Às margens da Assembleia Geral da ONU, Argentina e Estados Unidos selaram um acordo de quase US$ 7 bilhões que vai muito além de estradas e portos: trata-se de uma declaração geopolítica sobre quem moldará o futuro produtivo da América do Sul. O Corredor Andes-Atlântico, que ligará os campos de Vaca Muerta ao Atlântico, é também uma resposta americana à presença consolidada da China nos setores de energia e minerais críticos argentinos. Em um mundo onde o lítio e o gás natural liquefeito definem alianças, o investimento revela que a competição entre grandes potências se trava agora no chão das
EUA e Argentina assinam acordo de US$ 7 bi para infraestrutura e competir com China
Os EUA começam a disputar com a China no mesmo terreno
Por que esse acordo passou despercebido se envolve US$ 7 bilhões?
Porque foi assinado durante a Assembleia Geral da ONU, quando a atenção global estava dispersa. Mas para Argentina e EUA, o timing foi estratégico — reforça o apoio a Milei em ano eleitoral.
Espera — o acordo foi assinado em setembro, mas os recursos só começam em 2027? Isso é um compromisso real ou uma promessa?
É um compromisso formal, mas você tem razão em questionar. O financiamento virá do banco de exportação americano, então há estrutura legal. Mas a implementação ainda está a anos de distância.
E quanto à China? O acordo tenta afastá-la?
Não explicitamente. Quirno negou que haja cláusulas contra investidores chineses. Mas analistas veem claramente que o objetivo é preencher uma lacuna — oferecer aos argentinos uma alternativa de financiamento que a China não oferecia.
Qual é o tamanho dessa lacuna? US$ 7 bilhões é suficiente para competir com a presença chinesa?
Não é tudo. Um estudo do BBVA estimava que seriam necessários US$ 20 bilhões apenas para adequar a infraestrutura de petróleo e gás. Então esse acordo cobre parte da necessidade, mas não toda.
E a Argentina ganha algo além de dinheiro?
Sim. Reduz sua deficiência crônica de infraestrutura digital, melhora portos e ferrovias, e teoricamente atrai mais investimentos privados. Mas tudo depende de que os EUA cumpram o que prometem.
Há risco de que não cumpram?
Historicamente, a Argentina tem dificuldades de pagamento. Esse acordo, na verdade, oferece proteção justamente porque o governo americano está respaldando as atividades. É uma forma de reduzir o risco para investidores.
Então é uma aposta dos EUA em Milei?
É também. O timing político é claro. Mas é também uma aposta em recursos estratégicos — petróleo, gás, lítio — que os EUA querem garantir em um contexto de instabilidade global.
Der Puls
- Com a China já enraizada em contratos de lítio e mineração na Argentina, os EUA sentiram a urgência de oferecer uma alternativa concreta — e o acordo de US$ 7 bilhões é essa resposta.
- O histórico de calotes argentinos criava desconfiança entre investidores; o respaldo do governo americano funciona como um escudo político e financeiro para quem quiser entrar no setor.
- Vaca Muerta, com potencial de gerar US$ 200 bilhões em exportações em duas décadas, torna-se o epicentro de uma disputa silenciosa por rotas de energia seguras em tempos de instabilidade global.
- O ministro argentino nega cláusulas anti-China, mas analistas são diretos: Washington está preenchendo o vácuo que ele mesmo criou ao pressionar aliados a abandonarem o financiamento chinês.
- O acordo aterra em um momento politicamente calculado — ano eleitoral na Argentina — consolidando o apoio americano a Milei e criando janela de oportunidade enquanto o cenário for favorável.
Às margens da Assembleia Geral da ONU, Argentina e Estados Unidos selaram um acordo de quase US$ 7 bilhões que vai muito além de estradas e portos: trata-se de uma declaração geopolítica sobre quem moldará o futuro produtivo da América do Sul. O Corredor Andes-Atlântico, que ligará os campos de Vaca Muerta ao Atlântico, é também uma resposta americana à presença consolidada da China nos setores de energia e minerais críticos argentinos. Em um mundo onde o lítio e o gás natural liquefeito definem alianças, o investimento revela que a competição entre grandes potências se trava agora no chão das economias emergentes.
No final de setembro, à margem da Assembleia Geral da ONU em Nova York, Argentina e Estados Unidos assinaram um pacto de quase US$ 7 bilhões em infraestrutura que passou despercebido pelo grande público, mas não pelos analistas geopolíticos. Batizado de Corredor Andes-Atlântico, o acordo foi apresentado pelo chanceler argentino Pablo Quirno e pelo subsecretário de Estado americano Christopher Landau, com foco em rodovias, portos, ferrovias e infraestrutura digital.
O coração do projeto é conectar os campos de petróleo e gás de Vaca Muerta, nas províncias de Mendoza e Neuquén, aos portos comerciais do Atlântico. A região já recebeu cerca de US$ 21 bilhões da Itália e dos Emirados Árabes para instalações de extração e liquefação de gás; o financiamento americano, que virá do Banco de Exportação e Importação dos EUA a partir de 2027, cobrirá equipamentos e logística de transporte. O presidente da YPF estima que o projeto Argentina LNG pode gerar até US$ 200 bilhões em exportações e atrair US$ 100 bilhões adicionais nas próximas duas décadas.
Mas o acordo carrega uma segunda camada igualmente reveladora: o lítio. A Argentina detém a terceira maior reserva mundial do mineral, essencial para baterias de veículos elétricos, e já mantém contratos ativos com empresas chinesas para sua exploração. O pacto inclui um Acordo-Quadro sobre Minerais Críticos que direciona parte dos investimentos para lítio e cobre. Quirno negou qualquer cláusula que restrinja os parceiros chineses, mas o pesquisador Esteban Actis, da Universidade Nacional de Rosário, é direto: os EUA estão respondendo à pergunta que seus aliados fazem há meses — 'o que Washington oferece em troca de abandonar o financiamento chinês?'
