O modelo chinês pode ser 90% tão bom, mas custa apenas 10% do preço
Os EUA mantêm vantagem em 'cérebros' de IA (LLMs e chips), controlando a tecnologia Nvidia e restringindo exportações para a China através de políticas rigorosas. A China domina os 'corpos' de IA com 2 milhões de robôs em operação e 90% das exportações globais de robôs humanoides, impulsionada por subsídios governamentais.
- Nvidia, empresa americana, controla a maioria dos chips avançados do mundo e atingiu valor de mercado de 5 trilhões de dólares
- DeepSeek chinês apresenta capacidades semelhantes ao ChatGPT com custo 10 vezes menor
- China opera 2 milhões de robôs e responde por 90% das exportações globais de robôs humanoides
- Nvidia perdeu 600 bilhões de dólares em valor de mercado em um único dia após lançamento do DeepSeek em janeiro de 2025
- Cerca de 80% do valor de um robô está em seu cérebro — o software que o controla
EUA e China travam corrida tecnológica pela dominação da IA, com vantagens distintas: americanos lideram em modelos de linguagem enquanto chineses dominam robótica, mas o lançamento do DeepSeek evidencia que o cenário está se transformando.
A corrida pela inteligência artificial não é mais uma abstração de laboratório. É uma disputa geopolítica que move trilhões de dólares, envolve os maiores nomes da tecnologia mundial e ocupa a atenção dos mais altos escalões governamentais — tudo acontecendo simultaneamente em salas de pesquisa, campi universitários e escritórios de startups espalhados entre dois continentes.
Os Estados Unidos e a China não competem pela mesma coisa. Segundo Nick Wright, pesquisador em neurociência cognitiva da University College London, a batalha pode ser resumida em uma metáfora simples: cérebros versus corpos. Os americanos dominam os cérebros — os modelos de linguagem de grande escala, os chips de computador mais avançados do mundo, os chatbots que bilhões de pessoas usam diariamente. A China, por sua vez, construiu uma vantagem esmagadora nos corpos: robôs, drones, máquinas humanoides que já se integram ao cotidiano de suas cidades. Cada lado apostou suas fichas em um território diferente. Até agora, essa divisão pareceu clara. Mas em janeiro de 2025, tudo começou a mudar.
O lançamento do ChatGPT pela OpenAI em novembro de 2022 foi um ponto de inflexão. A empresa californiana anunciou seu novo chatbot em um comunicado de seis frases, mas o impacto foi sísmico. Dentro de semanas, mais de 900 milhões de pessoas usavam a ferramenta semanalmente — quase uma em cada oito pessoas no planeta. Outras gigantes americanas como Google, Anthropic e Perplexity correram para acompanhar, investindo bilhões em sistemas concorrentes. Os modelos de linguagem se tornaram o símbolo da supremacia tecnológica americana, a prova de que os EUA ainda definiam o futuro.
Mas essa vantagem repousava em um alicerce que os americanos controlavam com precisão: o hardware. A maioria dos chips de computador mais avançados do mundo é projetada pela Nvidia, empresa sediada na Califórnia que em outubro de 2024 se tornou a primeira empresa a atingir um valor de mercado de cinco trilhões de dólares. Os EUA não apenas controlam a tecnologia — eles também a guardam. Desde 2022, o governo americano implementou controles de exportação rigorosos para impedir que a China acesse esses chips. Quando a China não consegue comprar, tenta fabricar. Mas para fabricar chips avançados, é necessário um equipamento de litografia ultravioleta. Apenas uma empresa no mundo produz essas máquinas: a ASML, sediada na Holanda. Os EUA usam a mesma estratégia de restrição para bloquear suas exportações para a China. A política parecia funcionar. Os americanos mantinham seu monopólio sobre os cérebros da IA.
Então, em janeiro de 2025, na mesma semana em que Donald Trump tomava posse para seu segundo mandato cercado por bilionários do Vale do Silício, a China lançou o DeepSeek. Para o usuário comum, a experiência é praticamente idêntica à do ChatGPT — responde perguntas, escreve código, é gratuito. O ponto crucial é que o DeepSeek teria custado apenas uma fração do investimento em modelos americanos. Segundo pesquisadores, ele apresentava capacidades semelhantes às dos sistemas americanos, mas utilizando uma quantidade muito menor de chips para seu treinamento. Em 27 de janeiro de 2025, a Nvidia sofreu a maior perda de valor de mercado em um único dia na história da bolsa americana: cerca de 600 bilhões de dólares. O impacto foi desorientador. Karen Hao, jornalista especializada em IA, observa que a política americana de controle de exportações pode ter tido um efeito contrário ao pretendido: sem acesso aos chips mais avançados, os desenvolvedores chineses foram forçados a inovar, acelerando sua autossuficiência. Na China, havia otimismo evidente. Selina Xu, pesquisadora de políticas de IA, relata que o DeepSeek funcionou como catalisador positivo para todo o ecossistema chinês.
