Estudo revela: 99% dos infartos e AVCs são precedidos por fatores de risco conhecidos

Doenças cardiovasculares causam aproximadamente 400 mil mortes por ano no Brasil, representando 30% do total de óbitos no país.
Quase ninguém sofre infarto sem avisos prévios
Análise de 16 milhões de pessoas revela que 99% dos eventos cardiovasculares são precedidos por fatores de risco detectáveis anos antes.
Mark

Por que esse estudo é diferente de outras pesquisas sobre fatores de risco cardiovascular?

Mimi

A escala é sem precedentes. Estamos falando de 16 milhões de pessoas acompanhadas ao longo de duas décadas em dois continentes diferentes. E a consistência dos resultados entre populações tão distintas — coreanos e americanos — é o que torna isso convincente. Não é um achado isolado.

Mark

Mas as pessoas já sabem que pressão alta e colesterol elevado aumentam o risco de infarto. O que há de novo aqui?

Mimi

A novidade é a precisão do timing e a universalidade. O estudo mostra que praticamente ninguém — 99,3% a 99,7% — sofre um primeiro evento cardiovascular sem ter apresentado esses fatores anos antes. Não é uma questão de risco aumentado. É uma questão de inevitabilidade quase total.

Mark

E quanto àquelas pessoas que parecem saudáveis e sofrem um infarto do nada? Como isso se encaixa?

Mimi

Elas provavelmente não eram tão saudáveis quanto pareciam. Tinham pressão ligeiramente elevada, ou colesterol um pouco acima do ideal, ou glicemia borderline — coisas que não causam sintomas, mas que se acumulam ao longo dos anos. O "do nada" é uma ilusão criada pela ausência de sintomas, não pela ausência de doença.

Mark

A maioria das pessoas tinha múltiplos fatores de risco, não apenas um. Por que isso importa?

Mimi

Porque muda a estratégia de prevenção. Não é suficiente controlar apenas a pressão ou apenas o colesterol. Você precisa abordar o quadro completo — alimentação, exercício, peso, monitoramento de múltiplos marcadores. Um fator isolado pode ser ignorado. Uma combinação é mais difícil de ignorar.

Mark

Se esses fatores são tão comuns e detectáveis, por que ainda temos 400 mil mortes por ano no Brasil?

Mimi

Porque detecção não é a mesma coisa que controle. Muitas pessoas sabem que têm pressão alta ou colesterol elevado, mas não fazem nada a respeito. Outras não sabem porque nunca foram testadas. E há também a questão do acesso — nem todos têm acesso a medicamentos ou à orientação necessária para mudar hábitos. O estudo mostra que a prevenção é possível. Mas possível não é automático.

  • A ideia de que infartos e AVCs acontecem 'do nada' foi refutada por uma das maiores análises cardiovasculares já realizadas, abrangendo dois continentes e duas décadas de dados.
  • A hipertensão arterial aparece em mais de 93% dos casos antes do primeiro evento — e raramente age sozinha: mais de 93% dos pacientes acumulavam dois ou mais fatores de risco simultaneamente.
  • Nem mesmo grupos considerados protegidos escapam: mulheres com menos de 60 anos apresentavam fatores de risco alterados em mais de 95% dos casos de AVC e insuficiência cardíaca.
  • O estudo desloca o foco do tratamento de emergência para a detecção precoce — pressão, colesterol e glicemia monitorados anos antes podem ser a diferença entre vida e morte.
  • No Brasil, onde doenças cardiovasculares respondem por 30% de todos os óbitos, a descoberta transforma um problema de saúde pública em uma questão de prevenção possível — e urgente.

Por décadas, a crença popular tratou o infarto e o AVC como golpes do acaso — tragédias sem rosto e sem aviso. Um estudo de larga escala, conduzido por pesquisadores americanos e sul-coreanos com dados de 16 milhões de pessoas em duas décadas, desfaz essa ilusão com precisão quase absoluta: entre 99,3% e 99,7% dos que sofreram eventos cardiovasculares graves já carregavam fatores de risco detectáveis anos antes. A ciência não oferece aqui um veredicto de culpa, mas de possibilidade — a de que a maioria dessas mortes, responsáveis por 400 mil vidas ao ano só no Brasil, poderia ser antecipada e, com isso, evitada.

A crença de que um infarto pode acontecer sem aviso é, de certa forma, reconfortante — ela sugere que nada poderia ter sido feito. Um estudo publicado no Journal of the American College of Cardiology acaba de desmontar essa narrativa com dados de escala raramente vista na medicina cardiovascular.

Pesquisadores da Northwestern Medicine e da Universidade Yonsei analisaram dois grupos populacionais: 9,3 milhões de adultos sul-coreanos acompanhados entre 2009 e 2022, e cerca de 6.800 americanos monitorados entre 2000 e 2019. Todos desenvolveram doença cardiovascular pela primeira vez — infarto, AVC ou insuficiência cardíaca — sem histórico cardíaco anterior. Ao olhar para os anos anteriores a esses eventos, os pesquisadores encontraram algo perturbador em sua consistência: entre 99,3% e 99,7% dos pacientes já apresentavam pelo menos um fator de risco fora dos níveis ideais.

A hipertensão foi o fator mais prevalente, presente em mais de 93% dos americanos e 95% dos coreanos antes do primeiro evento. Colesterol elevado e glicemia aumentada vieram logo atrás. Mais revelador ainda foi o padrão de acumulação: mais de 93% dos pacientes carregavam dois ou mais fatores de risco simultaneamente. Não havia um único culpado — havia uma soma de sinais ignorados. Até mulheres abaixo dos 60 anos, grupo historicamente visto como de baixo risco, apresentavam alguma alteração detectável em mais de 95% dos casos de AVC ou insuficiência cardíaca.

