Por mais de quatro décadas, médicos e pacientes conviveram com as mesmas ferramentas limitadas para enfrentar a cinetose — um mal antigo que acompanha a humanidade desde que aprendeu a se mover em embarcações e veículos. Agora, a FDA aprovou o tradipitante, comercializado como Nereus, um medicamento que age diretamente na via neurológica do enjoo, bloqueando os receptores NK-1 que traduzem o conflito sensorial em náusea e vômito. A aprovação não é apenas uma vitória clínica, mas um lembrete de que mesmo os sofrimentos mais cotidianos merecem atenção científica renovada.
EUA aprovam primeiro remédio para enjoo de movimento em mais de 40 anos
Pela primeira vez em mais de quarenta anos, um novo caminho para o enjoo
Por que levou mais de quarenta anos para que um novo medicamento para enjoo de movimento fosse aprovado?
A cinetose é um problema comum, mas historicamente não foi prioridade de pesquisa para a indústria farmacêutica. As opções antigas funcionavam razoavelmente bem para muitos casos leves, então não havia pressão comercial forte. Isso mudou quando a pesquisa em neurofarmacologia avançou o suficiente para entender melhor o mecanismo por trás do enjoo.
Mas é importante notar que existem tratamentos antigos — anti-histamínicos, por exemplo. Eles não desapareceram. O que o Nereus oferece é uma abordagem diferente, baseada em um mecanismo neurológico distinto, com eficácia superior em estudos clínicos.
Esses números de redução de risco — 50% a 70% — são realmente significativos?
Sim. Quando você passa de 40% de pessoas vomitando para 19%, é uma diferença que as pessoas sentem na prática. Especialmente para aquele 5% a 15% da população que tem sintomas graves e recorrentes.
Embora seja importante lembrar que esses números vêm de estudos clínicos controlados, frequentemente com populações selecionadas. O desempenho no mundo real pode variar. E os estudos foram conduzidos em embarcações — ambientes que simulam movimento, mas não são idênticos a um carro em trânsito.
E quanto ao Brasil? Quando chegará aqui?
Ainda não há previsão. A aprovação da FDA é o primeiro passo, mas cada país tem seu próprio processo regulatório. A Vanda precisará solicitar aprovação à Anvisa, o que pode levar tempo.
Exatamente. A aprovação americana não garante nada sobre o cronograma brasileiro. Pode ser meses, pode ser anos. E o preço também é uma incógnita — medicamentos novos costumam ser caros.
A empresa está explorando outros usos para esse medicamento?
Sim, estão testando se funciona para náuseas causadas por medicamentos de perda de peso como Ozempic e Mounjaro. Seria um grande benefício, porque esses remédios causam efeitos colaterais gastrointestinais em muitos pacientes.
Isso é promissor, mas ainda está em fase de estudo. Não há dados públicos sobre eficácia nesses casos ainda. É uma possibilidade, não uma realidade confirmada.
Der Puls
- Após 40 anos sem inovação, a FDA aprovou um medicamento que reduz em até 70% a incidência de vômitos causados por cinetose — uma lacuna terapêutica que afetava silenciosamente entre 25% e 30% dos adultos.
- O Nereus opera por um mecanismo inédito no tratamento da cinetose: bloqueia os receptores NK-1 no sistema nervoso central, interrompendo na raiz a cascata neurológica que transforma movimento em mal-estar.
- Ensaios clínicos conduzidos em embarcações reais mostraram que apenas 18% a 19% dos pacientes tratados vomitaram, contra 38% a 44% no grupo placebo — uma diferença que valida décadas de pesquisa em neurofarmacologia.
- O medicamento deve chegar ao mercado americano nos próximos meses, mas o Brasil ainda aguarda previsão de aprovação, deixando milhões de brasileiros dependentes das antigas opções.
- A Vanda Pharmaceuticals já mira um novo horizonte: estudos em andamento investigam se o Nereus pode aliviar as náuseas provocadas por medicamentos como Ozempic e Mounjaro, ampliando seu alcance terapêutico.
Por mais de quatro décadas, médicos e pacientes conviveram com as mesmas ferramentas limitadas para enfrentar a cinetose — um mal antigo que acompanha a humanidade desde que aprendeu a se mover em embarcações e veículos. Agora, a FDA aprovou o tradipitante, comercializado como Nereus, um medicamento que age diretamente na via neurológica do enjoo, bloqueando os receptores NK-1 que traduzem o conflito sensorial em náusea e vômito. A aprovação não é apenas uma vitória clínica, mas um lembrete de que mesmo os sofrimentos mais cotidianos merecem atenção científica renovada.
