Há doenças que chegam em silêncio, disfarçadas de tosse comum, e só revelam sua gravidade quando já avançaram demais. A fibrose pulmonar idiopática é uma delas: rara, progressiva e sem cura, ela afeta cerca de 18 mil brasileiros e condena quem a recebe a uma sobrevida média de cinco anos. Os únicos medicamentos capazes de retardar seu avanço custam R$ 20 mil por mês e não são oferecidos pelo SUS, deixando pacientes diante de uma escolha cruel entre a Justiça e o silêncio dos pulmões.
Fibrose pulmonar idiopática: doença rara exige remédio de R$ 20 mil que SUS não oferece
O remédio consegue retardar a doença, mas o valor é totalmente fora da realidade
Por que essa doença demora tanto para ser diagnosticada?
Porque os sintomas iniciais — tosse seca, falta de ar, cansaço — aparecem em muitas outras doenças muito mais comuns. Um clínico geral vê isso e pensa em bronquite, em algo relacionado à idade. Se não pedir uma tomografia, o diagnóstico fica retardado por meses. Enquanto isso, a doença está progredindo silenciosamente.
E quando finalmente é diagnosticada, o que muda?
Muda que você sabe o que está destruindo seus pulmões. Mas também muda que já perdeu tempo precioso. Quanto mais cedo começa o tratamento, maior a chance de retardar a progressão. Se chega tarde demais, o prognóstico é muito menos promissor.
Os medicamentos conseguem curar?
Não. Eles não restauram o que já foi perdido e não revertem as cicatrizes existentes. Mas conseguem desacelerar a progressão e preservar a função pulmonar por mais tempo. Para quem tem a doença, isso é importantíssimo.
Então por que o SUS não oferece esses medicamentos?
Custam R$ 20 mil por mês cada um. A Conitec analisou os dois antifibróticos em 2018 e decidiu que não havia custo-efetividade para incluí-los. O impacto orçamentário seria muito grande.
E os pacientes que precisam?
Recorrem à Justiça. Conseguem uma decisão favorável e o SUS passa a fornecer. Mas o processo pode ser demorado. Enquanto isso, vivem com limitações cada vez maiores.
Qual é o apelo dos pacientes?
Que os governantes coloquem essa medicação no SUS. Eles sabem que o remédio não cura, mas consegue retardar a doença. E para quem está morrendo lentamente, retardar é tudo.
El Pulso
- Uma tosse que não passa e uma falta de ar crescente são os primeiros sinais de uma doença que a maioria dos médicos generalistas não reconhece a tempo.
- Sem diagnóstico precoce e sem acesso aos antifibróticos, a capacidade respiratória se deteriora enquanto o sistema de saúde permanece inerte.
- O preço de R$ 20 mil mensais por pirfenidona ou nintedanibe torna o tratamento inacessível para quase todos os pacientes, que precisam recorrer à Defensoria Pública ou a advogados para obrigar o Estado a custear os remédios.
- A Conitec rejeitou a incorporação dos dois medicamentos ao SUS em 2018, e atualmente não há nenhuma demanda em análise para revisão dessa decisão.
- Pacientes que conseguem a medicação via Justiça relatam estabilização da doença — não melhora, mas também não piora —, o que, diante do prognóstico, já é considerado uma vitória.
Há doenças que chegam em silêncio, disfarçadas de tosse comum, e só revelam sua gravidade quando já avançaram demais. A fibrose pulmonar idiopática é uma delas: rara, progressiva e sem cura, ela afeta cerca de 18 mil brasileiros e condena quem a recebe a uma sobrevida média de cinco anos. Os únicos medicamentos capazes de retardar seu avanço custam R$ 20 mil por mês e não são oferecidos pelo SUS, deixando pacientes diante de uma escolha cruel entre a Justiça e o silêncio dos pulmões.
