Após 738 dias de cativeiro subterrâneo em Gaza, Evyatar David — sequestrado aos 22 anos no festival Nova em 7 de outubro de 2023 — emerge para contar ao mundo o que significa sobreviver à fome deliberada, à propaganda forçada e ao silêncio do esquecimento. Sua primeira entrevista internacional não é apenas um testemunho pessoal, mas um espelho da condição humana diante da crueldade sistemática: o corpo pode ser reduzido a ossos, mas a memória de quem nos espera pode ser mais forte do que qualquer túnel.
Ex-refém do Hamas relata fome extrema e trauma após 738 dias de cativeiro em Gaza
Eles tentaram arruinar nossas vidas e não conseguiram destruir tudo
Quando você viu aquele vídeo sendo divulgado — você cavando a cova — como foi saber que sua família estava vendo isso?
Era propaganda. Eles queriam que parecesse real, que parecesse que eu estava à beira da morte. E estava. Mas saber que minha família via aquilo, que todos viam, era diferente da fome em si.
Diferente como?
A fome era física. O vídeo era psicológico. Eles estavam nos dizendo: vejam, ninguém vem salvá-los. Vejam como ele está. E minha família via e não podia fazer nada.
Você disse que os guardas comiam bolos e bebiam chá enquanto você quase desmaiava. Como você processava aquilo?
No começo, era raiva. Depois virou uma prova. Se eles conseguiam mentir sobre comida em Gaza enquanto comiam na nossa frente, então tudo que diziam era mentira. Isso me ajudava a não acreditar nas piores coisas que eles diziam.
E agora, um ano depois, quando você toca violão no casamento de seu irmão — o que passa pela sua cabeça?
Que eles não conseguiram. Não conseguiram nos destruir. Não conseguiram fazer com que desistíssemos. Aquele casamento é a prova de que voltei.
Mas você ainda tem pesadelos.
Tenho. E vou ter por muito tempo, provavelmente. Mas o pesadelo não é mais a minha realidade. Essa é a diferença.
The Pulse
- Evyatar foi escolhido para o vídeo de propaganda do Hamas precisamente porque seu corpo esquelético servia melhor ao propósito dos captores — uma instrumentalização calculada do sofrimento humano.
- A fome não era escassez, era política: os guardas comiam bolos e bebiam chá enquanto os reféns passavam meses sem alimentação, e a mentira sobre a falta de comida em Gaza era desmentida pelos próprios corpos musculosos dos captores.
- Mesmo após a libertação em outubro de 2025, o cativeiro não terminou dentro dele — flashbacks imprevisíveis e pesadelos noturnos continuam a derrubá-lo em momentos de aparente normalidade.
- Casamentos de irmãos e de outros ex-reféns tornaram-se para Evyatar a resposta mais eloquente ao que o Hamas tentou destruir: 'no fim das contas, não conseguiram destruir tudo'.
- Determinado a não deixar o mundo esquecer, ele avança numa recuperação que descreve como instável e profundamente transformadora — já não é a mesma pessoa de antes, e ainda está aprendendo quem é agora.
Após 738 dias de cativeiro subterrâneo em Gaza, Evyatar David — sequestrado aos 22 anos no festival Nova em 7 de outubro de 2023 — emerge para contar ao mundo o que significa sobreviver à fome deliberada, à propaganda forçada e ao silêncio do esquecimento. Sua primeira entrevista internacional não é apenas um testemunho pessoal, mas um espelho da condição humana diante da crueldade sistemática: o corpo pode ser reduzido a ossos, mas a memória de quem nos espera pode ser mais forte do que qualquer túnel.
Um ano atrás, Evyatar David aparecia em um vídeo de propaganda do Hamas tão enfraquecido que mal conseguia segurar uma pá. Forçado a cavar o que seus captores chamavam de sua própria cova, seu corpo esquelético foi usado como ferramenta de terror. Neste mês, o mesmo jovem tocou violão no casamento de seu irmão, rodeado pela família que o esperou durante 738 dias.
Evyatar tinha 22 anos quando foi capturado no festival de música Nova, em 7 de outubro de 2023. Seu amigo de infância, Guy Gilboa Dalal, foi levado junto; dois outros amigos morreram naquele dia. Os dois sobreviventes passaram a maior parte do cativeiro subterrâneo juntos em Gaza, até que Evyatar foi libertado em 13 de outubro de 2025, como parte de um acordo de cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos.
Em sua primeira entrevista à imprensa internacional, descreveu a inanição não apenas como ausência de comida, mas como tortura psicológica contínua — a incerteza de se haveria algo para comer na hora seguinte. Os guardas tinham acesso a comida, ar-condicionado e televisão, e alegavam que não havia alimentos em Gaza. Os reféns sabiam que era mentira. A fome era uma escolha deliberada. Quando tentou cavar a cova para o vídeo, quase desmaiou; seus captores riram enquanto comiam.
Não foi a única encenação. Em fevereiro de 2025, ele e Gilboa Dalal foram filmados implorando por liberdade durante uma cerimônia forjada de libertação de outros reféns — material que as famílias descreveram como terror psicológico puro.
Após a libertação, Evyatar evitou aparições públicas e se concentrou na reabilitação. Revelou nas redes sociais que enfrenta transtorno de estresse pós-traumático: flashbacks chegam sem aviso, pesadelos perturbam noites inteiras e contaminam os dias seguintes. 'É algo muito instável e imprevisível', disse ele.