Uma diferença fundamental entre os dois modelos também emergiu. Nos EUA, empresas de IA protegem rigorosamente sua propriedade intelectual. Na China, prevalece uma abordagem de código aberto — empresas publicam seus códigos online, permitindo que desenvolvedores de outras companhias os utilizem e aprimorem. Isso significa que startups chinesas não precisam começar do zero. Podem pegar um modelo existente, melhorá-lo e torná-lo mais eficiente. Segundo Selina Xu, os modelos proprietários americanos provavelmente ainda são melhores, mas talvez não por uma margem tão grande. O modelo chinês pode ser cerca de 90% tão bom, mas custa apenas 10% do preço.
Enquanto isso, a China construiu uma vantagem praticamente incontestável nos corpos da IA. Desde a década de 2010, o governo chinês ampliou fortemente o apoio ao desenvolvimento de robôs, financiando pesquisas e concedendo bilhões em subsídios a fabricantes. Hoje, estima-se que haja cerca de dois milhões de robôs em operação no país — mais do que no resto do mundo inteiro. A China responde por 90% das exportações globais de robôs humanoides. Em Chongqing, existe uma fábrica escura com 2 mil robôs e veículos autônomos capazes de produzir um carro por minuto, totalmente automatizada e operando sem presença humana. O governo chinês vê os robôs humanoides como solução para seu envelhecimento populacional acelerado — por volta de 2035, o número de pessoas com 60 anos ou mais deve superar toda a população dos EUA.
Mas há um porém crucial. A China lidera na construção dos corpos dos robôs, mas cada corpo ainda precisa de um cérebro — um software sofisticado que determine o que fazer. Para tarefas repetitivas em fábricas, sistemas simples funcionam. Mas para realizar tarefas variadas e complexas, é necessário um tipo diferente de IA, chamada IA agêntica, um sistema que atua de forma autônoma executando múltiplas etapas. Nesse campo, os EUA ainda têm vantagem clara. A empresa Boston Dynamics já demonstra essa integração com seu robô em forma de cão, o Spot, que usa IA agêntica para realizar inspeções em instalações industriais, identificando problemas como superaquecimento de equipamentos ou vazamentos de gás. Segundo Nick Wright, cerca de 80% do valor de um robô está em seu cérebro — e esse é o território onde os americanos ainda dominam.
A questão agora é quem vencerá essa corrida. Mas talvez a vitória não seja um momento único, como um pouso na Lua. O que importa é a vantagem sustentada — quem lidera em capacidade, quem incorpora a IA de forma mais eficaz na economia, quem define os padrões globais. Em tecnologias como eletricidade e computação, o mais relevante não foi quem as desenvolveu primeiro, mas quem conseguiu aplicá-las de forma mais ampla e eficiente. O mesmo pode acontecer com a IA. O que está em jogo é alto. Ainda não está claro se EUA ou China sairão mais fortes do século 21. A corrida pela inteligência artificial pode ser decisiva.
Notable Quotes
A política americana de controle de exportações pode ter tido efeito contrário: sem acesso aos chips mais avançados, os desenvolvedores chineses foram forçados a inovar, acelerando a autossuficiência da China— Karen Hao, jornalista especializada em IA
Os modelos fechados e proprietários dos EUA provavelmente ainda são melhores, mas talvez não por uma margem tão grande— Selina Xu, pesquisadora de políticas de IA
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que o DeepSeek foi tão perturbador para os americanos se a China já tinha robôs avançados há anos?
Porque os dois lados estavam em territórios diferentes. Os americanos nunca se preocuparam em perder a robótica — eles apostaram tudo nos cérebros, nos modelos de linguagem. O DeepSeek mostrou que a China também consegue fazer cérebros. De repente, a China não é mais apenas um concorrente em um campo. É um concorrente em ambos.
Mas o DeepSeek é realmente tão bom quanto o ChatGPT?
Provavelmente não. Segundo pesquisadores, ele é cerca de 90% tão bom. Mas custa 10% do preço. Para a maioria das pessoas, 90% é suficiente. E isso muda tudo economicamente.
Os EUA tentaram bloquear os chips chineses. Por que isso não funcionou?
Funcionou por um tempo. Mas quando você bloqueia alguém, força essa pessoa a inovar. Os desenvolvedores chineses não tiveram escolha — tiveram que aprender a fazer mais com menos. Isso os tornou mais criativos, mais eficientes. O bloqueio pode ter acelerado exatamente o que os EUA queriam evitar.
A China tem 2 milhões de robôs. Por que não consegue fazer robôs que pensam por conta própria?
Porque pensar é diferente de fazer. Um robô em uma fábrica precisa apenas repetir a mesma tarefa. Um robô que inspeciona uma planta industrial e toma decisões sozinho — isso exige um tipo de inteligência que os EUA ainda dominam. É a diferença entre um corpo que obedece e um corpo que raciocina.
Então quem vai ganhar?
Talvez ninguém ganhe de forma definitiva. Pode ser que o vencedor seja quem conseguir integrar tudo isso na vida real primeiro — quem colocar IA funcionando nas mãos de mais pessoas, em mais lugares. E ninguém sabe ainda quem será esse.
O que está realmente em jogo aqui?
O século 21. Qual país define como a tecnologia mais poderosa do nosso tempo será usada, controlada, distribuída. Não é apenas sobre chips ou robôs. É sobre poder.