Fernando Varela projeta impacto global da estreia de Cabo Verde no Mundial

Toda a gente vai olhar de maneira diferente e ver que há qualidade
Fernando Varela sobre o impacto global da presença de Cabo Verde no Mundial 2026.

Cabo Verde conquistou uma das nove vagas diretas africanas para o Mundial 2026, terminando o Grupo D com 23 pontos, à frente dos Camarões. Fernando Varela destaca a resiliência dos jogadores da diáspora e a influência do treinador Pedro Brito como chaves do sucesso histórico.

  • Cabo Verde conquistou uma das nove vagas diretas africanas para o Mundial 2026, vencendo Essuatíni 3-0 na última jornada
  • Terminou o Grupo D com 23 pontos, à frente dos Camarões (19 pontos)
  • É o 14.º país africano e quarto lusófono a apurar-se para um Mundial
  • Fernando Varela, ex-internacional com 52 jogos, encerrou carreira em julho de 2025
  • O Mundial 2026 terá 48 equipas pela primeira vez, organizado por EUA, México e Canadá

Cabo Verde assegurou presença inédita no Mundial 2026 ao vencer Essuatíni (3-0), tornando-se o 14.º país africano a apurar-se. Ex-internacional Fernando Varela projeta maior visibilidade e oportunidades para o futebol cabo-verdiano.

Na segunda-feira, quando Cabo Verde venceu Essuatíni por 3-0 na Praia, o país conquistou algo que nunca havia conquistado: um lugar no Mundial. Não foi uma vitória qualquer — foi a confirmação de uma vaga direta entre as nove disponibilizadas ao continente africano, selando o apuramento histórico na última jornada do Grupo D com 23 pontos, deixando os Camarões, recordistas de presenças em fases finais africanas, em segundo lugar com 19.

Fernando Varela, que aos 37 anos encerrou recentemente a carreira profissional, acompanhou tudo de fora. O antigo defesa central, que vestiu a camisola dos tubarões azuis entre 2008 e 2019 em 52 encontros, sente agora a dimensão do que acaba de acontecer. "Estar no Mundial vai abrir portas para o jogador cabo-verdiano e fará grande marketing em torno da seleção, pois toda a gente vai olhar de maneira diferente para um país tão pequeno e ver que há qualidade", disse à agência Lusa. Para Varela, este é o culminar de uma trajetória que começou muito antes, quando Cabo Verde ainda era praticamente invisível no futebol internacional.

O caminho até aqui foi longo. Há duas décadas, o país ocupava a 182.ª posição no ranking da FIFA. Em 2014, tinha subido para 27.º lugar — um salto extraordinário que refletia o trabalho sistemático de identificação de talentos espalhados pela diáspora. Agora, na véspera do Mundial, Cabo Verde situa-se no 70.º lugar. Antes desta qualificação histórica, o país tinha participado quatro vezes na Taça das Nações Africanas, chegando aos quartos de final em 2013 e novamente em 2023, mas nunca havia transposto a barreira de um torneio mundial. A expansão das vagas diretas africanas de cinco para nove, mais uma via de play-off, criou a oportunidade que Cabo Verde aproveitou.

Varela atribui o sucesso a uma combinação de fatores. A resiliência dos jogadores da diáspora foi fundamental — homens que aceitaram vir para a seleção sem grandes expectativas de conforto, mas com disposição total para dar tudo. "A chave do sucesso foi os jogadores da diáspora não terem grandes esperanças nem pensarem que iam para uma seleção com grandes condições, mas saber que tinham de dar tudo e mais alguma coisa", explicou. Mas havia também a questão da liderança. Pedro Brito, conhecido como Bubista, atual selecionador, começou como adjunto sob João de Deus e Lúcio Antunes, absorvendo conhecimento antes de assumir o comando. "Antes era difícil convencer atletas de tamanha qualidade a virem à seleção com o maior orgulho e prazer", notou Varela, sublinhando que a competência demonstrada por Bubista mudou essa realidade.

