Fedorov, ministro popular que modernizou as forças armadas com drones, foi demitido após conflito com chefe das Forças Armadas e agora questiona transparência presidencial. Investigação recente revelou esquema de lavagem de dinheiro desviando mais de US$ 3 milhões, com funcionário de alto escalão do gabinete de Zelensky envolvido e demitido.
Ex-ministro ucraniano pede que Zelensky responda sobre corrupção e eleições em tempos de guerra
A democracia não deve ser refém de Putin
Por que Fedorov sente necessidade de falar agora, depois de meses em silêncio?
A investigação de corrupção o colocou em uma posição onde calar significaria concordar com a narrativa de que tudo estava bem. Ele quer deixar claro que viu problemas e que o presidente precisa responder por eles.
Mas ele não acusa Zelensky de corrupção pessoal. Isso não enfraquece seu argumento?
Não, porque o ponto dele é sobre responsabilidade e transparência, não sobre culpa pessoal. Um presidente precisa saber o que acontece em seu círculo próximo. A pergunta é: sabia ou não sabia?
E quanto às eleições? Isso parece uma questão separada.
Não é. Para Fedorov, as duas coisas estão conectadas. Você não pode suspender a democracia indefinidamente em nome da guerra e depois esperar que as pessoas confiem em você. A democracia é o que você está defendendo.
Zelensky tem um ponto válido sobre os riscos práticos?
Tem. Mas Fedorov diria que o risco de nunca voltar à democracia é maior. Se você adia as eleições indefinidamente, em que momento você as retoma?
Ele realmente quer ser presidente?
Ele diz que não agora, mas deixa a porta aberta. O que importa é que ele está usando sua credibilidade — ganha com drones e inovação — para forçar uma conversa que o governo preferiria evitar.
O Pulso
- Mykhailo Fedorov, ex-ministro da Defesa, foi demitido há um mês após conflito com o comandante das Forças Armadas
- Investigação revelou esquema de lavagem de dinheiro desviando mais de US$ 3 milhões em moeda ucraniana
- Mandato presidencial de cinco anos de Zelensky terminou em maio de 2024; país sob lei marcial desde 2022
- Fedorov planeja visita aos EUA para encontrar Elon Musk e discutir expansão do Starlink
Fedorov, ministro popular que modernizou as forças armadas com drones, foi demitido após conflito com chefe das Forças Armadas e agora questiona transparência presidencial. Investigação recente revelou esquema de lavagem de dinheiro desviando mais de US$ 3 milhões, com funcionário de alto escalão do gabinete de Zelensky envolvido e demitido.
Mykhailo Fedorov, ex-ministro da Defesa demitido, afirma que Zelensky deve responder sobre seu conhecimento de casos de corrupção em seu círculo próximo, enquanto reafirma apelo por eleições durante a guerra.
Mykhailo Fedorov saiu do cargo de ministro da Defesa ucraniano há pouco mais de um mês, demitido após um desentendimento com o comandante das Forças Armadas do país. Mas sua saída não o silenciou. Em entrevista à BBC, o ex-ministro — um homem que ganhou respeito ao modernizar o exército ucraniano e pioneiramente integrar drones à guerra contra a Rússia — passou a questionar publicamente a transparência do presidente Volodymyr Zelensky sobre possíveis casos de corrupção em seu círculo próximo.
O gatilho para suas declarações foi uma investigação anunciada na semana anterior. O gabinete anticorrupção da Ucrânia descobriu um esquema para desviar o equivalente a mais de US$ 3 milhões em moeda ucraniana, supostamente para pagar a fiança de um ex-ministro da Energia acusado de lavagem de dinheiro. Um funcionário de alto escalão do gabinete presidencial foi demitido por envolvimento no caso. Fedorov não acusa Zelensky de corrupção pessoal — durante seus anos trabalhando juntos, diz, nunca recebeu do presidente qualquer ordem ilegal. Mas sustenta que Zelensky tem a responsabilidade de esclarecer o que sabia e quando soube.
Paralelamente à questão da corrupção, Fedorov retomou um apelo que havia feito em vídeo dias antes: a realização de eleições na Ucrânia, mesmo durante a guerra. O país está sob lei marcial desde a invasão russa em 2022, o que suspendeu o processo eleitoral. O mandato presidencial de cinco anos de Zelensky terminou em maio de 2024. Para Fedorov, manter as eleições indefinidamente suspensas é incompatível com a democracia que a Ucrânia diz estar defendendo. "A democracia não deve ser refém de Putin", afirmou, argumentando que é seu "direito moral" iniciar essa conversa. "Se eu não posso compartilhar minhas ideias e ser transparente sobre elas com a minha própria sociedade, então pelo que estamos lutando?"
Zelensky respondeu no domingo com uma posição oposta. Eleições em tempos de guerra, disse, representariam um risco enorme para a Ucrânia. "As eleições agora são um tsunami para o país, que dividirá a Ucrânia." Especialistas apontam obstáculos práticos reais: como votariam os soldados na linha de frente, os milhões de refugiados espalhados pelo mundo, os moradores de territórios ocupados pela Rússia? Há também o risco de campanhas de desinformação orquestradas por Moscou. O porta-voz de Zelensky contra-atacou, observando que Fedorov fez parte de todos os governos desde 2019 e nunca havia levantado objeções tão contundentes naquela época.
Fedorov negou ter ambições políticas imediatas, mas deixou a porta aberta para uma eventual candidatura presidencial. Tudo dependeria, disse, de quando as eleições fossem retomadas, de sua energia pessoal e da confiança que o povo depositasse nele. O que o move agora, porém, parece ser menos a política pessoal e mais a convicção de que a Ucrânia não pode deixar de ser democracia enquanto luta pela sua sobrevivência.
Após sua demissão, houve protestos acalorados em seu apoio, mas o movimento perdeu força quando seu substituto foi confirmado. Fedorov afirmou não sentir falta do cargo — o estresse de gerenciar a guerra enquanto reformava o ministério era imenso. Mas continua ativo na defesa dos interesses ucranianos. Planeja visitar os Estados Unidos nas próximas semanas para se encontrar com Elon Musk, esperando convencê-lo a estender a cobertura do Starlink ao espaço aéreo russo para auxiliar ataques ucranianos sem beneficiar o Kremlin. Também criticou a burocracia dos países aliados — particularmente o Reino Unido, que gastou US$ 21 bilhões em armamentos desde 2022 — pelos atrasos na entrega de equipamento prometido. Para Fedorov, a Ucrânia não precisa de reparos em tanques obsoletos; precisa de tecnologia de ponta entregue no tempo certo. "Infelizmente, nossas perdas, nosso sangue, nossa experiência militar são benéficos para todos vocês", disse, sugerindo que o custo da guerra ucraniana é também uma lição para o Ocidente.
Citações Notáveis
Durante todo o tempo em que trabalhei com ele, nunca recebi dele qualquer tarefa ou incumbência que fosse contra a lei ou meu senso de integridade— Mykhailo Fedorov, ex-ministro da Defesa ucraniano
As eleições agora são um tsunami para o país, que dividirá a Ucrânia— Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia