No cruzamento entre ciência, saúde pública e mercado financeiro, Eli Lilly e Novo Nordisk emergem como protagonistas improváveis de uma das maiores apostas econômicas da década. Seus medicamentos GLP-1 — desenvolvidos após um século de tentativas — prometem transformar não apenas corpos, mas portfólios de investimento, com ações valorizadas até 765% em cinco anos. O mundo observa com esperança e cautela: a obesidade afeta bilhões, o mercado pode chegar a US$ 100 bilhões até 2030, mas a euforia dos investidores carrega o peso familiar de toda bolha que ainda não sabe o seu nome.
'Febre Ozempic': ações de remédios para emagrecer sobem até 765% em 5 anos
Levou cem anos para chegar aqui, e agora ninguém consegue acompanhar a demanda
Por que essas duas empresas conseguiram dominar um mercado que levou cem anos para ser desenvolvido?
Porque foram as primeiras a resolver um problema científico que ninguém tinha conseguido resolver. Quando você é o primeiro em algo que funciona de verdade, e o mercado é gigante, você ganha uma vantagem enorme.
Mas quanto disso é mérito científico real e quanto é especulação? As ações subiram 765% em cinco anos. Isso é baseado em vendas atuais ou em projeções de vendas futuras?
Principalmente em projeções. As vendas reais ainda são uma fração do que os analistas esperam. A Eli Lilly projeta crescimento de 8 bilhões em 2022 para 50 bilhões em 2030.
E qual é o risco real aqui? Parece que o mercado é tão grande que não há como falhar.
O risco é que a demanda é tão grande que as farmacêuticas não conseguem produzir o suficiente. Isso cria espaço para falsificações. Além disso, há preocupações com efeitos colaterais de longo prazo que ainda não são totalmente conhecidos.
Espera, um estudo recente encontrou relatos de pensamentos suicidas associados a esses medicamentos. Isso é confirmado ou é apenas um sinal de alerta?
É um sinal de alerta baseado em dados da Organização Mundial da Saúde. Não é confirmado como causa direta, mas é preocupante o suficiente para estar sendo investigado.
E quanto à concorrência? Outras empresas não vão entrar nesse mercado?
Vão, sim. Merck, Amgen e outras estão desenvolvendo medicamentos similares. Mas as patentes das líderes ainda as protegem por alguns anos.
Então quando as patentes caducarem, o que acontece com essas ações que subiram 765%?
É a grande pergunta. Os preços podem cair significativamente quando houver genéricos e concorrência real.
Os analistas ainda recomendam compra?
O J.P. Morgan sim. Mas outros, como a BCA, dizem que as ações estão muito caras e que agora não é um bom momento para entrar.
Der Puls
- Eli Lilly e Novo Nordisk tornaram-se duas das empresas mais valiosas do planeta não pela tecnologia digital, mas por um hormônio intestinal que ensina o cérebro a sentir saciedade.
- A demanda pelos medicamentos é tão explosiva que as fabricantes não conseguem produzir o suficiente, abrindo espaço perigoso para versões falsificadas no mercado.
- Estudos recentes apontam relatos desproporcional de pensamentos suicidas associados à semaglutida, especialmente em pacientes que também usam antidepressivos, acendendo alertas regulatórios.
- Concorrentes como Merck, Amgen e Viking Therapeutics avançam com medicamentos similares previstos para 2026-2029, ameaçando o duopólio atual.
- Analistas do J.P. Morgan projetam crescimento vertiginoso das vendas, mas estrategistas como Irene Tunkel advertem: as ações estão caras demais e a queda pode ser tão dramática quanto a ascensão.
