Fato ou Fake: checagem de declarações de Romeu Zema em entrevista à Globo

O superávit dependia de fontes extraordinárias, não de transformação estrutural
A checagem revelou que o resultado positivo de Zema em 2024 foi impulsionado por acordos de reparação, não por gestão ordinária.
Mark

Por que a Globo decidiu fazer essas entrevistas agora, neste formato específico?

Mimi

Porque estamos em ano eleitoral e os candidatos principais precisam ser apresentados aos eleitores de forma substantiva. Colocar as sabatinas depois do Jornal Nacional, em vez de durante, sinaliza que isso é conteúdo de peso, não um segmento dentro de um telejornal.

Mark

E por que Zema foi escolhido para ir primeiro?

Mimi

Ele estava entre os seis mais bem colocados na pesquisa de intenção de voto. A ordem foi definida por sorteio, com representantes dos partidos presentes para garantir transparência.

Mark

Então a checagem encontrou que ele mentiu sobre os números?

Mimi

Não exatamente. Os números existem, mas ele apresentou uma versão incompleta. O superávit de 5 bilhões que ele citou foi de 2024, não do final de sua gestão. E aquele resultado veio de acordos de reparação, não de gestão ordinária.

Mark

Qual é a diferença prática disso?

Mimi

A diferença é que um superávit baseado em receitas extraordinárias não prova que o estado está estruturalmente mais saudável. Se você ganha uma herança inesperada, sua conta fica positiva, mas seus gastos mensais continuam os mesmos.

Mark

E o que as projeções indicam para o futuro?

Mimi

Que Minas Gerais voltará a ter déficit em 2026. Então a história que Zema contava — de uma transformação duradoura — não se sustenta quando você olha para frente.

Mark

Por que isso importa para os eleitores?

Mimi

Porque a competência administrativa é um dos argumentos centrais de Zema como candidato. Se aquele argumento não resiste ao escrutínio dos números, os eleitores precisam saber disso antes de votar.

  • Zema foi o primeiro dos seis principais candidatos à presidência a enfrentar as câmeras da Globo em formato de sabatina, estabelecendo o tom de escrutínio para toda a série.
  • Sua declaração mais impactante — a transformação fiscal de Minas Gerais — foi apresentada como prova de competência administrativa, mas dependia de um recorte temporal conveniente.
  • O superávit de R$ 5,1 bilhões citado refere-se apenas a 2024, ano inflado por acordos de reparação de Mariana e Brumadinho, receitas que não se repetirão.
  • Em 2025, último ano completo de sua gestão, o superávit real foi de apenas R$ 1,1 bilhão — e projeções para 2026 apontam retorno a déficit de R$ 5 bilhões.
  • A checagem classificou a afirmação como 'Não é Bem Assim', sinalizando que a verdade existe, mas é mais frágil e mais complexa do que o candidato apresentou.

Na abertura de uma série de sabatinas presidenciais promovida pela Globo, Romeu Zema apresentou sua gestão em Minas Gerais como uma virada fiscal exemplar — de um déficit de R$ 11 bilhões para um superávit de R$ 5 bilhões. A verificação de fatos revelou que esse número, embora real, pertence a um único ano favorecido por receitas extraordinárias e não recorrentes, lembrando-nos de que os números da política raramente contam sozinhos a história que parecem contar.

Na noite de 24 de agosto, Romeu Zema tornou-se o primeiro presidenciável a sentar diante dos jornalistas Renata Vasconcellos e César Tralli na nova série de sabatinas da Globo — entrevistas realizadas após o Jornal Nacional com os seis candidatos mais bem posicionados nas pesquisas. A ordem foi definida por sorteio, e Zema abriu a sequência.

Sua declaração mais marcante foi sobre Minas Gerais: assumiu o estado com déficit de R$ 11 bilhões em 2018 e afirmou deixá-lo com superávit de R$ 5 bilhões — uma narrativa de transformação fiscal que funcionava como síntese de oito anos de governo.