Mas ao falar dos casamentos — o do irmão e o de outro ex-refém — sua voz mudou de tom. Esses momentos representam, para ele, a forma mais profunda de triunfo sobre o cativeiro. O que o manteve firme no subsolo foi o pensamento na família e a compreensão de que o momento de maior fragilidade é exatamente quando não se deve desistir. Agora, ele está determinado a garantir que o mundo não esqueça o que ele e os outros reféns sofreram.
Um ano atrás, Evyatar David aparecia em um vídeo de propaganda do Hamas tão fraco que mal conseguia se mover. Ele segurava uma pá em um túnel de concreto, o corpo reduzido a ossos e pele, forçado a cavar o que seus captores o mandavam chamar de sua própria cova. Neste mês, o mesmo jovem sorriu enquanto tocava violão no casamento de seu irmão, celebrando ao lado da família que o esperou durante 738 dias.
Evyatar tinha 22 anos quando foi capturado no festival de música Nova, em 7 de outubro de 2023, durante o ataque liderado pelo Hamas contra Israel. Seu amigo de infância, Guy Gilboa Dalal, foi levado junto. Dois outros amigos do grupo foram mortos naquele dia. Os dois sobreviventes passaram a maior parte do cativeiro subterrâneo juntos em Gaza, até que Evyatar foi libertado em 13 de outubro de 2025, como parte de um acordo de cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos. Ele estava entre os últimos 20 reféns israelenses vivos ainda em poder do grupo.
Em sua primeira entrevista à imprensa internacional desde a libertação, o jovem de 25 anos descreveu com precisão o que chamou de inanição extrema. Não se tratava apenas da ausência de comida, explicou, mas da tortura psicológica de não saber se haveria algo para comer em uma hora, amanhã ou daqui a dois dias. A fome gerava conflitos até mesmo entre os próprios reféns. Nos meses que antecederam a gravação do vídeo de propaganda, a situação piorou ainda mais. Quando seus captores o escolheram para aparecer naquele material, foi porque compararam sua condição física à de seu amigo e decidiram que ele seria o ator — aquele cujo corpo esquelético melhor serviria ao propósito de propaganda.
"É tudo encenado, mas baseia-se na verdade: ficamos três meses sem comer", disse ele à CNN. Quando tentou cavar a cova, apenas segurar a pá foi quase impossível. Ele quase desmaiou durante a tarefa, mas seus captores riram enquanto comiam bolos e bebiam chá. Os guardas tinham acesso a comida, ar-condicionado e televisão. Eles diziam aos reféns que não havia alimento em Gaza, mas Evyatar e os outros sabiam que era mentira — viam os captores bem alimentados e musculosos. A fome era uma escolha deliberada.
Não foi a única vez que o Hamas o filmou. Em fevereiro de 2025, ele e Gilboa Dalal foram levados a uma cerimônia encenada de libertação de outros dois reféns e filmados implorando por liberdade. O vídeo foi divulgado pelo grupo armado no que as famílias dos reféns descreveram como terror psicológico puro.
Nos meses seguintes à sua libertação, Evyatar evitou aparições públicas e se concentrou em reabilitação. Antes de sua primeira entrevista a uma emissora de TV israelense, revelou nas redes sociais que luta contra transtorno de estresse pós-traumático e outros efeitos psicológicos. Os flashbacks podem chegar sem aviso. Ele pode estar bem e feliz em uma hora e, na seguinte, lembrar-se de algo do cativeiro e ser derrubado. Acorda à noite com pesadelos que o afetam durante todo o dia seguinte. "É algo muito instável e imprevisível", disse ele.
Mas quando falou sobre o casamento de seu irmão e sobre o casamento de outro ex-refém, Eliya Cohen, sua voz mudou. "Eles tentaram arruinar nossas vidas e as vidas de nossas famílias e, no fim das contas, não conseguiram destruir tudo", afirmou. Esses momentos de celebração familiar representam, para ele, a forma suprema de triunfo sobre o cativeiro. O que o manteve firme no subsolo foi o pensamento na família que o esperava e a compreensão de que, não importa quão ruins fossem as condições, sempre poderiam piorar. Ele aprendeu que o momento em que se sente mais fragilizado é exatamente quando não se deve desistir.
Evyatar descreveu sua recuperação como muito complicada. Antes de ser feito refém, era uma pessoa comum. Agora é muito diferente, e ainda leva tempo para assimilar tudo isso. Está tentando entender como realizar uma boa reabilitação e ajudar a si mesmo nesse processo. O mundo não o esqueceu durante os 738 dias, e ele está determinado a garantir que o mundo não esqueça o que ele e os outros reféns sofreram.
Notable Quotes
A inanição — além da falta de comida e da sensação física de estar sempre com fome — é a sensação mental de não ter nada para comer e de não saber se haverá comida em uma hora, amanhã ou daqui a dois dias— Evyatar David, em entrevista à CNN
É algo muito instável e imprevisível — posso estar bem e feliz em uma hora e, na seguinte, lembrar-me de algo do cativeiro e ter flashbacks— Evyatar David, descrevendo seu transtorno de estresse pós-traumático