Nos primeiros meses de vigência provisória do acordo Mercosul-União Europeia, o Brasil experimenta uma reconfiguração silenciosa de seus laços comerciais: enquanto a relação com os Estados Unidos encolhe sob o peso de novas tarifas, a Europa emerge como horizonte estratégico. O crescimento de 26% nas exportações brasileiras para o bloco europeu em maio e junho de 2026 não é apenas um número — é o sinal de que acordos de longa maturação podem, quando finalmente ativados, redesenhar rotas e reduzir vulnerabilidades históricas. O Brasil começa a ingressar, nas palavras de quem acompanha o process
Exportações do Brasil para UE crescem US$ 2 bi nos primeiros meses do acordo Mercosul
A gente passa a fazer parte de um clube diferente
Por que exatamente esses dois meses — maio e junho — registraram um crescimento tão concentrado?
Porque foi quando o acordo começou a funcionar. A redução tarifária foi imediata, então as empresas que já tinham estrutura para exportar puderam aproveitar logo. Não é coincidência, é timing.
Mas o presidente da ApexBrasil evita dizer que foi só o acordo. Por quê?
Porque há sempre outros fatores — câmbio, demanda global, ciclos econômicos. Mas ele reconhece que seria muito improvável dois bilhões dos três bilhões de crescimento do semestre caírem justamente nesses dois meses se o acordo não estivesse funcionando.
E quanto aos Estados Unidos? Por que o Brasil está se afastando?
Não é escolha. Trump impôs tarifas pesadas, e as exportações caíram 13%. O Brasil precisa de mercados alternativos para não ficar refém de um só. A Europa oferece isso agora.
Qual tipo de produto está crescendo mais?
Produtos de maior valor agregado — máquinas, químicos, peças industriais. Não é só commodities. O acordo foi desenhado para abrir mais rápido para bens industriais do que para agropecuária, então está funcionando como esperado.
E as pequenas empresas? Conseguem aproveitar?
Depende de onde estão. No Sul, há muita empresa já exportando para a Europa, então conseguem escalar rápido. No Nordeste, é mais desigual. Alguns estados têm potencial real, outros têm pauta muito concentrada e menos oportunidades imediatas.
Qual é o próximo passo?
O acordo ainda precisa de aprovação definitiva do Tribunal de Justiça europeu e do Parlamento Europeu. Enquanto isso, está funcionando provisoriamente. Se for aprovado, a tendência é que esses números cresçam ainda mais.
The Pulse
- A imposição de novos tarifaços americanos sobre produtos brasileiros criou uma urgência real: diversificar ou depender — essa é a escolha que o comércio exterior do país enfrenta em 2026.
- As exportações para os EUA caíram 13% no primeiro semestre, enquanto as vendas para a UE saltaram 26% em apenas dois meses, tornando a mudança de rota visível e mensurável.
- O acordo Mercosul-UE, em vigor provisório desde 1º de maio, eliminou ou reduziu tarifas para milhares de produtos, e 72% das empresas acompanhadas pela ApexBrasil já buscam novos mercados ativamente.
- Produtos de maior valor agregado — químicos, siderúrgicos, máquinas — lideram o crescimento, sinalizando que o acordo pode elevar a qualidade da pauta exportadora brasileira, não apenas o volume.
- A aprovação definitiva ainda aguarda o Tribunal de Justiça da Europa e o Parlamento Europeu, mantendo uma incerteza institucional sobre os ganhos já em curso.
Nos primeiros meses de vigência provisória do acordo Mercosul-União Europeia, o Brasil experimenta uma reconfiguração silenciosa de seus laços comerciais: enquanto a relação com os Estados Unidos encolhe sob o peso de novas tarifas, a Europa emerge como horizonte estratégico. O crescimento de 26% nas exportações brasileiras para o bloco europeu em maio e junho de 2026 não é apenas um número — é o sinal de que acordos de longa maturação podem, quando finalmente ativados, redesenhar rotas e reduzir vulnerabilidades históricas. O Brasil começa a ingressar, nas palavras de quem acompanha o processo, em 'um clube diferente'.
Nos dois primeiros meses após o acordo Mercosul-União Europeia entrar em vigor provisoriamente, as exportações brasileiras para o bloco cresceram dois bilhões de dólares em relação ao mesmo período de 2025 — alta de 26%. No primeiro semestre completo, o Brasil vendeu 26,9 bilhões de dólares à UE, aumento de 12,8% ante 2025.
Laudemir André Müller, presidente da ApexBrasil, é cauteloso ao atribuir causalidade, mas reconhece que seria 'muita coincidência' que exatamente dois dos três bilhões de crescimento semestral tivessem ocorrido justamente em maio e junho, meses de estreia do acordo. O tratado eliminou ou reduziu tarifas imediatamente para milhares de produtos, embora a validação definitiva ainda dependa do Tribunal de Justiça da Europa e do Parlamento Europeu.
O pano de fundo é de turbulência: a administração Trump impôs novos tarifaços sobre produtos brasileiros, e as exportações para os EUA recuaram 13% no semestre. A Europa surge como alternativa estratégica. Desde o início das tensões, a ApexBrasil incentivou empresas a buscar novos destinos — 72% das 2.400 firmas acompanhadas pela agência já exportam para pelo menos um mercado novo.
A pauta exportadora também se diversificou. Mel liderou o crescimento com alta de 246,7%, seguido por partes de turborreatores e óleo essencial de laranja. Bens industriais, químicos, siderúrgicos e máquinas — segmentos de maior valor agregado — avançaram de forma expressiva.