Pela primeira vez em mais de quarenta anos, a FDA aprovou um novo medicamento para cinetose. O tradipitante, vendido como Nereus pela Vanda Pharmaceuticals, representa uma ruptura com décadas de estagnação no tratamento de um problema que afeta entre 25% e 30% dos adultos — e que, para 5% a 15% deles, se manifesta de forma grave e resistente às opções existentes.
O diferencial do Nereus está em seu mecanismo de ação. Ao contrário dos tratamentos tradicionais, ele é um antagonista oral do receptor NK-1, que bloqueia a via neurológica ativada quando o cérebro detecta conflito entre o que os olhos veem e o que o sistema vestibular sente. Esse conflito libera a substância P, que dispara náusea e vômito — e o Nereus interrompe esse processo antes que ele se complete.
Os resultados clínicos sustentam a aprovação com clareza. Em ensaios realizados inclusive em embarcações para simular condições reais, o medicamento reduziu a incidência de vômitos para cerca de 18% a 19%, enquanto no grupo placebo o índice chegou a 44%. A redução de risco ultrapassa 50% e pode chegar a 70%.
O medicamento deve estar disponível nos Estados Unidos nos próximos meses. No Brasil, ainda não há previsão de aprovação. Enquanto isso, a empresa já investiga se o Nereus pode aliviar as náuseas causadas por agonistas GLP-1 como Ozempic e Mounjaro — o que abriria uma nova e vasta frente terapêutica para um dos efeitos colaterais mais comuns dessas drogas amplamente utilizadas.
Pela primeira vez em mais de quarenta anos, a agência reguladora de medicamentos dos Estados Unidos aprovou um novo fármaco para cinetose — aquele enjoo incômodo que toma conta do corpo dentro de um carro, avião ou barco. O medicamento, chamado tradipitante e comercializado como Nereus pela empresa Vanda Pharmaceuticals, representa uma mudança significativa na forma como a medicina aborda um problema que afeta milhões de pessoas.
Os números que sustentam essa aprovação são claros. Em três ensaios clínicos, dois deles realizados em embarcações para simular as condições reais de movimento, o medicamento reduziu a incidência de vômitos para entre 18,3% e 19,5% nos pacientes que o tomaram. Nos grupos que receberam placebo, esse índice saltou para 37,7% a 44,3%. A diferença representa reduções de risco superiores a 50% e chegando a 70% — um salto considerável em relação ao que existia antes.
O que torna essa aprovação particularmente relevante é o tempo decorrido desde a última inovação nessa área. Mais de quatro décadas se passaram sem que a FDA liberasse um novo tratamento para cinetose, deixando os pacientes reféns de opções antigas e frequentemente limitadas. O Nereus funciona de forma diferente: é um antagonista oral do receptor de neurocinina-1, ou NK-1, que atua bloqueando a via neurológica responsável pelo enjoo. Quando o corpo detecta movimento conflitante entre o que os olhos veem e o que o sistema vestibular sente, libera uma substância chamada P que ativa esses receptores NK-1 no sistema nervoso central, desencadeando náusea e vômitos. O novo medicamento interrompe esse processo na raiz.
A prevalência do problema é maior do que muitos imaginam. Entre 25% e 30% da população adulta sofre com cinetose em algum grau, e até um terço das pessoas é altamente suscetível. Embora a maioria dos casos seja leve, entre 5% e 15% da população experimenta sintomas graves e recorrentes que impactam significativamente a qualidade de vida e não respondem aos tratamentos disponíveis atualmente. Essa realidade levou militares a tratar a questão como prioridade estratégica — durante a Segunda Guerra Mundial, na invasão da Normandia em 1944, o enjoo foi associado a quedas na eficácia das tropas.
O medicamento deve chegar ao mercado americano nos próximos meses, mas ainda não há previsão para aprovação e venda no Brasil. Mihael Polymeropoulos, presidente e CEO da Vanda Pharmaceuticals, descreveu a aprovação como um marco que oferece aos pacientes acesso a uma terapia baseada em neurofarmacologia moderna, sem as limitações das opções existentes.
A empresa já olha além da cinetose. Estudos estão em andamento para avaliar se o Nereus pode ser usado para prevenir náuseas e vômitos induzidos por agonistas do receptor de GLP-1 — a classe de medicamentos que inclui Ozempic e Mounjaro, amplamente utilizados para controle de peso e diabetes. Se comprovada essa eficácia, o medicamento poderia resolver um efeito colateral incômodo que afeta muitos pacientes que usam essas drogas.
Bemerkenswerte Zitate
Pela primeira vez em mais de 40 anos, os pacientes têm acesso a uma nova terapia baseada na neurofarmacologia moderna, oferecendo prevenção eficaz sem as limitações das opções existentes— Mihael Polymeropoulos, presidente e CEO da Vanda Pharmaceuticals