Brasil instalou 17 GW em renováveis em 2025, queda de 24 GW em 2024, liderando região mas com tendência de mais reduções até 2030. Excesso de oferta de energia limpa causa curtailment forçado, incerteza regulatória e baixa viabilidade econômica desestimulam novos projetos eólicos e solares.
Excesso de oferta e incerteza regulatória reduzem instalações de renováveis no Brasil em 27%
O Brasil perdeu previsibilidade
Por que exatamente o Brasil caiu 27% enquanto o resto da América Latina também recuou, mas menos dramaticamente?
O Brasil é o maior produtor de renováveis da região, então quando ele cai, puxa a média para baixo. Mas a queda dele foi mais severa porque enfrenta um problema específico: o curtailment. Quando há muito vento ou sol, a rede não consegue absorver toda a energia, então as usinas são desligadas à força.
Espera — o curtailment é um problema novo ou sempre existiu? Porque se sempre existiu, por que agora está causando essa queda tão grande?
Sempre existiu, mas piorou. A capacidade instalada cresceu muito rápido, e a infraestrutura de transmissão e armazenamento não acompanhou. Agora há mais geração do que o sistema consegue usar ou transportar.
E os outros países não têm esse problema?
Têm, mas estão respondendo diferente. Chile e México estão investindo pesadamente em baterias para armazenar o excesso. O Brasil está começando agora, com o primeiro leilão de baterias previsto para dezembro.
Mas o relatório diz que as baterias vão superar 1 GW em 2028. Isso é muito? Pouco?
É um começo. Para contexto, o Brasil instalou 17 GW em 2025. Então 1 GW de baterias é ainda uma fração pequena. Mas é o início de uma mudança.
Então o governo está fazendo algo sobre isso?
Está tomando decisões sobre curtailment que trouxeram algum alívio, segundo o relatório. Mas não foi suficiente para restaurar a confiança dos investidores. A incerteza regulatória continua sendo um problema — as empresas não sabem como serão compensadas pelos cortes forçados.
Quem está dizendo que não foi suficiente? É o governo ou o setor?
É o setor, através dos analistas da BloombergNEF e das associações de energia. O governo não comentou diretamente sobre isso neste relatório.
E quanto aos pequenos sistemas solares nos telhados? Por que caíram também?
Porque o governo cortou incentivos. Não é curtailment, é política pura. Menos subsídios, menos instalações.
O relatório especifica quais incentivos foram cortados?
Não, apenas diz que houve corte de incentivos. Os detalhes não estão no relatório.
El Pulso
- Brasil instalou 17 GW em renováveis em 2025, queda de 27% em relação aos 24 GW de 2024
- Primeira contração em renováveis na América Latina em mais de uma década
- Curtailment forçado interrompeu 15 GW de geração no Nordeste em junho de 2026
- Projetos eólicos caíram de 4 GW (2024) para 2 GW (2025), com apenas 0,4 GW previstos para 2027
- BloombergNEF projeta 1 GW em sistemas de armazenamento no Brasil até 2028
Brasil instalou 17 GW em renováveis em 2025, queda de 24 GW em 2024, liderando região mas com tendência de mais reduções até 2030. Excesso de oferta de energia limpa causa curtailment forçado, incerteza regulatória e baixa viabilidade econômica desestimulam novos projetos eólicos e solares.
Capacidade instalada em energia renovável no Brasil caiu 27% entre 2024 e 2025, marcando primeira queda em renováveis na América Latina em mais de uma década, segundo relatório da BloombergNEF.
O Brasil, que durante anos liderou a América Latina na expansão de energia renovável, viu sua capacidade instalada despencar 27% entre 2024 e 2025. Segundo um relatório da BloombergNEF ao qual a Folha teve acesso com exclusividade, o país adicionou apenas 17 GW em novas usinas eólicas, solares e sistemas de baterias no ano passado, uma queda significativa em relação aos 24 GW do ciclo anterior. O recuo brasileiro foi tão acentuado que arrastou toda a América Latina para sua primeira contração em mais de uma década — a região como um todo instalou 26 GW em 2025, 23% menos que os 34 GW de 2024.
