Nègre usava diuréticos em bebidas de candidatas a emprego, causando necessidade incontrolável de urinar e humilhação pública, conforme documentado em planilha intitulada 'Experimentos P'. Muitas vítimas só descobriram terem sido drogadas quando a polícia as contatou anos depois; caso ganhou destaque em contexto de maior atenção à submissão química na França.
Ex-funcionário francês é acusado de drogar 250 mulheres em entrevistas de emprego
Fui atacada, fui intoxicada, fui envenenada, mas foi uma agressão sexual
Por que levou tanto tempo para que essas mulheres descobrissem o que tinha acontecido?
Muitas delas não suspeitaram que haviam sido drogadas. Nègre era um funcionário público de alto escalão em um ministério respeitável — como Anaïs pensou, "É o Ministério da Cultura. Isso não é possível." Elas sentiram vergonha, confusão, mas não tinham razão para pensar em drogagem. Só quando a polícia as contatou anos depois é que tudo fez sentido.
E como a polícia descobriu?
Por acaso. Em 2018, um colega o flagrou tirando uma foto de uma mulher por baixo de uma mesa. Isso levou a uma investigação que revelou a planilha "Experimentos P" no computador dele — um registro meticuloso de cada mulher, cada dose, cada detalhe humilhante.
Diuréticos são uma escolha estranha para isso. Por que não outras drogas?
É muito incomum, segundo especialistas. Um toxicologista com 26 anos de experiência disse nunca ter visto algo parecido. Talvez fosse justamente a raridade que o tornava invisível — ninguém procurava por diuréticos em casos de agressão sexual.
O que mais frustra essas mulheres agora?
A lentidão. Sete anos se passaram e o caso ainda não chegou aos tribunais. Elas tiveram que lidar sozinhas com o trauma, sem apoio do sistema, enquanto sabiam que eram vítimas. É uma forma de revitimização — ter que provar o impacto, consultar psiquiatras, escrever relatos, tudo enquanto esperam por justiça.
Alguma coisa mudou na França em relação a isso?
Sim, a submissão química ganhou atenção depois do caso Gisèle Pelicot em 2024. Uma deputada criou um programa-piloto para que mulheres possam testar sangue, urina ou cabelo sem registrar formalmente uma denúncia. Mas tem limitações — as drogas desaparecem rapidamente do sangue e da urina, e é difícil determinar quando foram administradas.
Essas mulheres acreditam que serão ouvidas agora?
Algumas estão falando publicamente, como Marie-Hélène, porque percebem que isso ajuda outras vítimas a se reconhecerem. Mas há uma sensação de que não são levadas completamente a sério. O silêncio durou muito tempo.
The Pulse
- Aproximadamente 250 mulheres acusam Christian Nègre de drogá-las entre 2009 e 2018
- Nègre usava diuréticos em bebidas de candidatas a emprego durante entrevistas no Ministério da Cultura francês
- Planilha intitulada 'Experimentos P' encontrada no computador de Nègre registrava detalhes de cada vítima
- Investigação começou em junho de 2018 quando colega o flagrou fotografando mulher por baixo de mesa
- Sete anos se passaram desde que Anaïs falou com a polícia em 2019 e o caso ainda aguarda julgamento
Nègre usava diuréticos em bebidas de candidatas a emprego, causando necessidade incontrolável de urinar e humilhação pública, conforme documentado em planilha intitulada 'Experimentos P'. Muitas vítimas só descobriram terem sido drogadas quando a polícia as contatou anos depois; caso ganhou destaque em contexto de maior atenção à submissão química na França.
Christian Nègre, ex-diretor regional do Ministério da Cultura francês, é investigado por supostamente drogar cerca de 250 mulheres com diuréticos durante entrevistas de emprego entre 2009 e 2018, forçando-as a urinar nas roupas em situações humilhantes.
Anaïs de Vos tinha 27 anos quando entrou em uma sala de entrevista no Ministério da Cultura francês em julho de 2011. O entrevistador, Christian Nègre, um funcionário público de alto escalão, ofereceu-lhe café. Ela aceitou por educação. Ele mesmo preparou a bebida, mas tinha um gosto estranho — ela bebeu apenas metade.