Terezinha Isabel Horn, bancária aposentada de 74 anos de Cruz Alta, passou meses sem diagnóstico antes de receber um nome para o que sentia: fibrose pulmonar idiopática. A notícia veio acompanhada de uma sentença — a doença progride rápido, não tem cura e pode matar. Ela nunca tinha ouvido falar nisso antes.
A fibrose pulmonar idiopática afeta cerca de 18 mil brasileiros, criando cicatrizes permanentes nos pulmões que os tornam progressivamente incapazes de respirar. A sobrevida média após o diagnóstico é de cinco anos. O problema é que seus sintomas iniciais — tosse seca, falta de ar, cansaço — se confundem facilmente com condições mais comuns, retardando o diagnóstico por meses. Especialistas apontam subnotificação significativa no país.
Existem medicamentos capazes de desacelerar a progressão da doença: pirfenidona e nintedanibe. Eles não curam nem revertem as cicatrizes, mas preservam a função pulmonar por mais tempo. O obstáculo é o custo — cerca de R$ 20 mil por mês — e o fato de o SUS não os oferecer. A Conitec os analisou em 2018 e decidiu não incorporá-los, e não há nova análise em curso.
Terezinha busca acesso à medicação na Justiça há um ano e meio. Maria Rabelo, socióloga aposentada de 65 anos de Porto Alegre, descobriu a doença por acaso num check-up e também precisou recorrer judicialmente. Após obter decisão favorável e iniciar o tratamento, ela relata estabilização: os sintomas não melhoraram, mas também não pioraram. Para quem convive com essa doença, isso já é uma vitória.
O Ministério da Saúde afirma oferecer assistência integral por equipes multiprofissionais, com foco no controle dos sintomas. Especialistas, porém, pedem mais: maior divulgação da doença entre profissionais de saúde e a população, para que o diagnóstico chegue mais cedo — quando o tratamento ainda pode fazer diferença real.
Uma tosse seca que não passa. Depois, a falta de ar que se instala na vida como um hóspede indesejado. Foi assim que começou para Terezinha Isabel Horn, bancária aposentada de 74 anos em Cruz Alta, no Noroeste do Rio Grande do Sul. Os médicos iniciais não encontraram resposta. Só depois de investigação mais profunda veio o nome da doença: fibrose pulmonar idiopática. O diagnóstico foi devastador. O médico foi claro: a doença progride rápido, não tem cura, pode levar à morte. Terezinha nunca tinha ouvido falar disso antes.
A fibrose pulmonar idiopática é rara. Afeta cerca de 18 mil brasileiros, segundo a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisologia. A doença cria cicatrizes permanentes nos pulmões, tornando-os rígidos e cada vez menos capazes de fazer o trabalho básico da respiração. A sobrevida média após o diagnóstico é de cinco anos. Mas o que torna essa doença particularmente insidiosa é que ela chega tarde. Os sintomas iniciais — tosse seca persistente, falta de ar, cansaço ao esforço — são comuns a muitas outras condições muito mais frequentes. Um paciente consulta um clínico geral. Se não for solicitada uma tomografia, o diagnóstico pode ser confundido com bronquite, atribuído à idade, retardado por meses. Adalberto Sperb Rubin, chefe do Serviço de Pneumologia da Santa Casa e professor da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, acredita que há subnotificação significativa da doença no país, derivada exatamente dessas dificuldades de descoberta. Quando o diagnóstico finalmente chega, a capacidade respiratória já começou a se deteriorar, tornando o prognóstico muito menos promissor.
Mariana Godoy, pneumologista do Hospital São Lucas da PUCRS, é enfática: quando uma tosse ou falta de ar não melhoram como esperado, o paciente precisa ser avaliado por um pneumologista. Essa conduta é fundamental. Quanto mais cedo o tratamento começa, maior a chance de retardar a progressão. Décadas atrás, tudo que se podia fazer era aliviar os sintomas. Hoje existem alternativas mais robustas: transplante de pulmão para os casos mais avançados, oxigenioterapia, e medicamentos antifibróticos que conseguem desacelerar a progressão e preservar a função pulmonar por mais tempo. Esses remédios não restauram o que já foi perdido nos pulmões e não revertem as cicatrizes existentes. Mas são importantíssimos para quem tem o diagnóstico.