O Brasil permanece na liderança regional em números absolutos, mas a trajetória é preocupante. As projeções indicam apenas 13 GW para 2030, sugerindo que o país não recuperará o ritmo de instalação de 2024 antes do fim da década. A queda não ocorreu porque o Brasil perdeu competitividade tecnológica, demanda ou recursos naturais — o país continua tendo sol e vento em abundância. O problema é estrutural e regulatório.
O culpado principal é o curtailment, a prática de interromper forçadamente a geração de energia renovável. Quando há muito sol ou vento, a oferta de energia limpa supera a demanda do sistema, criando instabilidade na rede elétrica e risco de colapso. Para evitar isso, as usinas precisam ser desligadas. Em junho, o Operador Nacional do Sistema Elétrico acionou um plano emergencial inédito, cortando 15 GW de geração no Nordeste, região que concentra as maiores usinas eólicas do país, além de suspender 1 GW em geradores menores. Essa situação criou uma cascata de desincentivos: desenvolvedoras hesitam em investir em novos projetos quando sabem que sua geração será interrompida regularmente.
A incerteza regulatória agravou o cenário. As empresas do setor reclamam da falta de clareza sobre como serão compensadas pelos cortes forçados e da baixa viabilidade econômica dos projetos atuais. Novos projetos eólicos somaram apenas 2 GW em 2025, metade dos 4 GW de 2024, e as projeções para 2027 são ainda piores: apenas 0,4 GW. As grandes usinas solares também recuaram, de 7 GW para 3 GW. Até mesmo os pequenos sistemas fotovoltaicos instalados em telhados caíram de 13 GW para 12 GW, uma queda atribuída ao corte de incentivos.
Enquanto isso, vizinhos do Brasil estão acelerando. O México, após anos de estagnação, está vivendo um momento de renovação. A presidente Claudia Sheinbaum implementou reformas para aumentar investimentos em renováveis e criar regimes de contratação mistos. A BloombergNEF projeta que o país adicionará 8,5 GW em 2030, um salto em relação ao 1,1 GW de 2025. O Chile enfrentou o mesmo problema de curtailment que o Brasil, mas respondeu com uma expansão acelerada de baterias para armazenar o excesso de energia. A Colômbia mantém alta na energia solar, e o Peru bateu recorde de renováveis em 2025 com novas leis que prometem acelerar a implantação.
A solução que emerge em toda a região é o armazenamento em baterias. Esses sistemas capturam o excedente de energia quando há muito sol ou vento e o liberam quando há demanda, reduzindo drasticamente a necessidade de curtailment. A BloombergNEF projeta que os sistemas de armazenamento no Brasil superarão 1 GW em 2028, impulsionados inicialmente por projetos comerciais, industriais e residenciais. O primeiro leilão federal de baterias, previsto para dezembro, deve inaugurar a implementação em larga escala. Rafael Rabioglio, líder da BloombergNEF para América Latina, observa que empresas já estão redirecionando esforços para esse leilão, deixando de lado projetos puramente de geração eólica ou solar sem armazenamento.
O contraste entre Brasil e seus vizinhos é alarmante para o setor. Bárbara Rubim, presidente do conselho de administração da Absolar (Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica), resume o problema em uma frase: o Brasil não perdeu sol, demanda nem competitividade tecnológica, perdeu previsibilidade. Ela alerta que o desafio cresce com a chegada de data centers, projetos de hidrogênio verde, novas indústrias eletrointensivas e a eletrificação dos transportes — tudo isso demandará mais energia e mais capacidade de armazenamento e transporte. O governo tem tomado algumas decisões sobre curtailment que trouxeram algum alívio ao setor, mas até agora não foram suficientes para restaurar os níveis de investimento anteriores. Sem mudanças rápidas na regulação e nos sinais de preço, o Brasil seguirá perdendo terreno enquanto a América Latina se move para frente.
Citas Notables
O Brasil precisa se mover mais rápido do ponto de vista de regulação e também de sinais de preço, para fazer com que o mercado reaja e tenha velocidade na adaptação do sistema— Rafael Rabioglio, líder da BloombergNEF para América Latina
O Brasil não perdeu sol, demanda nem competitividade tecnológica. Perdeu previsibilidade— Bárbara Rubim, presidente do conselho de administração da Absolar