A CDC foi aprovada pela ONU em 1989 e é o tratado de direitos humanos mais amplamente ratificado da história, mas os EUA nunca completaram o processo legislativo. Grupos conservadores temem que a convenção limite a autoridade parental e comprometa a soberania nacional, exigindo maioria de dois terços no Senado para ratificação.
EUA permanecem como único país que não ratifica Convenção sobre Direitos da Criança
Todos os dias, as crianças nos EUA vivem com menos proteção legal
Por que exatamente os Estados Unidos nunca ratificaram esse tratado, se 196 outros países já o fizeram?
A resposta é política e ideológica. Tecnicamente, o Senado precisa de dois terços de votos — um consenso muito difícil. Mas por trás disso há uma oposição conservadora genuína que vê a convenção como uma ameaça à autoridade dos pais e à soberania americana.
A convenção realmente ameaça a autoridade dos pais?
Não, segundo especialistas em direitos da criança. O texto contém muitas referências ao papel dos pais. Mas há um artigo que diz que as crianças têm direito de expressar suas opiniões sobre assuntos que as afetam — e grupos conservadores interpretam isso como o Estado invadindo a família.
Então qual é o verdadeiro problema?
Há três. Primeiro, a questão da autoridade parental. Segundo, o medo de que um tratado internacional enfraquecesse a soberania americana. Terceiro, conflitos reais entre a convenção e as leis dos EUA — como o fato de mais de vinte Estados permitirem prisão perpétua para menores de idade, algo que a convenção proíbe.
Esses conflitos legais são intransponíveis?
Não necessariamente. Outros países ratificam tratados internacionais e depois apresentam ressalvas sobre pontos específicos. Os EUA poderiam fazer o mesmo. Mas ninguém conseguiu reunir o apoio político para tentar.
E qual é o impacto real dessa recusa?
Crianças americanas vivem com menos proteção legal do que teriam se o país ratificasse. E os EUA ficam isolados — são o único país do mundo nessa posição. Isso afeta a credibilidade americana quando o assunto é direitos das crianças.
A convenção funciona bem nos países que a ratificaram?
Nem sempre. Israel ratificou em 1991, mas matou mais de 14 mil crianças palestinas em Gaza. A ONU condenou, mas Israel ignorou. Isso mostra que o tratado tem limitações — a ONU tem pouco poder para fazer cumprir.
The Pulse
- A Convenção sobre os Direitos da Criança foi aprovada pela ONU em 20 de novembro de 1989
- 196 países ratificaram o tratado; os EUA nunca completaram o processo legislativo
- Mais de 20 Estados americanos permitem prisão perpétua para menores de 18 anos, prática proibida pela convenção
- A ratificação nos EUA exige aprovação de dois terços do Senado
A CDC foi aprovada pela ONU em 1989 e é o tratado de direitos humanos mais amplamente ratificado da história, mas os EUA nunca completaram o processo legislativo. Grupos conservadores temem que a convenção limite a autoridade parental e comprometa a soberania nacional, exigindo maioria de dois terços no Senado para ratificação.
Os EUA permanecem como único país que não ratificou a Convenção sobre os Direitos da Criança, apesar de 196 nações terem aderido ao tratado. Obstáculos políticos relacionados à soberania nacional e autoridade parental impedem a aprovação no Senado.
Trinta e cinco anos se passaram desde que a Organização das Nações Unidas aprovou um dos seus tratados mais significativos. Era 20 de novembro de 1989, apenas onze dias após a queda do Muro de Berlim, quando o mundo votou a favor da Convenção sobre os Direitos da Criança — um acordo que reconhecia, pela primeira vez na história internacional, que menores de idade possuem direitos próprios e que adultos carregam a responsabilidade de garantir esses direitos.
Desde então, 196 países ratificaram o tratado. Tornou-se o acordo de direitos humanos mais amplamente aceito que existe. Mas há uma exceção notável: os Estados Unidos nunca completaram o processo legislativo necessário para se vincular legalmente ao documento. Washington assinou a convenção em 1995, durante o governo de Bill Clinton, mas nenhum presidente — democrata ou republicano — enviou o tratado ao Senado para votação nos quase três décadas que se seguiram. A última tentativa ocorreu em 2020, quando a deputada democrata Ilhan Omar apresentou uma resolução solicitando uma votação. Não avançou.