O problema é o preço. Os dois antifibróticos disponíveis no Brasil — pirfenidona e nintedanibe — custam cerca de R$ 20 mil por mês cada um. O Sistema Único de Saúde não os oferece. Para a maior parte dos pacientes, essa cifra é simplesmente inviável. Terezinha Isabel Horn busca o acesso à medicação na Justiça há cerca de um ano e meio. Enquanto isso, ela convive com limitações físicas impostas pelo cansaço e pela dificuldade respiratória, além da vergonha causada pela tosse persistente. "O remédio consegue retardar a doença, mas o valor é totalmente fora da realidade da população", desabafa.
Pacientes recorrem à Defensoria Pública ou a advogados particulares. O processo judicial deve comprovar a doença e a indispensabilidade do medicamento. Em caso de vitória, o SUS compra o remédio e o disponibiliza por intermédio das Secretarias de Saúde estadual ou municipal. O problema é que o processo pode ser demorado. Maria Rabelo, 65 anos, socióloga aposentada de Porto Alegre, descobriu a fibrose pulmonar idiopática por acaso durante um check-up de rotina, antes mesmo de apresentar sintomas. Ela também precisou recorrer à Justiça. A decisão favorável veio alguns meses depois. Após cerca de um ano e meio do início do tratamento, ela afirma que a doença estabilizou. "Os sintomas não melhoraram, mas também não pioraram, o que é uma vitória", diz.
O Ministério da Saúde respondeu que o SUS oferece assistência integral aos pacientes com fibrose pulmonar idiopática por meio de equipes multiprofissionais, com foco no controle dos sintomas e na preservação da capacidade funcional. Sobre os antifibróticos, o órgão afirma que a inclusão de novos fármacos depende da análise da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), que considera eficácia, segurança, custo-efetividade e impacto orçamentário. No momento, não há demanda em análise para a incorporação de pirfenidona e nintedanibe. Zero Hora apurou que os dois remédios foram analisados individualmente pela Conitec em 2018. Em ambos os casos, a decisão foi por não incluí-los no SUS.
A fibrose pulmonar idiopática não tem causa conhecida. Diferentemente de outras formas de fibrose que podem acometer o pulmão, o surgimento dessa variante não está associado a nenhum fator específico — justamente por isso recebe o termo médico "idiopática", que remete a condições cuja causa não pode ser identificada. Sabe-se que o avanço da idade gera predisposição para a doença, que afeta predominantemente idosos. Pode ser desenvolvida por pessoas de outras faixas etárias, mas a ocorrência é considerada rara. Adalberto Sperb Rubin acredita que essa predominância está associada ao próprio envelhecimento, com alteração imunológica e diminuição da capacidade do organismo de reagir. Também pode estar relacionada a maior tempo de exposição a fatores como tabagismo, embora muitos pacientes nunca tenham fumado. Para que os estudos avancem, segundo o pneumologista, é necessário que a fibrose pulmonar idiopática seja mais divulgada entre a população e os próprios profissionais de saúde. É uma doença muito desconhecida pelas pessoas, a menos que se tenha um caso na família ou entre amigos próximos. E embora os pneumologistas vejam muitos casos na especialidade, não é comum na prática da clínica geral.
Citas Notables
O médico foi franco ao me dizer que a doença progride rápido, não tem cura e pode levar à morte. Então, foi muito difícil aceitar.— Terezinha Isabel Horn, paciente, 74 anos
Quanto mais cedo começarmos o tratamento, maior a chance de retardar a progressão da doença.— Mariana Godoy, pneumologista do Hospital São Lucas da PUCRS