No cruzamento entre ciência, saúde pública e mercado financeiro, Eli Lilly e Novo Nordisk emergem como protagonistas improváveis de uma das maiores apostas econômicas da década. Seus medicamentos GLP-1 — desenvolvidos após um século de tentativas — prometem transformar não apenas corpos, mas portfólios de investimento, com ações valorizadas até 765% em cinco anos. O mundo observa com esperança e cautela: a obesidade afeta bilhões, o mercado pode chegar a US$ 100 bilhões até 2030, mas a euforia dos investidores carrega o peso familiar de toda bolha que ainda não sabe o seu nome.
Eli Lilly e Novo Nordisk não são nomes associados ao universo da tecnologia, mas hoje rivalizam com gigantes da inteligência artificial em valor de mercado. A primeira vale cerca de US$ 853 bilhões; a segunda, US$ 602 bilhões. O segredo está em uma classe de medicamentos chamada GLP-1, que age sobre um hormônio intestinal para sinalizar saciedade ao cérebro — resultado de cem anos de tentativas frustradas antes de finalmente funcionar.
O impacto nos mercados foi imediato e vertiginoso. As ações da Eli Lilly subiram 765% em cinco anos; as da Novo Nordisk, 418%. A euforia tem base concreta: em 2020, 2,6 bilhões de pessoas estavam acima do peso, e projeções indicam que metade da população mundial pode ser obesa até 2035. O mercado global de medicamentos para obesidade deve saltar de US$ 6 bilhões para US$ 100 bilhões até 2030, segundo o banco Julius Bäer. Nos Estados Unidos, onde mais de 70% da população está acima do peso, as vendas podem ultrapassar US$ 140 bilhões até 2032.
Além do apelo comercial, os medicamentos acumulam evidências científicas promissoras: redução de inflamação em órgãos vitais, menor risco cardiovascular e possível proteção contra Alzheimer. Governos têm interesse direto — os EUA gastaram US$ 700 bilhões com obesidade em 2020, valor que pode dobrar até 2040.
Mas o entusiasmo encontra obstáculos sérios. A escassez de oferta alimenta um mercado de falsificações. Um estudo publicado na Jama Network identificou relatos elevados de pensamentos suicidas associados à semaglutida, especialmente em combinação com antidepressivos. E o horizonte competitivo se estreita: Merck, Amgen e outros planejam lançar medicamentos similares entre 2026 e 2029.
O J.P. Morgan mantém ambas as empresas como recomendação de compra, projetando que a Eli Lilly pode quadruplicar suas vendas de GLP-1 até 2030. Mas a estrategista Irene Tunkel discorda: para ela, as expectativas já estão tão infladas que o risco de queda é substancial. A febre Ozempic pode ser real — a questão é saber até onde o mercado consegue sustentar o calor.
Eli Lilly e Novo Nordisk não são nomes que dominam as conversas sobre tecnologia, mas ocupam posições que rivalizavam com gigantes da inteligência artificial. A Eli Lilly, fabricante do Mounjaro para diabetes e do Zepbound para perda de peso, vale atualmente cerca de 853 bilhões de dólares e figura entre as dez empresas mais valiosas do mundo. Sua concorrente dinamarquesa, a Novo Nordisk, segue logo atrás com 602 bilhões de dólares em valor de mercado, produzindo o Ozempic para diabetes e o Wegovy para controle de peso. Ambas as empresas construíram essa posição em torno de uma classe de medicamentos chamada GLP-1, que age sobre um hormônio produzido pelo intestino para sinalizar saciedade ao cérebro.
O sucesso explosivo desses fármacos contrasta com uma história de fracassos. Levou cem anos de tentativas até que Eli Lilly e Novo Nordisk conseguissem desenvolver medicamentos eficazes nessa categoria. Quando finalmente chegaram ao mercado, o impacto foi imediato. As ações da Eli Lilly subiram 765% nos últimos cinco anos, enquanto a Novo Nordisk avançou 418% no mesmo período. Nos últimos doze meses, o crescimento foi de 72% e 45,7%, respectivamente. Esse desempenho reflete não apenas inovação científica, mas uma oportunidade de mercado de proporções históricas.