O obstáculo fundamental é político e estrutural. Para que um tratado internacional seja ratificado nos Estados Unidos, é necessária a aprovação de dois terços do Senado — um consenso extraordinariamente difícil de alcançar. Mas por trás dessa barreira matemática existem objeções ideológicas profundas. Grupos conservadores, alinhados principalmente ao Partido Republicano, argumentam que a convenção ameaçaria três pilares da vida americana: a autoridade dos pais, a soberania nacional e a integridade do sistema legal doméstico. A organização Parental Rights afirma que o tratado concederia ao Estado poder excessivo sobre as decisões familiares, fazendo com que os pais "percam seu direito de ser pais". O artigo 12 da convenção, que reconhece o direito das crianças de expressar suas opiniões sobre assuntos que as afetam, é interpretado por esses grupos como uma invasão da autoridade parental. Quanto à soberania, os opositores temem que ratificar qualquer instrumento internacional enfraqueceria o poder dos Estados Unidos. Donald Trump, em discurso à Assembleia Geral da ONU em 2018, foi explícito: "Nunca entregaremos a soberania dos EUA a uma burocracia global não eleita e irresponsável".
Jo Becker, diretora da divisão de direitos da criança da Human Rights Watch, oferece uma perspectiva diferente. Ela argumenta que essas preocupações repousam sobre interpretações incorretas do texto. A convenção, afirma, contém inúmeras referências aos papéis e responsabilidades dos pais e à importância de seu papel na criação dos filhos. O Estado só substituiria a autoridade parental em casos de violência clara, abandono ou abuso — situações nas quais a maioria das pessoas concordaria que a intervenção é apropriada. Além disso, ela observa que as leis americanas continuariam sendo aplicadas; a convenção não daria à ONU autoridade para intervir nas famílias americanas ou substituir a legislação federal e estadual.
Há, porém, conflitos reais entre a convenção e as leis dos Estados Unidos. A CDC estabelece claramente que crianças nunca devem ser condenadas à prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional por crimes cometidos antes dos 18 anos. Mesmo assim, mais de vinte Estados americanos ainda permitem essa prática. Becker sugere que isso não deveria ser uma barreira intransponível — os EUA poderiam apresentar uma ressalva específica sobre essa questão, comprometendo-se a cumprir todas as outras obrigações.
Os defensores da ratificação argumentam que a não adesão prejudica não apenas as crianças americanas, mas também a reputação internacional dos Estados Unidos. A Human Rights Watch avaliou as leis em todos os cinquenta Estados e constatou que nenhum deles atende aos padrões estabelecidos pela convenção. Isso significa que, todos os dias, crianças nos EUA vivem com menos proteção legal do que teriam se o país ratificasse o tratado. Deixa os Estados Unidos em uma posição única e isolada no mundo — o único país que não se comprometeu legalmente com esse padrão internacional básico de proteção infantil.
Mas nem todos os defensores dos direitos das crianças acreditam que a ratificação ainda é viável. Charlotte Galvin, da Universidade de Plymouth, argumenta que, dada a oposição conservadora persistente e a relutância histórica dos EUA em ratificar tratados internacionais de direitos humanos, é improvável que o país jamais ratifique a convenção. Ela sugere que seria mais produtivo investir recursos em pressionar o governo a reformular as leis nacionais que entram em conflito direto com as disposições do tratado. Enquanto isso, há quem questione a própria eficácia da convenção. O caso de Israel — que ratificou o tratado em 1991 — ilustra as limitações do mecanismo de fiscalização da ONU. De acordo com o Unicef, a guerra de Israel contra o Hamas em Gaza matou mais de 14 mil crianças palestinas. Quando Israel compareceu ao Comitê dos Direitos da Criança em setembro, o comitê condenou veementemente as ações militares. Israel respondeu acusando o comitê de ter uma "agenda política". A condenação não dissuadiu o país. Essa dinâmica levanta questões incômodas sobre o poder real da ONU em fazer cumprir seus próprios tratados, mesmo entre aqueles que os ratificaram.
Notable Quotes
Nunca entregaremos a soberania dos EUA a uma burocracia global não eleita e irresponsável— Donald Trump, discurso à Assembleia Geral da ONU em 2018
Todos os dias, as crianças nos EUA estão vivendo com menos proteção legal do que teriam se os EUA ratificassem a convenção— Jo Becker, Human Rights Watch