence em todos os grupos de renda na Bahia, por exemplo.
E isso sugere que fatores regionais, históricos e institucionais importam tanto quanto renda. Mas o estudo de Ataliba ainda está em desenvolvimento—não temos conclusões finais sobre o quê exatamente explica isso.
As redes sociais realmente estão mudando o voto?
Segundo Neri, sim. Influenciadores estão recebendo recordes de votos. As aspirações de consumo mudaram—não é mais sobre carro e crédito, é sobre o que veem nas redes.
Mas isso é especulação de um pesquisador, não está quantificado nos dados. A reportagem não mede o impacto das redes sociais diretamente.
O Pulso
- Lula vence entre os 42% mais pobres (até 1,6 salário mínimo), Flávio domina nos 68% restantes
- Maior queda de Lula foi na classe média-baixa: 5,1 p.p. na classe C, 3,9 p.p. na classe D
- Renda média do trabalho cresceu 26% em termos reais, mas juros altos e endividamento afetam percepção
- Correlação entre renda e voto é de 70% nacionalmente, mas cai drasticamente fora do Nordeste
Lula vence entre os 42% mais pobres (até 1,6 salário mínimo), mas Flávio domina nos 68% restantes da população. Maior queda de Lula ocorreu na classe média-baixa (1,71 salário mínimo), onde juros altos e endividamento afetam percepção de bem-estar.
Análise da Folha revela que Lula perdeu votos na classe média comparado a 2022, enquanto Flávio Bolsonaro avança em todas as faixas de renda. Lula mantém vantagem apenas entre os mais pobres.
A análise de votação da Folha de S.Paulo, que cruzou resultados do primeiro turno com dados de renda de 468 mil setores censitários do Brasil, revela um retrato eleitoral dividido por classe: o presidente Lula perdeu apoio em quase toda a distribuição de renda comparado a 2022, enquanto Flávio Bolsonaro avançou sobre todas as faixas, deslocando votos especialmente entre os mais pobres.
O impacto maior da queda de Lula concentrou-se na classe média e média-baixa. Seu pico de perda ocorreu no grupo onde o responsável pelo domicílio ganha cerca de 1,71 salário mínimo—aproximadamente R$ 2,7 mil—, faixa que representa uma transição crítica na distribuição de renda brasileira. Na classe C, Lula recuou 5,1 pontos percentuais; na classe D, 3,9 pontos; na classe E, 3,2 pontos. A única exceção foi entre os mais ricos: na classe B, avançou 0,4 ponto percentual, e na classe A, 1,6 ponto percentual. Em São Paulo especificamente, o padrão se inverteu: Lula caiu entre os setores mais pobres e subiu entre os mais ricos.
Apesar das movimentações, a renda traça uma fronteira clara no mapa eleitoral. Lula vence entre os 42% mais pobres da população—aqueles que ganham até 1,6 salário mínimo—, com margem ampla entre quem recebe até um salário mínimo, estreitando-se conforme a renda sobe. Flávio domina no restante: de 1,6 a 16,3 salários mínimos, faixa que engloba 68% da população e vai da renda média-baixa até a mais alta. Sua maior vantagem está em setores com renda média de 2,9 salários mínimos (R$ 4,7 mil), onde conquistou 56% dos votos. No topo da distribuição, entre os que ganham 16,2 salários mínimos (cerca de R$ 26,2 mil), Flávio obtém 50% dos votos contra 39% de Lula.
Economistas ouvidos pela reportagem concordam que os indicadores de melhora no emprego e na renda não se traduziram em sensação de bem-estar para o eleitor de classe média e média-baixa. Juros altos, endividamento crescente e inadimplência ajudam a explicar esse descompasso. Marcelo Neri, pesquisador da FGV Social, aponta que a renda média do trabalho cresceu 26% em termos reais—um desempenho que seria comparável aos "anos de ouro" de ascensão da classe C—, mas o brasileiro segue endividado. Ele atribui boa parte do problema às apostas online, sugerindo que a proibição das bets por Lula pode ter chegado tarde do ponto de vista eleitoral.
O economista Flávio Ataliba, que pesquisa bem-estar e endividamento, desenvolveu um estudo sobre a correlação entre renda e voto nos estados. Ele encontrou um grau de associação de quase 70% entre renda e preferência eleitoral—os mais pobres votam em Lula, os mais ricos em Flávio. Mas quando remove o Nordeste da amostra, a associação cai drasticamente, tornando-se praticamente insignificante. Exemplos como Acre e Roraima, no Norte, apresentam votações expressivas em Flávio apesar de indicadores de renda e pobreza semelhantes aos de estados nordestinos. "O efeito de votar no Lula é mais concentrado no Nordeste, mas não é só renda ou pobreza que explicam o voto nele", afirma Ataliba. "Há questões institucionais, históricas e regionais que se sobrepõem a essas variáveis."
Os padrões variam significativamente por estado. Minas Gerais segue a tendência nacional. Na Bahia, Lula vence em todos os grupos de renda, com margem que diminui conforme a renda cresce. No Paraná, ocorre o inverso: Flávio vence em todos os setores, com pequena distância entre os mais pobres e ampla vantagem conforme a renda aumenta. Neri aponta que novos comportamentos subjetivos extrapolam a renda, citando o conservadorismo e novas aspirações de consumo ligadas a influenciadores e redes sociais. "As redes sociais estão começando a governar os mercados eleitorais, com vários influenciadores com recorde de votos em contraposição a políticos tradicionais", diz. "É um mundo mais gasoso, não é mais carro, crédito, celular, são outros desejos."
A metodologia da Folha geolocalizou 468 mil setores censitários—a menor unidade territorial medida pelo IBGE, equivalente a um quarteirão, vizinhança ou condomínio—e dividiu-os em 100 grupos de renda de igual tamanho. Os resultados foram conferidos com boletins de urna, com coincidência de 100%. A análise testou cinco medidas diferentes de renda, incluindo dados do Censo 2010, e os resultados foram praticamente idênticos, confirmando que a maior perda de Lula concentra-se nos setores de renda média-baixa.
Citações Notáveis
O efeito de votar no Lula é mais concentrado no Nordeste, mas não é só renda ou pobreza que explicam o voto nele, há questões institucionais, históricas e regionais que se sobrepõem a essas variáveis— Flávio Ataliba, economista e pesquisador da FGV
As redes sociais estão começando a governar os mercados eleitorais, com vários influenciadores com recorde de votos em contraposição a políticos tradicionais— Marcelo Neri, pesquisador da FGV Social