Para especialistas, o cenário é de ganho mútuo enquanto o alinhamento político entre Milei e a administração americana durar: a Argentina obtém infraestrutura que estima precisar de ao menos US$ 20 bilhões para viabilizar o escoamento de energia, e os EUA garantem acesso a recursos estratégicos e presença em um mercado onde a China já fincou raízes.
No final de setembro, enquanto a Assembleia Geral das Nações Unidas ocupava a atenção de líderes mundiais, Argentina e Estados Unidos assinaram um acordo que passou despercebido por muitos, mas que carrega peso considerável para ambos os países: um investimento de quase US$ 7 bilhões em infraestrutura. O pacto, batizado Corredor Andes-Atlântico, foi apresentado no Consulado-Geral da Argentina em Nova York pelo ministro das Relações Exteriores argentino, Pablo Quirno, e pelo subsecretário de Estado dos EUA, Christopher Landau.
O objetivo declarado é direto: melhorar rodovias, portos e ferrovias argentinas para facilitar a exportação de minerais, petróleo e gás. O comunicado conjunto fala em "facilitar o investimento público e privado em transporte, energia e infraestrutura digital" e em consolidar os EUA como "um parceiro fundamental para a Argentina em infraestrutura e investimento". Mas para analistas e especialistas, o anúncio revela algo mais profundo: o reforço do apoio americano ao presidente Javier Milei em ano eleitoral, e, mais importante, a disputa dos EUA com a China por espaço nos setores produtivos argentinos.
O financiamento virá do Banco de Exportação e Importação dos EUA, com recursos destinados principalmente à compra de bens e serviços americanos a partir de 2027. Inicialmente, o dinheiro será investido na melhoria da infraestrutura terrestre que conecte os campos de petróleo de Vaca Muerta, no oeste do país, aos portos comerciais. Vaca Muerta, localizada nas regiões de Mendoza e Neuquén, é onde opera a petrolífera YPF, entre outras empresas. O projeto Argentina LNG prevê a produção de cerca de 12 milhões de toneladas de gás natural liquefeito por ano. Esse projeto já havia recebido quase US$ 21 bilhões em investimentos da Itália e dos Emirados Árabes Unidos para construir instalações de extração e unidades de liquefação. O apoio americano agora permitirá obter equipamentos e insumos para facilitar o transporte e a exportação. Segundo o presidente da YPF, citado por Quirno, o projeto poderia gerar até US$ 200 bilhões em exportações nos próximos 20 anos e atrair até US$ 100 bilhões em investimentos adicionais.
Esteban Actis, pesquisador de economia da Universidade Nacional de Rosário, explica que o acordo responde a uma realidade geopolítica clara: "Está evidente que, diante da instabilidade que vemos em muitas partes do mundo, os EUA estão buscando uma rota segura para garantir o fornecimento desse tipo de recurso natural." Além disso, o acordo oferece proteção a potenciais investidores interessados no país sul-americano. Diante do histórico de dificuldades de pagamento da Argentina, o pacto busca assegurar não apenas os recursos financeiros, mas também o respaldo do governo americano às atividades nos setores de energia e mineração. Um estudo publicado em agosto pela BBVA Research estimava que seriam necessários cerca de US$ 20 bilhões para adequar a infraestrutura de escoamento de petróleo e gás da região, incluindo a construção de gasodutos e centros de processamento — exatamente o tipo de investimento que o Corredor Andes-Atlântico busca cobrir.
Mas há outro elemento que chama atenção: o lítio. A Argentina possui a terceira maior reserva de lítio do mundo, mineral essencial na fabricação de baterias para carros elétricos. Atualmente, o país mantém diversos contratos com empresas chinesas para explorar esse recurso. O comunicado do acordo menciona que parte dos investimentos será destinada ao setor de minerais críticos, sobretudo lítio e cobre, através de um Acordo-Quadro sobre Minerais Críticos entre os EUA e a Argentina. Quando questionado pelo canal de notícias argentino TN sobre a existência de alguma cláusula no acordo referente a esses investidores chineses, Quirno negou: "Não, não há nenhuma condição desse tipo. A aliança estratégica com os EUA não prejudica a relação comercial da Argentina com a China."
Mas para Actis, as intenções americanas são inescondíveis. "Há meses se ouve a resposta de muitos parceiros dos EUA quando o país exige que deixem de receber financiamento e investimentos da China: 'Tudo bem, mas o que Washington D.C. oferece?' Esses programas, esses corredores buscam preencher essa lacuna e permitir que os EUA comecem a disputar com a China no mesmo terreno." O acordo também inclui iniciativas de modernização digital, como as chamadas "alfândegas digitais", que permitirão à Argentina reduzir, ainda que parcialmente, sua deficiência crônica de infraestrutura nessa área. Para especialistas, trata-se de uma situação de ganho mútuo no contexto das relações entre Argentina e EUA — uma oportunidade que convém aproveitar enquanto o cenário político for favorável.
Bemerkenswerte Zitate
Está evidente que, diante da instabilidade que vemos em muitas partes do mundo, os EUA estão buscando uma rota segura para garantir o fornecimento desse tipo de recurso natural— Esteban Actis, pesquisador de economia da Universidade Nacional de Rosário
Esses programas, esses corredores buscam preencher essa lacuna e permitir que os EUA comecem a disputar com a China no mesmo terreno— Esteban Actis