Não tenho conhecimento das suas deliberações nem dos cálculos
No coração de uma aliança histórica, uma fissura estratégica começa a revelar-se: enquanto Israel persegue a decapitação sistemática da liderança iraniana, Washington concentra-se em desmantelar a máquina militar do regime. A diretora dos Serviços Secretos americanos, Tulsi Gabbard, confirmou perante o Congresso que os EUA não foram notificados do ataque israelita à maior reserva de gás do Irão — uma admissão que, por si só, diz mais do que qualquer declaração oficial. Dois aliados, uma guerra partilhada, mas objetivos que divergem em silêncio.
- Israel eliminou sistematicamente figuras cimeiras do regime iraniano — incluindo o ayatollah Khamenei e outros líderes — replicando a táctica de 'decapitação' já usada contra o Hamas e o Hezbollah.
- Os EUA foram apanhados de surpresa pelo ataque israelita à reserva de gás de South Pars, a maior do Irão, sem notificação prévia nem participação na operação.
- Washington persegue objetivos militares concretos — destruir mísseis balísticos, neutralizar a Marinha iraniana — enquanto Israel mira a eliminação política da liderança do regime.
- Trump tentou estabelecer limites, avisando que Israel não voltará a atacar infraestruturas energéticas iranianas salvo provocação direta — um sinal de que o alinhamento entre aliados está sob pressão.
- Analistas questionam se eliminar líderes é suficiente para derrotar um regime: o Hamas e o Hezbollah foram enfraquecidos, mas nunca eliminados pela mesma estratégia.
Numa audição no Capitólio, a diretora dos Serviços Secretos dos EUA, Tulsi Gabbard, foi clara: Washington não foi notificado do ataque israelita à reserva de gás de South Pars, não participou na operação e desconhece as razões que levaram Israel a escolher aquele alvo. Uma negação precisa que, paradoxalmente, ilumina uma realidade mais incómoda — os dois aliados não estão a combater o mesmo Irão.
Israel tem seguido uma estratégia de 'decapitação': a eliminação sistemática da liderança iraniana. No primeiro dia dos ataques conjuntos, a 28 de fevereiro, o ayatollah Ali Khamenei foi morto. Seguiram-se Ali Larijani e Gholamreza Soleimani, chefe da milícia Basij. É a mesma abordagem aplicada em Gaza e no Líbano — eficaz em enfraquecer, mas nunca suficiente para eliminar completamente.
Os objetivos americanos são de outra natureza. O Governo Trump quer destruir a capacidade iraniana de produzir e lançar mísseis balísticos, neutralizar a Marinha e desmantelar a capacidade de minagem. Não é uma guerra de líderes — é uma guerra de infraestrutura militar. Ainda assim, os EUA oferecem dez milhões de dólares por Mojtaba Khamenei e outros dirigentes iranianos, uma contradição que Gabbard não esclareceu.
Quando pressionada sobre a posição de Netanyahu face a um eventual acordo com Teerão, Gabbard admitiu desconhecer as deliberações israelitas. Trump, por seu lado, já tinha dito não ter tido conhecimento prévio do ataque e avisou que Israel não voltará a atingir infraestruturas energéticas iranianas salvo provocação direta — uma tentativa de conter a situação que, pela sua própria necessidade, revela o grau de desalinhamento entre os dois aliados. A questão que fica suspensa é simples e inquietante: dois parceiros, a mesma frente, estratégias irreconciliáveis.
Numa sala de audiências do Capitólio, a diretora dos Serviços Secretos dos Estados Unidos deixou claro o que Washington quer que fique registado: os americanos não tiveram nada a ver com o ataque israelita à reserva de gás de South Pars, a maior do Irão. Tulsi Gabbard falava perante uma comissão da Câmara dos Representantes numa quinta-feira, e a sua mensagem era precisa — os EUA não foram previamente notificados, não participaram na operação, e não têm conhecimento das razões que levaram Israel a escolher esse alvo específico.
Mas por trás dessa negação clara existe uma realidade mais complexa: Washington e Telavive não estão a jogar o mesmo jogo no Irão. Israel tem perseguido uma estratégia que os analistas chamam de "decapitação" — a eliminação sistemática da liderança iraniana. No primeiro dia dos ataques conjuntos, a 28 de fevereiro, o ayatollah Ali Khamenei foi morto. Depois vieram outros: Ali Larijani, descrito por Israel como um dos principais rostos do regime, e Gholamreza Soleimani, chefe da milícia Basij. É a mesma abordagem que Israel tem aplicado em Gaza e no Líbano, uma tática que enfraqueceu o Hamas e o Hezbollah, mas nunca os eliminou completamente.
