O maior FIDC exposto é o IBCB-AF01, com R$ 1,9 bilhão em patrimônio, principalmente ligado a operações com fornecedores. Fundos também financiam crediário de clientes e compras na cadeia de suprimentos, com provisões significativas para devedores duvidosos.
FIDCs ligados à Casas Bahia somam R$ 3,95 bi após recuperação judicial
Fundos que financiam fornecedores agora enfrentam uma fila de negociação
Por que esses fundos de investimento em direitos creditórios importam tanto nessa história?
Porque eles transformam dívidas em ativos financeiros que pessoas comuns — através de seus fundos de pensão, seguradoras, gestoras — acabam possuindo indiretamente. Quando a Casas Bahia entra em recuperação, não é só um problema da varejista; é um problema de quem investiu nessas estruturas.
Então esses R$ 3,95 bilhões em fundos são perdas garantidas?
Não necessariamente. Alguns fundos têm garantias, outros têm prioridade na fila de credores. O FIDC IBCB-AF01, por exemplo, está listado como credor quirografário — sem garantia especial. Mas o resultado dependerá de como a recuperação judicial se desenrola e quanto da dívida total consegue ser recuperada.
E o crediário ao consumidor? Aquele financiamento que permite alguém comprar na loja?
Esse é um risco diferente. Quando um cliente compra a prazo na Casas Bahia, aquele direito de receber é vendido a um fundo. Se o cliente não paga, o fundo sofre. Mas agora, se a Casas Bahia entra em recuperação, há dúvida sobre quem paga quem — o cliente, a loja, ou ninguém.
O BanQi é a plataforma digital de crédito do grupo, certo?
Exato. E ela também tem fundos de investimento. O BanQi EP vai convocar assembleia para decidir se continua operando ou se liquida. Os outros dois decidiram continuar, mas reconheceram que há um evento de avaliação — basicamente, um sinal de alerta.
Qual é o cenário mais provável daqui para frente?
Negociações longas. Os fundos vão tentar recuperar o máximo possível de seus créditos. Alguns podem ser pagos parcialmente, outros podem virar perdas. Tudo depende de quanto a Casas Bahia consegue gerar de caixa durante a recuperação e como os credores se organizam para dividir o bolo.
El Pulso
- 12 FIDCs ligados à Casas Bahia somavam R$ 3,95 bilhões em patrimônio em julho
- FIDC IBCB-AF01 é o maior, com R$ 1,9 bilhão, principalmente em operações com fornecedores
- Casas Bahia entrou em recuperação judicial com R$ 17,3 bilhões em dívidas totais
- Fundos de crediário acumulavam R$ 113,3 milhões em provisões para devedores duvidosos
O maior FIDC exposto é o IBCB-AF01, com R$ 1,9 bilhão em patrimônio, principalmente ligado a operações com fornecedores. Fundos também financiam crediário de clientes e compras na cadeia de suprimentos, com provisões significativas para devedores duvidosos.
Casas Bahia tem papéis em 12 fundos de investimento em direitos creditórios que somavam R$ 3,95 bilhões em julho, antes do pedido de recuperação judicial com R$ 17,3 bilhões em dívidas.
No domingo passado, o Grupo Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial carregando consigo uma dívida de aproximadamente R$ 17,3 bilhões. O que poucos percebem é que essa crise não afeta apenas credores tradicionais — ela se estende por uma rede complexa de fundos de investimento em direitos creditórios, estruturas financeiras que captam recursos de investidores para comprar e gerenciar fluxos de pagamento. Segundo levantamento da Uqbar, consultoria especializada em crédito estruturado, a varejista tem papéis em 12 desses fundos que somavam patrimônio líquido de aproximadamente R$ 3,95 bilhões em julho, pouco antes do colapso.
O maior deles é o FIDC IBCB-AF01, que chegou a R$ 1,9 bilhão em patrimônio no mês anterior à recuperação. Administrado pela Hemera e gerido pela Intrabank Asset Management, esse fundo funciona como uma estrutura de risco sacado ligada principalmente a operações com fornecedores — empresas do Grupo Casas Bahia aparecem como devedoras. Na petição de recuperação judicial, o fundo foi listado entre os credores quirografários com direito a receber R$ 1,09 bilhão. Um veículo semelhante, o FIDC CBSB, tinha patrimônio de R$ 239,2 milhões e aparece na lista de credores com R$ 233,9 milhões a receber.
Outra categoria de fundos foi criada especificamente para financiar a cadeia de suprimentos da Casas Bahia. O FIDC GCB Fornecedores Comerciais, com patrimônio de R$ 790,7 milhões, funciona de forma elegante: fornecedores cedem ao fundo valores que têm a receber por vendas feitas a prazo para a varejista. Após o pedido de recuperação judicial, a administradora Oliveira Trust informou que a Casas Bahia é devedora de direitos creditórios que integram a carteira. Os cotistas já contrataram um escritório de advocacia para representá-los no processo.
Há também fundos expostos ao crediário — aquele financiamento que permite clientes comprar nas lojas sem pagar à vista. O FIDC Grupo Casas Bahia, criado em 2024 para financiar essas compras, tinha patrimônio de R$ 159,6 milhões em julho, mas já acumulava R$ 113,3 milhões em provisões para devedores duvidosos e R$ 32,2 milhões em créditos vencidos e não pagos. O FIDC FGCB III Segmento Multicarteira, com patrimônio de R$ 384 milhões, combina recebíveis do crediário com notas comerciais emitidas pela própria Casas Bahia — registrava R$ 66,9 milhões em provisões e R$ 49,4 milhões em créditos vencidos.
Os efeitos da recuperação judicial começaram a aparecer também nos fundos ligados ao BanQi, a plataforma financeira do grupo. O FIDC BanQi EP, que tinha patrimônio de R$ 188,3 milhões, convocará assembleia para avaliar o grau de comprometimento de suas atividades. No BanQi II, com R$ 141 milhões, os cotistas reconheceram a ocorrência de um evento de avaliação decorrente da recuperação judicial, mas decidiram pela não liquidação e manutenção do funcionamento regular do fundo. Decisão semelhante foi tomada no BanQi III, que tinha patrimônio de R$ 40,2 milhões.
O que torna essa situação particularmente complexa é que o montante de R$ 3,95 bilhões em fundos não representa necessariamente o volume total de créditos sujeito à recuperação judicial. Os fundos têm diferentes tipos de exposição à varejista — alguns financiam fornecedores, outros compram títulos de dívida da própria companhia, outros ainda capturam o risco do crediário ao consumidor. Cada um desses veículos agora enfrenta uma avaliação de seus ativos e uma negociação sobre como serão tratados na reestruturação da Casas Bahia. Para os cotistas desses fundos, a próxima fase será acompanhar assembleias, decisões de liquidação ou manutenção, e o resultado das negociações com a varejista em recuperação.
Citas Notables
A Casas Bahia é devedora de direitos creditórios integrantes da carteira— Administradora Oliveira Trust, sobre o FIDC GCB Fornecedores Comerciais