Minutos depois, quando começaram a caminhar pelas ruas de Paris, Anaïs sentiu algo que não conseguia explicar: uma necessidade incontrolável e urgente de urinar. Suas pernas ficaram fracas. O medo tomou conta. Ela tentou disfarçar, dizendo que estava com frio para voltar ao escritório, mas Nègre continuou andando, levando-a em direção às margens do rio Sena. Quando ela finalmente disse que precisava encontrar um banheiro com urgência, ele a olhou nos olhos e perguntou, com uma satisfação que a perturbou profundamente: "Ah, você precisa fazer xixi?"
Ele a levou até a porta de um depósito sob uma ponte. Ela entrou em pânico. Achou tudo estranho demais e insistiu para continuarem caminhando. Eventualmente encontrou um café que permitiu usar o banheiro, mas era tarde demais — ela perdeu o controle e urinou em si mesma. Naquele dia, Anaïs não conseguiu o emprego. Ficou desconfiada, mas nunca entendeu exatamente o que havia acontecido. Nos anos seguintes, sua autoconfiança foi abalada e ela seguiu uma trajetória profissional menos ambiciosa.
Em 2019, oito anos depois, Anaïs recebeu uma carta da polícia. Quando se encontrou com os investigadores, descobriu que era uma das quase 250 mulheres que Nègre era acusado de drogar durante entrevistas de emprego entre 2009 e 2018. "Fiquei chocada", disse ela. "Mas fiquei feliz por saber que não estava louca."
A polícia acredita que Nègre usava diuréticos — medicamentos que fazem o organismo produzir uma quantidade excessiva de urina — em bebidas de candidatas. No computador dele, encontraram uma planilha intitulada "Experimentos P" que registrava o horário em que as mulheres chegavam, quando o diurético era administrado, quanto tempo levava até que urinassem e que tipo de roupa íntima estavam usando. Anaïs agora tem certeza de que o gosto estranho do café era causado pelo diurético.
Outra vítima, Marie-Hélène Brice, foi entrevistada por Nègre em 2016 em Estrasburgo. Ele sugeriu que saíssem para caminhar para que ela pudesse "se acalmar". Enquanto caminhavam ao longo de um canal, ela sentiu a mesma necessidade incontrolável de urinar. Nègre disse que conhecia um banheiro público próximo, mas quando chegaram ao local, não havia nada. "Eu estava realmente começando a sofrer... as dores eram tão fortes que eu estava branca, pálida, com lágrimas escorrendo", disse ela. Ela não teve escolha a não ser urinar em público. Nègre ofereceu-se para cobri-la com seu próprio casaco, mas não tirava os olhos dela. "Fiquei terrivelmente constrangida", disse Marie-Hélène. "Fui atacada, fui intoxicada, fui envenenada, mas, para mim, foi uma agressão sexual, claramente."
A investigação contra Nègre começou em junho de 2018, quando um colega o flagrou tirando uma foto de uma mulher por baixo de uma mesa. Ele foi suspenso e depois demitido em 2019. Atualmente, na casa dos 60 anos, está sob investigação formal por acusações que incluem drogagem, invasão de privacidade e agressão sexual. Ele aguarda julgamento, mas se recusou a comentar as acusações.
Muitas das mulheres só perceberam que poderiam ter sido vítimas quando a polícia entrou em contato com elas. Algumas se apresentaram depois de verem Anaïs e outras vítimas em reportagens da imprensa. Mas sete anos se passaram desde que Anaïs falou pela primeira vez com a polícia, e o caso ainda não chegou aos tribunais. Ela está frustrada e revoltada. "Durante quatro anos, soube que era uma vítima, mas tive que lidar sozinha com isso", disse ela. "Estou muito revoltada com o sistema de Justiça." Marie-Hélène descreve essa espera como "revitimização". A demora tornou ainda mais difícil suportar o que aconteceu. "Não sentimos necessariamente que somos levadas completamente a sério", afirma ela. Enquanto isso, segundo a Fondation des Femmes, organização que apoia cerca de 30 das mulheres afetadas, o suposto autor continuou trabalhando na área de recursos humanos.
Notable Quotes
Eu estava muito fraca, já não conseguia sentir direito as minhas pernas. Senti medo. Não sabia o que estava acontecendo— Anaïs de Vos, vítima
Fui atacada, fui intoxicada, fui envenenada, mas, para mim, foi uma agressão sexual, claramente— Marie-Hélène Brice, vítima