Os objetivos americanos são diferentes. O Governo Trump quer destruir a capacidade do Irão de lançar e produzir mísseis balísticos. Quer neutralizar a Marinha iraniana e a sua capacidade de minagem. Não é sobre derrotar a liderança — é sobre desmantelar a máquina militar. Ainda assim, os EUA estão a oferecer uma recompensa de dez milhões de dólares, cerca de oito milhões e setecentos mil euros, pelo filho do ayatollah falecido, Mojtaba Khamenei, e por outros líderes iranianos. É um sinal misto, uma contradição que Gabbard não esclareceu.
Quando questionada sobre se Israel estaria aberto a um acordo com Teerão, Gabbard respondeu que desconhecia a posição do Governo de Benjamin Netanyahu. Não tinha informação sobre as motivações israelitas, não tinha conhecimento das deliberações que levaram ao ataque ao campo de gás. "Não tenho conhecimento das suas deliberações nem dos cálculos que levaram ao lançamento deste ou de outros ataques", declarou, reforçando a distância entre os dois aliados.
Trump já tinha dito na quarta-feira que não teve conhecimento prévio do ataque. Acrescentou também um aviso: Israel não voltará a atingir a infraestrutura energética iraniana a menos que Teerão ataque instalações de países vizinhos. É uma tentativa de estabelecer limites, de manter a situação dentro de certos parâmetros. Mas o facto de precisar de fazer esse aviso sugere que as coisas não estão tão alinhadas quanto a retórica pública deixa parecer.
Os analistas citados pelo Wall Street Journal questionam se a estratégia israelita de eliminar líderes é suficiente para derrotar o regime iraniano. Enfraqueceu grupos, sim. Mas não os eliminou. E agora, com Washington a perseguir objetivos militares e Israel a perseguir objetivos políticos, a questão que fica no ar é simples: para onde vai isto? Os dois aliados estão a trabalhar na mesma direção, mas não pelo mesmo motivo, e não com a mesma estratégia. Essa divergência, revelada numa audição parlamentar de rotina, pode ser o sinal de algo mais profundo — um desalinhamento entre Washington e Telavive que ainda não foi totalmente resolvido.
Notable Quotes
Washington e Israel têm objetivos distintos no conflito sobre o Irão— Tulsi Gabbard, diretora dos Serviços Secretos dos EUA
Israel não voltará a atingir a infraestrutura energética iraniana a menos que Teerão ataque instalações de países vizinhos— Donald Trump
The Hearth Conversation Another angle on the story
Porque é que Gabbard insistiu tanto em negar o envolvimento americano no ataque ao campo de gás?
Porque os EUA não querem ser vistos como co-autores de uma estratégia que pode não funcionar. Se Israel está a tentar decapitar o regime e isso não resultar, Washington quer ter as mãos limpas.
Mas os EUA estão a oferecer dez milhões de dólares pela cabeça do filho de Khamenei. Isso não é envolvimento?
É uma contradição deliberada. Os EUA querem destruir a capacidade militar iraniana, não necessariamente o regime. Mas também não querem parecer fracos ou desalinhados com Israel. A recompensa é um sinal para consumo doméstico e internacional.
E Netanyahu? Ele sabe que Trump quer limites?
Provavelmente. Mas Israel tem os seus próprios objetivos políticos. Gabbard admitiu que não sabe qual é a posição de Netanyahu sobre um acordo. Isso é significativo — significa que ninguém em Washington está realmente a falar com ninguém em Telavive sobre o endgame.
A estratégia de decapitação funcionou noutros sítios?
Enfraqueceu o Hamas e o Hezbollah, mas não os eliminou. Os analistas dizem que não é suficiente para derrotar um regime estatal. Israel pode estar a aprender isso agora, no Irão.
Então isto pode piorar?
Pode. Se Israel continuar a atacar infraestrutura energética e Trump disser que não, há um conflito real entre aliados. E se o Irão responder, ninguém sabe exatamente o que vai acontecer porque os dois não estão a trabalhar com o mesmo plano.