Philip Greenland, cardiologista sênior do estudo, foi direto: eventos cardíacos graves raramente são imprevisíveis. O que falta, segundo ele, é detectar esses fatores cedo e controlá-los — em vez de buscar explicações em causas raras ou não comprovadas. No Brasil, onde as doenças cardiovasculares matam cerca de 400 mil pessoas por ano e representam 30% de todos os óbitos, a mensagem é tanto um alerta quanto uma abertura: se quase todos os eventos são precedidos por sinais detectáveis, quase todos poderiam, em teoria, ser prevenidos.

A ideia de que um infarto ou acidente vascular cerebral pode acontecer do nada, sem aviso, é reconfortante de certa forma — sugere que não há nada que pudéssemos ter feito. Uma pesquisa de grande escala acaba de demolir essa ilusão. Cientistas da Northwestern Medicine nos Estados Unidos e da Universidade Yonsei na Coreia do Sul analisaram dados de milhões de pessoas ao longo de duas décadas e chegaram a uma conclusão perturbadora em sua clareza: quase todos os que sofrem um evento cardiovascular grave já carregavam sinais de alerta anos antes.

O estudo, publicado no Journal of the American College of Cardiology, examinou dois grupos populacionais imensos. Na Coreia do Sul, acompanharam 9,3 milhões de adultos entre 2009 e 2022. Nos Estados Unidos, monitoraram 6.803 participantes do Multi-Ethnic Study of Atherosclerosis entre 2000 e 2019. Durante esses períodos, aproximadamente 601 mil coreanos e 1,2 mil americanos desenvolveram doença cardiovascular pela primeira vez — infarto, AVC ou insuficiência cardíaca — sem histórico anterior de problemas cardíacos. Os pesquisadores então olharam para trás, anos antes desses eventos, procurando por fatores de risco conhecidos que estivessem fora dos níveis considerados ideais pela American Heart Association: pressão arterial elevada, colesterol alto, glicemia aumentada e tabagismo.

Os números foram notavelmente consistentes entre os dois continentes. Entre os coreanos, 99,7% daqueles que sofreram infarto apresentavam pelo menos um fator de risco alterado antes do episódio. Entre os americanos, o percentual era 99,6%. Para acidente vascular cerebral, as taxas foram 99,3% na Coreia e 99,5% nos Estados Unidos. Insuficiência cardíaca mostrou padrão semelhante: 99,4% e 99,5% respectivamente. Mesmo quando os pesquisadores elevaram o critério para níveis mais rigorosos — pressão acima de 140/90 mmHg, colesterol superior a 240 mg/dL, glicose acima de 126 mg/dL — pelo menos 90% das pessoas ainda apresentavam alguma alteração detectável.

A hipertensão emergiu como o vilão mais comum. Mais de 95% dos pacientes coreanos e 93% dos americanos tinham pressão arterial elevada antes de seu primeiro evento cardiovascular. Colesterol elevado e glicemia aumentada vieram em seguida. Surpreendentemente, até mulheres com menos de 60 anos — um grupo tradicionalmente considerado de baixo risco — apresentavam algum fator de risco alterado em mais de 95% dos casos antes de sofrer um AVC ou insuficiência cardíaca. Mas talvez o achado mais importante tenha sido este: raramente uma pessoa chegava ao infarto ou AVC com apenas um problema isolado. Mais de 93% dos participantes apresentavam dois ou mais fatores de risco fora dos níveis ideais. Não havia um único vilão. Havia uma acumulação.

Philip Greenland, cardiologista da Northwestern e autor sênior do trabalho, resumiu o significado: eventos cardíacos graves raramente ocorrem de forma repentina e imprevisível. "Os dados mostram de forma muito convincente que quase todos os casos de infarto, AVC e insuficiência cardíaca são precedidos por fatores de risco modificáveis", afirmou. "O desafio agora é detectar esses fatores precocemente e controlá-los, em vez de desviar a atenção para causas raras ou não comprovadas."

No Brasil, a relevância é imediata e urgente. Doenças cardiovasculares causam aproximadamente 400 mil mortes por ano no país — cerca de 30% de todos os óbitos. Globalmente, essas doenças continuam sendo a principal causa de morte, superando câncer e infecções combinadas. O que este estudo sugere é que a maioria dessas mortes não é inevitável. Elas são precedidas por anos de exposição a fatores que podem ser modificados: alimentação desequilibrada, sedentarismo, excesso de peso, pressão arterial descontrolada, glicose elevada, tabagismo. A descoberta não oferece esperança vaga. Oferece responsabilidade — e oportunidade. Se quase todos os eventos cardiovasculares graves são precedidos por sinais detectáveis, então quase todos eles poderiam, teoricamente, ser prevenidos.

Os dados mostram de forma muito convincente que quase todos os casos de infarto, AVC e insuficiência cardíaca são precedidos por fatores de risco modificáveis. O desafio agora é detectar esses fatores precocemente e controlá-los.
— Philip Greenland, cardiologista da Northwestern Medicine e autor sênior do estudo
Não existe um único vilão. A maioria das pessoas chega ao infarto ou AVC após anos de exposição combinada a níveis ruins de pressão, glicose e colesterol, muitas vezes associada ao tabagismo.
— Autores do estudo publicado no Journal of the American College of Cardiology
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