A ApexBrasil mapeou oportunidades em todo o país. Santa Catarina lidera com 167 oportunidades identificadas; São Paulo vem em segundo, com 127, e concentra cerca de 4.000 exportadoras já inseridas no mercado europeu. No Sul, Paraná e Rio Grande do Sul também figuram com forte potencial. No Nordeste, Bahia, Ceará e Pernambuco apresentam números relevantes, enquanto Maranhão, Piauí e Alagoas registram base exportadora menos diversificada. A metodologia adotada foi conservadora: só foram mapeados produtos que o estado já exporta para algum mercado, evitando projeções sem lastro produtivo.
Nos primeiros dois meses após o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia entrar em vigor provisoriamente, o Brasil viu suas exportações para o bloco europeu dispararem. Entre maio e junho, as vendas brasileiras cresceram dois bilhões de dólares em relação ao mesmo período do ano anterior — um salto de 26% que chamou a atenção de quem acompanha o comércio exterior do país.
O número faz parte de um quadro mais amplo. No primeiro semestre de 2026, o Brasil vendeu 26,9 bilhões de dólares para a União Europeia, um aumento de 3 bilhões de dólares, ou 12,8%, comparado aos primeiros seis meses de 2025. Laudemir André Müller, presidente da ApexBrasil, a agência que forneceu esses dados à Folha, é cuidadoso ao falar sobre as causas. Ele não atribui todo o crescimento exclusivamente ao acordo, mas reconhece que há "muitos indícios" de que a redução tarifária já está influenciando o fluxo comercial. Para ele, seria "muita coincidência" que exatamente dois bilhões dos três bilhões de crescimento do semestre tivessem ocorrido justamente em maio e junho, os meses em que o acordo começou a funcionar.
O tratado entrou em aplicação provisória no primeiro de maio, eliminando ou reduzindo imediatamente as tarifas para milhares de produtos. Ainda assim, a validação definitiva depende de aprovação pelo Tribunal de Justiça da Europa e pelo Parlamento Europeu. O contexto em que esse acordo ganha força é de crescente turbulência no comércio global. A administração Trump impôs novos tarifaços sobre produtos brasileiros, e isso reforça a urgência de diversificar parceiros comerciais. No primeiro semestre, as exportações brasileiras para os Estados Unidos totalizaram 17,4 bilhões de dólares — uma queda de 13% em relação ao mesmo período de 2025. A União Europeia emerge, portanto, como uma alternativa estratégica.
Desde o início das tensões comerciais, a ApexBrasil tem incentivado as empresas brasileiras a procurar novos destinos. Segundo Müller, 72% das 2.400 empresas acompanhadas pela agência passaram a exportar para pelo menos um novo mercado. Os Estados Unidos, reconhece ele, "continuam sendo importantes", mas o cenário geopolítico exige reduzir a dependência de um único mercado e ampliar a presença brasileira na Europa, na Ásia e na Índia. O acordo com a União Europeia, na visão de Müller, reduz uma desvantagem histórica que o Brasil enfrentava diante de concorrentes que já tinham preferências tarifárias com o bloco. "Sem nenhum acordo com a Europa, você acaba tendo uma dificuldade. [...] A gente passa a fazer parte de um clube diferente", afirma.
O que está sendo exportado também mudou. A pauta de vendas do Brasil para a União Europeia se tornou mais diversa no fim do primeiro semestre, com crescimento em bens industriais, químicos, siderúrgicos e máquinas — segmentos de maior valor agregado que eram apontados como potenciais ganhadores do acordo. Mel liderou o crescimento com alta de 246,7%, seguido por partes de turborreatores com 141,9% e óleo essencial de laranja com 110,1%. Também avançaram manga, extrato de café e partes para motores a diesel.
A ApexBrasil mapeou as oportunidades abertas pelo acordo em todo o país. São Paulo concentra 127 oportunidades comerciais para produtos do estado entrarem no mercado europeu, o segundo maior número, atrás apenas de Santa Catarina com 167. A agência classifica como "oportunidade" um produto que já possui produção e exportação consolidadas no estado para algum mercado internacional e que, com a redução das tarifas, passa a ter potencial de ampliar as vendas para a Europa. São Paulo também reúne a maior base de empresas já inseridas no mercado europeu, com cerca de 4.000 exportadoras. A maior parte das oportunidades identificadas para o estado está na indústria de transformação: 96 para produtos industriais e 31 para o agronegócio.
Os maiores potenciais de expansão estão concentrados no Sul. Paraná registra 76 oportunidades e Rio Grande do Sul 74. Os três estados do Sul também figuram entre aqueles com maior número de empresas que já exportam para o bloco europeu, indicando uma base produtiva mais preparada para aproveitar imediatamente a redução das tarifas. No Nordeste, o cenário é mais heterogêneo. Bahia, com 67 oportunidades, Ceará com 69 e Pernambuco com 53 aparecem com potencial relevante, impulsionados por setores industriais e agroindustriais específicos. Já Maranhão, Piauí e Alagoas registram um número significativamente menor de oportunidades, refletindo uma pauta exportadora menos diversificada. A metodologia da ApexBrasil foi conservadora, incluindo apenas produtos que o estado já exporta para algum mercado, evitando sugerir oportunidades em setores sem capacidade produtiva ou exportadora consolidada.
Notable Quotes
Seria muita coincidência que US$ 2 bilhões dos US$ 3 bilhões de crescimento registrados no semestre tivessem ocorrido justamente nos meses de maio e junho— Laudemir André Müller, presidente da ApexBrasil
Os Estados Unidos continuam sendo importantes, mas o cenário geopolítico exige reduzir a dependência de um único mercado e ampliar a presença brasileira na Europa, na Ásia e na Índia— Laudemir André Müller