Estudo premiado revela chemsex em 50% dos participantes e silêncio na saúde

Se o paciente teme ser julgado, a informação nunca aparece
Rocker explica por que o silêncio entre pacientes e profissionais de saúde impede a prevenção efetiva.
Mark

Por que esse estudo importa? Metade das pessoas usa substâncias em contexto sexual — isso é muito ou pouco?

Mimi

Depende do ponto de referência. Mas o número que realmente chama atenção é o outro: apenas 45% conversaram com profissionais de saúde sobre isso. Estamos falando de um serviço especializado em HIV, onde se esperaria mais diálogo.

Luke

Mas espera — esses 194 participantes foram recrutados principalmente nesse serviço especializado, certo? Então não sabemos se 50% é representativo da população LGBTQIA+ em geral.

Mimi

Exato. Rocker mesmo levanta essa questão. A amostra tem predominância de homens cisgênero, pessoas brancas e com maior escolaridade. Pessoas trans e negras podem estar invisibilizadas.

Mark

E por que as pessoas não conversam com os profissionais? É medo?

Mimi

Três razões principais: medo de julgamento, baixa percepção de risco e falta de iniciativa do profissional em perguntar. Giovanna, que apresentou esse trabalho, enfatiza que a barreira é de comunicação.

Luke

Mas como você separa essas três coisas? Se alguém tem baixa percepção de risco, será que não conversa porque acha que não é problema, ou porque teme ser julgado?

Mimi

Boa pergunta. O estudo descreve o que foi relatado, mas não decompõe completamente as motivações. O que fica claro é que o profissional precisa criar espaço seguro para a conversa acontecer.

Mark

E quanto à saúde mental? 47% tinham diagnóstico psiquiátrico. Isso significa que chemsex causa problemas mentais?

Luke

Não. Rocker é cuidadoso em dizer que o desenho da pesquisa não permite estabelecer causa e efeito. Você pode descrever características de um grupo, mas não provar que uma coisa causa a outra.

Mimi

E ele aponta que a droga muitas vezes é apenas a ponta de um problema maior. Pode haver sofrimento, insegurança, estigma por trás.

Mark

Então qual é a solução que o estudo sugere?

Mimi

Formação continuada dos profissionais, equipes multidisciplinares, atenção à saúde mental e redução de danos sem moralismo. Não é sobre incentivar o uso, é sobre oferecer informação para que as pessoas façam escolhas conscientes.

Luke

E isso funciona? O estudo mostra resultados de uma intervenção assim?

Mimi

Não, o GLOW ainda está em andamento. O que ele faz é identificar a barreira. Os próximos passos seriam testar se quebrar essa barreira de comunicação realmente melhora os resultados de saúde.

  • 50% dos 194 participantes relataram chemsex nos seis meses anteriores
  • Apenas 45% conversaram com profissionais de saúde sobre uso de drogas
  • Cannabis foi citada por 65% dos que praticavam chemsex, seguida por cocaína (36%)
  • 47% dos participantes tinham diagnóstico psiquiátrico
  • 77% utilizavam PrEP e 23% viviam com HIV

Metade dos 194 participantes do estudo relatou uso de substâncias em contexto sexual nos seis meses anteriores, com cannabis sendo a mais citada (65%). Apenas 45% dos participantes conversaram com profissionais de saúde sobre drogas, mesmo em serviço especializado, devido a baixa percepção de risco, medo de julgamento e falta de iniciativa profissional.

Pesquisa GLOW aponta que 50% de participantes em serviço especializado em HIV praticam chemsex, mas apenas 45% conversaram com profissionais de saúde sobre uso de drogas, revelando barreiras de comunicação.

Um estudo realizado em um serviço especializado em HIV e infecções sexualmente transmissíveis de São Paulo encontrou algo que parece simples à primeira vista, mas carrega peso considerável: metade das 194 pessoas que responderam à pesquisa havia usado substâncias psicoativas durante atividades sexuais nos seis meses anteriores. O dado por si só já merecia atenção. Mas havia outro número que contava uma história diferente, mais silenciosa. Apenas 45% dessas mesmas pessoas haviam conversado com algum profissional de saúde sobre o uso de drogas. O contraste entre essas duas proporções é o coração do Estudo GLOW, desenvolvido na Casa da Pesquisa, um centro vinculado ao Centro de Referência e Treinamento em IST/Aids do Estado de São Paulo.

