Na sexta-feira, a agência Fitch manteve o rating BBB de Portugal mas elevou a perspetiva de estável para positiva — um gesto que, na linguagem discreta das finanças globais, equivale a um voto de confiança renovado. O reconhecimento não se dirigia apenas aos números de 2021, onde o défice caiu para 2,8% do PIB e a dívida registou a terceira maior redução da zona euro, mas à consistência de uma trajetória que Portugal vem construindo desde 2015. Num momento em que a guerra na Ucrânia e a inflação energética ensombram o horizonte europeu, a estabilidade política interna e a disciplina orçamental
Fitch mantém rating de Portugal em BBB e melhora perspetiva para positiva
A terceira maior queda de dívida da zona euro em um ano
O que significa exatamente elevar a perspetiva de estável para positiva, se o rating em si mantém-se em BBB?
É um sinal de confiança sobre a trajetória. O rating é o nível atual de risco; a perspetiva é a direção. Fitch está a dizer: Portugal está bem onde está, mas temos razões para acreditar que pode melhorar.
Mas isso não é uma garantia de subida de rating, certo? É apenas uma indicação?
Exatamente. É um passo antes. Significa que se as coisas correrem como esperado — se a dívida continuar a cair, se o crescimento se concretizar — então uma subida de rating pode vir no futuro.
Qual foi o fator mais decisivo para esta mudança de perspetiva?
O desempenho orçamental em 2021 foi surpreendentemente bom. O défice caiu de 5,8% para 2,8%, e a dívida caiu 7,8 pontos percentuais — a terceira maior queda da zona euro.
Mas a Fitch também cortou as projeções de crescimento para 2022, de 5,4% para 4,3%. Como é que isso se encaixa com uma perspetiva positiva?
Porque o corte foi por razões externas — a guerra, os preços da energia — não por problemas estruturais em Portugal. A agência acredita que o país tem ferramentas para lidar com isso.
E quanto aos fundos europeus? Parecem importantes na análise.
São cruciais. A Fitch diz que podem aumentar a produção portuguesa em 3% a 3,5% até 2026, mas há um grande "se": o governo tem de cumprir os marcos e as metas.
Portanto, há risco real de que esses fundos não produzam o efeito esperado?
Sim. A Fitch é clara: a implementação efetiva é a condição. Se falhar, as projeções caem.
E a inflação? Parece ser uma preocupação real.
É. Portugal importa muito — alimentos, bens industriais — então está vulnerável a choques de preços globais. E há risco de pressões internas vindas do mercado de trabalho e da recuperação dos serviços.
El Pulso
- Portugal surpreendeu os mercados ao registar um défice de 2,8% do PIB em 2021, superando a sua própria meta de 4,3% e ficando bem abaixo da média da zona euro.
- A dívida pública caiu 7,8 pontos percentuais num único ano — a terceira maior queda de toda a zona euro, num momento em que a maioria dos países ainda acumulava encargos da pandemia.
- A maioria absoluta conquistada pelo Governo em janeiro retirou uma fonte crónica de incerteza política, tornando mais credível a agenda de consolidação orçamental aos olhos da Fitch.
- A guerra na Ucrânia e os choques energéticos obrigaram a agência a cortar a projeção de crescimento para 4,3% em 2022, com riscos descendentes concentrados no segundo semestre.
- Os fundos europeus do Next Generation representam uma alavanca de médio prazo que pode elevar a produção portuguesa em até 3,5% até 2026 — mas apenas se o Governo cumprir os marcos exigidos.
- A Fitch tornou-se a segunda agência a melhorar a perspetiva de Portugal em 2022, com a Moody's prevista para se pronunciar a 20 de maio e a próxima revisão da Fitch agendada para outubro.
Na sexta-feira, a agência Fitch manteve o rating BBB de Portugal mas elevou a perspetiva de estável para positiva — um gesto que, na linguagem discreta das finanças globais, equivale a um voto de confiança renovado. O reconhecimento não se dirigia apenas aos números de 2021, onde o défice caiu para 2,8% do PIB e a dívida registou a terceira maior redução da zona euro, mas à consistência de uma trajetória que Portugal vem construindo desde 2015. Num momento em que a guerra na Ucrânia e a inflação energética ensombram o horizonte europeu, a estabilidade política interna e a disciplina orçamental surgem como âncoras que as agências internacionais já não ignoram.
A Fitch confirmou na sexta-feira o rating BBB de Portugal e elevou a perspetiva de estável para positiva, sinalizando confiança crescente na trajetória orçamental do país. A decisão refletia um desempenho em 2021 que superou as expectativas: o défice recuou para 2,8% do PIB, bem abaixo da meta governamental de 4,3% e da média da zona euro, graças a uma recuperação económica mais robusta do que previsto e a uma contenção de despesa na resposta à crise pandémica.
Ainda mais notável foi a evolução da dívida pública. Portugal reduziu o seu rácio em 7,8 pontos percentuais em 2021 — a terceira maior queda de toda a zona euro, num contexto em que a média regional não passou de 1,6 pontos. A agência reconheceu o historial de disciplina orçamental dos governos de António Costa desde 2015, período em que a dívida caiu 14,6 pontos percentuais, e avaliou positivamente o facto de a maioria absoluta conquistada em janeiro criar um ambiente político mais estável para continuar essa agenda.
