Físico João Alziro Herz da Jornada morre aos 77; foi presidente do Inmetro

João Alziro Herz da Jornada faleceu em 2 de agosto aos 77 anos, deixando esposa, 4 filhos e 8 netos.
A curiosidade era um método e a ciência era um norte
Descrição da abordagem de vida de João Alziro Herz da Jornada, que transformava momentos cotidianos em oportunidades de aprendizado científico.
Mark

Por que a história de um físico que morreu importa agora? O que ele fez que ainda reverbera?

Mimi

João não foi apenas um pesquisador que publicou artigos. Ele fundou laboratórios, presidiu uma instituição nacional por onze anos, e foi pioneiro em uma tecnologia — diamantes sintéticos — que a indústria brasileira ainda usa. Mas o que torna sua morte significativa é como ele vivia: transformava pizza em lição de geometria, levava filhos a museus, consertava equipamentos que ninguém mais conseguia consertar mesmo aposentado.

Luke

Certo, mas quantas pessoas ele realmente influenciou? Sabemos que foi professor por trinta anos, mas não temos números de quantos alunos, quantas pesquisas, quantas patentes. A carta do avó com Einstein é uma história bonita, mas é anedota, não impacto mensurável.

Mimi

Verdade. O que sabemos é concreto: presidiu o Inmetro por onze anos, promoveu mudanças administrativas e contratação de doutores. Fundou a Rede Metrológica do Rio Grande do Sul. Recebeu a Ordem Nacional do Mérito Científico. Mas você está certo — o alcance exato de sua influência pedagógica não está documentado aqui.

Mark

E a família? Como ele era com os filhos?

Mimi

Presente, divertido, bem-humorado. Criava brincadeiras que misturavam ciência com vida cotidiana. Seu filho, engenheiro de software, o descreve como alguém que gostava de explicar, de experimentar. Deixou quatro filhos e oito netos.

Luke

Mas isso é descrição, não fato. Sabemos que ele morreu em 2 de agosto de câncer de pâncreas, aos 77 anos. Sabemos que foi professor emérito. O resto é retrato de caráter, que é válido mas não é verificável da mesma forma.

Mark

Então qual é a história real aqui? É sobre um cientista que morreu, ou é sobre uma forma de estar no mundo que desapareceu?

Mimi

Talvez seja os dois. João Alziro Herz da Jornada era um homem que acreditava que a curiosidade era um método. Isso moldou como ele trabalhou, como ensinou, como viveu com a família. Quando morre alguém assim, morre também um jeito de fazer ciência — menos isolado, mais conectado com a vida.

Luke

E isso é importante documentar, desde que não confundamos o que sabemos com o que supomos.

  • O Brasil perde um dos seus mais influentes mediadores entre ciência e sociedade: João presidiu o Inmetro por onze anos e fundou laboratórios que ainda operam como referência nacional.
  • Sua morte por câncer de pâncreas interrompe uma trajetória que, mesmo na aposentadoria, não havia parado — ele seguia consertando equipamentos que outros pesquisadores não conseguiam reparar.
  • A família sente a ausência de um pai que transformava o jantar em aula e o símbolo matemático Δ em pedido de pizza, tornando a ciência inseparável do afeto doméstico.
  • O legado institucional é concreto: a Rede Metrológica do Rio Grande do Sul, a expansão do quadro de doutores no Inmetro e a Ordem Nacional do Mérito Científico no grau de Grã-Cruz marcam sua passagem pelo serviço público.
  • A pergunta que fica é como preservar e multiplicar seu modelo pedagógico — o de quem via em cada momento cotidiano uma oportunidade de despertar curiosidade científica em crianças e adultos.

Em 2 de agosto, o Brasil perdeu João Alziro Herz da Jornada, físico gaúcho que dedicou décadas a transformar a curiosidade em método e a ciência em vocação pública. Professor emérito da UFRGS, pioneiro na pesquisa de diamantes sintéticos e presidente do Inmetro por onze anos, João construiu pontes entre o laboratório e a vida cotidiana — ensinando filhos a pedir pizza em forma de delta e herdando cartas trocadas entre seu avô e Albert Einstein. Aos 77 anos, deixa não apenas instituições fortalecidas, mas uma geração de pesquisadores formados na convicção de que o ordinário sempre esconde o extraordinário.

João Alziro Herz da Jornada morreu em 2 de agosto, aos 77 anos, de câncer de pâncreas, deixando a esposa Eda, quatro filhos e oito netos. Nascido em São Borja, no Rio Grande do Sul, mudou-se para Porto Alegre na infância em busca de melhores oportunidades educacionais. Aprendeu marcenaria na escola e construiu móveis com as próprias mãos no sítio da família — uma combinação de habilidade prática e curiosidade intelectual que atravessaria toda a sua vida.

Formou-se em física pela UFRGS em três anos, um a menos que o período padrão, com láurea acadêmica. Foi lá que conheceu Eda Homrich, também física, com quem se casou e compartilhou mestrado, doutorado e uma temporada nos Estados Unidos. A ligação da família com a ciência vinha de gerações anteriores: o avô materno de João, Hermann Herz, judeu alemão chegado ao Brasil antes da Segunda Guerra, escreveu a Albert Einstein preocupado com a situação dos judeus na Alemanha. Einstein respondeu. João herdou essa correspondência e, ao escolher a mesma profissão, deu a ela um peso ainda maior.