O plantel que fez história é uma mistura de gerações. Há figuras mais antigas como Vozinha, Stopira, Ryan Mendes e Garry Rodrigues, que carregam a experiência de campanhas anteriores. A nova geração traz nomes como Logan Costa, Steven Moreira, João Paulo e Dailon Livramento — jogadores que querem deixar a sua marca e já o fizeram de forma indelével. "Todos são importantes, já que é preciso ter coesão para atingir estes patamares", sublinhou Varela.

Com a qualificação confirmada, Cabo Verde tornou-se o 14.º país africano a apurar-se para um Mundial e o quarto lusófono. É também, por enquanto, o segundo menor país em população e a mais pequena nação em área a chegar ao principal torneio planetário de seleções. O Mundial 2026 será inédito em vários aspetos: será a primeira vez com 48 equipas em vez de 32, e será organizado conjuntamente por Estados Unidos, México e Canadá. Já 28 seleções estão apuradas.

Varela, que jogou em Portugal, Roménia e Grécia, e que marcou um dos golos da primeira vitória de Cabo Verde na CAN frente a Angola em 2013, confessa ter sentido emoção ao assistir ao apuramento. "Tive momentos de 'déjà vu' e uma lágrima no olho no último jogo, porque senti aquilo que os atletas estavam a sentir em campo. Só quem está lá dentro e veio muito de trás sabe o quão difícil é." Quanto ao que espera do desempenho em 2026, Varela é realista mas otimista: a equipa provavelmente será cautelosa, aproveitando contra-ataques, mas o objetivo principal deve ser "fazer as coisas bem" e "desfrutar, aproveitar os momentos e ser feliz". Se conseguir vencer, será espetacular. Mas para um país que nunca esteve num Mundial, estar lá já é a vitória.

Estar no Mundial vai abrir portas para o jogador cabo-verdiano e fará grande marketing em torno da seleção, pois toda a gente vai olhar de maneira diferente para um país tão pequeno e ver que há qualidade.
— Fernando Varela
A chave do sucesso foi os jogadores da diáspora não terem grandes esperanças nem pensarem que iam para uma seleção com grandes condições, mas saber que tinham de dar tudo e mais alguma coisa.
— Fernando Varela
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

O que muda para Cabo Verde quando entra num Mundial, comparado com a Taça das Nações Africanas?

Model

A CAN abriu portas para sonhar, mas o Mundial é outro patamar completamente diferente. É a visibilidade global, o marketing que rodeia o país inteiro, não apenas o futebol. Quando 48 seleções estão a jogar, o mundo inteiro está a ver.

Inventor

Varela fala muito da diáspora. Por que é que isso foi tão importante?

Model

Porque Cabo Verde é pequeno. O campeonato interno não é forte. Os melhores talentos estão espalhados por Portugal, Brasil, Europa. Convencê-los a voltar para a seleção, sem grandes condições, exigiu algo especial — resiliência, sacrifício, orgulho.

Inventor

E o treinador Pedro Brito — o que é que ele trouxe de diferente?

Model

Competência e aprendizagem. Começou como adjunto, absorveu tudo, e depois provou que sabia o que fazer. Antes era difícil convencer jogadores de qualidade. Bubista mudou isso.

Inventor

Varela diz que sentiu uma lágrima no olho. Isso é pessoal ou é sobre o país?

Model

É os dois. Ele participou nas primeiras campanhas da CAN, viu o crescimento desde o 182.º lugar no ranking. Agora, de fora, vê o que conseguiram. É o reconhecimento de um trajeto que ele ajudou a começar.

Inventor

Como é que Cabo Verde vai jogar no Mundial?

Model

Provavelmente com cautela. Sem experiência nestes palcos, vão aguardar, sair em contra-ataque. Mas o foco tem de ser fazer as coisas bem, aproveitar os momentos, ser feliz. Se ganharem, será espetacular.

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