O quadro externo, porém, introduz cautela. A Fitch cortou a projeção de crescimento para 4,3% em 2022, penalizando o impacto da guerra na Ucrânia e dos preços da energia, com riscos mais concentrados no segundo semestre. Em sentido contrário, a baixa dependência de Portugal do gás russo confere-lhe uma vantagem relativa face a outros países europeus, e os fundos do Next Generation poderão elevar a produção nacional em até 3,5% até 2026 se os marcos forem cumpridos. A próxima revisão da Fitch está marcada para 28 de outubro, com a Moody's prevista para se pronunciar já a 20 de maio.
A agência de notação Fitch confirmou na sexta-feira a classificação de investimento de Portugal em BBB, mas fez um movimento que sinalizava confiança renovada: elevou a perspetiva de estável para positiva. A decisão reconhecia não apenas números que melhoraram, mas uma trajetória que começava a ganhar solidez.
O que mudou nos últimos meses foi o desempenho orçamental português. Em 2021, o défice caiu para 2,8% do PIB — uma queda acentuada em relação aos 5,8% do ano anterior, quando a pandemia ainda pressionava as contas públicas. Esse resultado superou a meta que o próprio Governo havia estabelecido de 4,3%, e ficou significativamente abaixo da média da zona euro. A Fitch atribuiu essa melhoria a uma recuperação económica mais robusta do que se esperava e a uma contenção de despesa na resposta governamental à crise. O défice português também se mostrava inferior ao défice mediano dos países com a mesma classificação BBB, que atingia 4,4% do PIB.
Mais impressionante ainda foi o que aconteceu com a dívida. Portugal reduziu o seu rácio de dívida em 7,8 pontos percentuais em 2021 — a terceira maior queda de toda a zona euro, quando a média regional foi de apenas 1,6 pontos percentuais. A agência norte-americana notou que o Programa de Estabilidade português previa trazer a dívida aos níveis pré-pandemia, de 116,6% do PIB, até 2023, embora as projeções da Fitch sugerissem que isso ocorreria um ano depois, em 2024.
A estabilidade política também pesou na análise. A maioria absoluta conquistada pelo Governo nas eleições de janeiro criava, na avaliação da Fitch, um cenário mais previsível para a elaboração de políticas. Isso colocava o executivo numa posição mais forte para implementar a sua agenda de redução da dívida pública. A agência recordou que os dois governos anteriores liderados por António Costa, apesar de minoritários, haviam demonstrado disciplina orçamental consistente, alcançando excedentes primários sustentados que permitiram uma queda de 14,6 pontos percentuais na dívida entre 2015 e 2019.
Para o presente, porém, a Fitch reconhecia incertezas. A agência projetava um crescimento de 4,3% para a economia portuguesa em 2022, apesar do choque dos preços da energia e do impacto da guerra na Ucrânia sobre a zona euro. Esse número representava um corte de 1,1 pontos percentuais em relação às projeções de novembro anterior. A agência esperava algum enfraquecimento do consumo privado e do investimento, com preços de importação mais altos afetando os termos de troca e a procura interna. O ambiente externo incerto representava um risco descendente para Portugal no segundo semestre, mas as perspetivas de médio prazo permaneciam amplamente positivas.
Os fundos europeus do Next Generation e do Quadro Financeiro Plurianual 2021-2027 eram vistos como alavancas importantes. A Fitch considerava que uma implementação efetiva desses recursos poderia aumentar os níveis de produção portuguesa em 3,0% a 3,5% até 2026, embora isso dependesse do sucesso do governo em alcançar os marcos e metas estabelecidos. Portugal também tinha uma vantagem relativa em relação a outros países europeus: a sua baixa dependência da energia russa significava que seria menos afetado por uma possível interrupção do fornecimento de gás russo para a União Europeia.
A agência também considerou positivamente o acordo político assinado em 27 de abril entre a Comissão Europeia, Portugal e Espanha para limitar os preços da eletricidade. Quando implementado, beneficiaria indústrias e consumidores com preços mais baixos, embora o alcance exato dessa redução permanecesse incerto. Ainda assim, havia vulnerabilidades. O elevado conteúdo de importação de produtos alimentares e bens industriais não energéticos deixava a inflação portuguesa exposta a perturbações da oferta global e preços mais altos de matérias-primas. Paralelamente, o mercado de trabalho e a recuperação do setor de serviços poderiam alimentar pressões inflacionistas internas.
Com essa decisão, a Fitch tornou-se a segunda agência de notação a melhorar a perspetiva de Portugal em 2022, depois da DBRS. A próxima revisão da Fitch estava marcada para 28 de outubro. A Moody's, a terceira grande agência, estava prevista pronunciar-se sobre Portugal no dia 20 de maio.
Citas Notables
Uma recuperação económica mais forte do que o esperado e um grau de contenção de despesa na resposta do Governo à pandemia levaram a melhores resultados orçamentais— Fitch
A maioria absoluta alcançada pelo Governo cria um cenário mais estável na elaboração de políticas e coloca-o numa posição forte para implementar a sua agenda orçamental e económica— Fitch