A equipe do Fato ou Fake, porém, encontrou uma lacuna importante. O superávit de R$ 5,1 bilhões refere-se exclusivamente a 2024, ano em que receitas extraordinárias dos acordos de reparação de Mariana e Brumadinho engordaram os cofres estaduais de forma não recorrente. O ano de 2025, último completo de sua gestão, registrou superávit bem mais modesto: R$ 1,1 bilhão. E as projeções para 2026 indicam retorno a déficit — desta vez de R$ 5 bilhões.

O ponto de partida citado por Zema era preciso: o déficit de 2018 era real, em torno de R$ 11,4 bilhões. Mas a chegada era apresentada de forma mais favorável do que os dados sustentam. A checagem foi classificada como 'Não é Bem Assim' — reconhecendo verdade parcial, mas apontando que a transformação fiscal é menos estrutural e mais circunstancial do que a narrativa sugeria.

A série continua com Ronaldo Caiado, Renan Santos, Lula, Flávio Bolsonaro e Augusto Cury nos dias seguintes, cada um sujeito ao mesmo escrutínio.

Romeu Zema sentou-se diante das câmeras da Globo na noite de segunda-feira, 24 de agosto, para uma entrevista que marcava o início de uma série de sabatinas presidenciais. Conduzido pelos jornalistas Renata Vasconcellos e César Tralli nos estúdios do Rio de Janeiro, o candidato pelo Novo foi o primeiro entre os seis principais postulantes ao Palácio do Planalto a passar por esse tipo de arguição — uma mudança de formato que levou as entrevistas para depois do Jornal Nacional, em vez de durante sua transmissão. A emissora havia selecionado os candidatos mais bem posicionados na pesquisa de intenção de voto divulgada pela Quaest em meados de agosto, e a ordem das sabatinas foi definida por sorteio, com representantes dos partidos presentes.

Durante a entrevista, Zema fez uma afirmação central sobre sua gestão em Minas Gerais. Ele declarou ter assumido o governo com um déficit orçamentário de 11 bilhões de reais em 2018 e saído com um superávit de 5 bilhões de reais — uma transformação que, segundo ele, significava um estado que passara a gastar menos do que arrecadava, invertendo um padrão anterior de despesas superiores às receitas. A declaração funcionava como um marcador de sua competência administrativa, um número concreto que resumia oito anos de gestão.

O problema é que o número não conta a história completa. Quando a equipe de fact-checking do Fato ou Fake examinou a afirmação, descobriu que o superávit de 5,1 bilhões de reais mencionado por Zema referia-se especificamente ao ano de 2024, não ao período final de sua gestão. Aquele resultado extraordinário havia sido impulsionado por receitas não recorrentes — acordos de reparação relacionados aos desastres de Mariana e Brumadinho, que trouxeram recursos únicos aos cofres estaduais. No último ano completo antes de sua saída, 2025, o saldo era bem diferente: um superávit de apenas 1,1 bilhão de reais, segundo dados da Secretaria de Estado da Fazenda de Minas Gerais.

O contexto inicial que Zema citou era preciso. De fato, o Balanço Geral do Estado de 2018 apontava um déficit orçamentário de aproximadamente 11,4 bilhões de reais. Mas a trajetória entre aquele ponto de partida e o ponto de chegada não era tão linear quanto a narrativa sugeria. E havia ainda uma projeção preocupante: para o encerramento de 2026, as contas do estado apontavam para um retorno ao déficit — desta vez de 5 bilhões de reais.

A checagem foi classificada como "Não é Bem Assim" — aquela categoria que reconhece que há verdade na declaração, mas que a verdade é mais matizada, mais complexa, ou menos favorável do que apresentada. Zema havia saído do governo com números positivos, sim, mas aqueles números dependiam de fontes extraordinárias e não representavam uma transformação estrutural tão profunda quanto suas palavras sugeriam. A série de entrevistas com os candidatos presidenciáveis continuaria nos dias seguintes — Ronaldo Caiado na terça, Renan Santos na quarta, Lula na quinta, Flávio Bolsonaro na sexta e Augusto Cury no sábado — cada um deles sujeito ao mesmo escrutínio de fatos.

Assumi com déficit de R$ 11 bilhões em 2018 e saí com superávit de R$ 5 bilhões, ou seja, o estado gastando menos do que arrecada
— Romeu Zema, durante entrevista à Globo
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