O tamanho potencial do mercado explica a euforia dos investidores. Em 2020, cerca de 2,6 bilhões de pessoas, ou 38% da população global, estavam com sobrepeso. As projeções indicam que esse número pode atingir metade da população mundial até 2035. O número de obesos, que era de 980 milhões em 2020, pode chegar a 2 bilhões em 2035. Damien Ng, diretor executivo de pesquisa temática do banco Julius Bäer, estima que o mercado global de medicamentos para perda de peso crescerá de 6 bilhões de dólares para 100 bilhões até 2030. Os analistas do J.P. Morgan projetam que as vendas nos Estados Unidos, onde mais de 70% da população está com sobrepeso ou obesidade, podem exceder 100 bilhões de dólares anuais e ultrapassar 140 bilhões até 2032.
Além do apelo comercial óbvio, esses medicamentos ganharam popularidade porque usuários documentaram perdas de peso transformadoras. Há também crescentes evidências científicas de que os fármacos podem reduzir inflamação em órgãos vitais, diminuir riscos de doenças cardiovasculares, derrames e até Alzheimer. Governos também têm interesse: pessoas obesas enfrentam maior risco de doença coronariana, hipertensão, apneia do sono e diabetes tipo 2. Os Estados Unidos gastaram 700 bilhões de dólares com obesidade em 2020, valor que pode chegar a 1,2 trilhão até 2040, segundo a World Obesity Federation.
Mas o entusiasmo dos mercados enfrenta obstáculos reais. A demanda é tão grande que as farmacêuticas não conseguem atender completamente, criando espaço para medicamentos falsificados. Tanto Eli Lilly quanto Novo Nordisk planejam investir 30 bilhões de dólares até 2026 para aumentar capacidade de produção. Um estudo publicado em agosto pela revista Jama Network identificou um número desproporcional de relatos de pensamentos suicidas associados à semaglutida, o ingrediente ativo nesses medicamentos, particularmente entre pacientes que também tomavam antidepressivos. Há também preocupações sobre efeitos colaterais de longo prazo ainda não totalmente compreendidos.
O cenário competitivo também se aproxima. Merck, Amgen, Viking Therapeutics e a parceria Zealand/Boehringer estão desenvolvendo medicamentos similares com lançamentos previstos entre 2026 e 2029. Espera-se que inteligência artificial acelere a descoberta de novos fármacos nessa categoria. Irene Tunkel, estrategista chefe da BCA, aponta ainda o risco de escrutínio regulatório: o governo americano pode pressionar a Eli Lilly a reduzir preços se considerar a situação uma questão de saúde pública e a empresa agir como monopólio.
Os analistas do J.P. Morgan mantêm ambas as empresas como principais recomendações de compra, projetando que as vendas de GLP-1 da Eli Lilly crescerão de 8 bilhões de dólares em 2022 para 22 bilhões em 2025, 34 bilhões em 2027 e 50 bilhões em 2030. Estimam que cerca de 12 milhões de pacientes com diabetes e 16 milhões com obesidade estarão em tratamento com esses medicamentos até o final da década, comparado aos atuais 3,5 milhões e 4 milhões, respectivamente. Mas Tunkel discorda da avaliação otimista: as ações estão muito caras, diz ela, com expectativas tão altas que a probabilidade de queda é significativa. Para ela, este não é um bom ponto de entrada para investidores.
Bemerkenswerte Zitate
Os medicamentos GLP-1 são o tema mais quente da área de biotecnologia, com evidências crescentes de que podem reduzir inflamação, diminuir riscos de doenças cardiovasculares, derrames e até Alzheimer— Damien Ng, diretor executivo de pesquisa temática do Julius Bäer
Nesse ponto há muita especulação e entrar é algo arriscado. Com expectativas muito altas, a probabilidade de os papéis caírem é muito grande— Irene Tunkel, estrategista chefe da BCA