Como professor da UFRGS por cerca de trinta anos, fundou o Laboratório de Altas Pressões e tornou-se pioneiro brasileiro na pesquisa de diamantes sintéticos. Mesmo aposentado, continuava frequentando o laboratório e consertando equipamentos que outros não conseguiam reparar. Criou a Rede Metrológica do Rio Grande do Sul e presidiu o Inmetro por onze anos, promovendo mudanças administrativas e ampliando a contratação de doutores. Recebeu a Ordem Nacional do Mérito Científico no grau de Grã-Cruz e foi eleito membro da Academia Brasileira de Ciências.

Fora dos laboratórios, João transformava o jantar em aula. Com os filhos, criou a brincadeira de pedir pizza como 'um pedaço de delta', porque o símbolo triangular Δ lembrava uma fatia. Gostava de Wagner, Bach, filosofia e museus. Seu filho João Francisco o descreveu como presente, divertido e bem-humorado. 'Era uma pessoa muito curiosa', disse. O legado de João não se mede apenas em instituições fundadas ou presididas, mas em um modelo de educação científica que via em cada pergunta cotidiana a possibilidade de uma descoberta.

João Alziro Herz da Jornada morreu em 2 de agosto, aos 77 anos, deixando para trás uma vida construída sobre a convicção de que a curiosidade era um método e a ciência era um norte. Faleceu de câncer de pâncreas, deixando a esposa Eda, quatro filhos e oito netos.

Nascido em São Borja, no Rio Grande do Sul, João mudou-se para Porto Alegre aos 9 anos quando seus pais buscavam melhores oportunidades educacionais. Na infância, aprendeu marcenaria na escola e depois construiu móveis no sítio da família — mesas, beliches — com as próprias mãos. Essa combinação de habilidades práticas e curiosidade intelectual marcaria toda sua trajetória. Formou-se em física pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul em apenas três anos, um a menos que o período padrão, com láurea acadêmica. Foi na universidade que conheceu Eda Homrich, também física, com quem se casou. Os dois prosseguiram juntos para mestrado e doutorado, e viveram nos Estados Unidos entre 1982 e 1984.

A ligação da família com a ciência vinha de gerações anteriores. O avó materno de João, Hermann Herz, era um judeu alemão que chegou ao Brasil antes da Segunda Guerra Mundial. Preocupado com a situação dos judeus na Alemanha, Hermann escreveu uma carta a Albert Einstein. O físico alemão respondeu, agradecendo a mensagem e simpatizando com as preocupações. João herdou essa correspondência histórica, um documento que adquiriu peso especial por ter escolhido a mesma profissão do homem que respondeu ao seu avó.

Como professor da UFRGS durante cerca de trinta anos, João fundou o Laboratório de Altas Pressões da universidade e se tornou um dos pioneiros brasileiros na pesquisa de síntese de diamantes sintéticos — materiais que a indústria utiliza no corte de vidro e na perfuração de poços de petróleo. Mesmo após se aposentar, continuava frequentando o laboratório, realizando experimentos e consertando equipamentos que outros pesquisadores não conseguiam reparar. Criou também a Rede Metrológica do Rio Grande do Sul e posteriormente ingressou no Inmetro, o Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia, onde dirigiu a área de Metrologia Científica e Industrial e presidiu a instituição por onze anos. Durante sua gestão, promoveu mudanças administrativas significativas e ampliou a contratação de doutores. Recebeu a Ordem Nacional do Mérito Científico no grau de Grã-Cruz e foi nomeado membro da Academia Brasileira de Ciências. Ao se aposentar, recebeu o título de professor emérito da UFRGS.

Mas quem era João fora dos laboratórios e das salas de aula? Em casa, transformava até o jantar em oportunidade de aprendizado. Com os filhos, criou uma brincadeira que se tornou marca da família: em vez de pedir um pedaço de pizza, pedia-se "um pedaço de delta", porque o símbolo triangular Δ se parecia com uma fatia. Para João, cada momento cotidiano podia virar uma chance de experimentar, explicar e despertar curiosidade. Seu filho João Francisco Homrich da Jornada, engenheiro de software de 48 anos, o descreveu como um pai presente, divertido e bem-humorado. Gostava de música erudita — especialmente Wagner e Bach — de filosofia e de levar os filhos a museus. Contava histórias sobre locomotivas, aviões, máquinas, arte e tecnologia. "Ele era da área de física experimental, então gostava muito de explicar, de experimentar. Era uma pessoa muito curiosa", disse o filho.

O legado de João Alziro Herz da Jornada não se resume a laboratórios fundados ou instituições presididas. Ele deixa um modelo de educação científica que transformava o ordinário em extraordinário, que via em cada pergunta de uma criança a possibilidade de uma descoberta, que acreditava que a ciência não era um domínio distante mas uma forma de estar no mundo.

Ele era da área de física experimental, então gostava muito de explicar, de experimentar. Era uma pessoa muito curiosa
— João Francisco Homrich da Jornada, filho, engenheiro de software
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