O projeto, liderado pelo médico infectologista Lucas Rocker Ramos, não se propõe simplesmente a catalogar substâncias. Busca compreender o chemsex — expressão que combina as palavras inglesas chemical e sex — dentro de um contexto muito mais amplo: como se relaciona com saúde mental, práticas sexuais, percepção de risco e estratégias de prevenção. Entre os dias 26 e 29 de agosto, durante o 15º Congresso Paulista de Infectologia, diferentes análises do projeto foram apresentadas à comunidade científica. Uma delas, apresentada pela enfermeira Giovanna Haimowski, conquistou o segundo lugar entre os trabalhos de apresentação oral do congresso. Essa análise investigava justamente a comunicação — ou a falta dela — entre usuários dos serviços e profissionais de saúde.

Os números revelam barreiras que não dependem apenas de quem utiliza substâncias. Giovanna identificou três obstáculos principais: a baixa percepção de risco por parte de alguns participantes, o medo de serem julgados e a falta de iniciativa dos profissionais em abordar o tema. O resultado é particularmente significativo porque os participantes estavam inseridos em um serviço especializado, onde HIV e saúde sexual já fazem parte da rotina. Seria razoável esperar que conversas sobre uso de drogas fossem mais frequentes nesse contexto. Não foram. Entre as substâncias relatadas por quem praticava chemsex, a cannabis aparecia em 65% dos casos, seguida por cocaína (36%), medicamentos para ereção (35%), poppers (32%), ecstasy e GHB (18% cada), metanfetamina (14%) e ketamina (7%). O álcool foi analisado separadamente: 78% dos participantes relataram consumo, e entre esses, 49% disseram ter realizado atividade sexual sob efeito da bebida.

Rocker enfatiza que simplesmente perguntar ao paciente se ele usa drogas muitas vezes não é suficiente. É necessário entender qual droga, em qual contexto, com que frequência, por qual motivo e quais são as consequências. Mas há um obstáculo anterior a essa conversa técnica: o medo do julgamento. Se o paciente acredita que o profissional condenará seu comportamento, provavelmente não contará que usa drogas ou que faz sexo sob efeito de substâncias. E sem essa informação, o serviço de saúde perde a oportunidade de identificar riscos, fazer prevenção e oferecer cuidado no momento certo. Para Rocker, colocar exclusivamente sobre o paciente a responsabilidade de iniciar essa conversa ignora o peso do estigma. O serviço de saúde precisa estar preparado para acolher essa população.

Os dados do GLOW também revelam que 47% dos participantes relataram algum diagnóstico psiquiátrico, e entre esses, 66% faziam uso de medicamentos para tratamento. Mas Rocker é cuidadoso em apontar que isso não significa que o estudo demonstrou que chemsex cause transtornos mentais ou vice-versa. O desenho da pesquisa permite descrever características e explorar relações entre elas, mas não estabelecer relações de causa e efeito. O que os dados sugerem é que a droga muitas vezes pode ser apenas a ponta de um problema muito maior. Por trás daquele uso podem existir camadas de sofrimento, insegurança, baixa autoestima, estigma, preconceito, dificuldades afetivas ou questões de saúde mental. A complexidade aumenta quando se coloca a droga dentro do contexto sexual.

Há, porém, uma limitação importante: os resultados do GLOW não podem ser generalizados para toda a população LGBTQIA+ de São Paulo ou do Brasil. A maior parte dos participantes foi recrutada no serviço especializado, e a amostra apresentou predominância de homens cisgênero que fazem sexo com homens, pessoas brancas e participantes com maior escolaridade. Rocker levanta uma pergunta fundamental: estamos realmente vendo quem mais usa, ou estamos vendo quem mais conseguimos estudar? Pessoas trans e negras podem estar sub-representadas nessas pesquisas, e consequentemente seus padrões de uso, suas motivações e as drogas utilizadas podem estar sendo invisibilizadas.

Entre os participantes do GLOW, 77% utilizavam PrEP e 23% viviam com HIV. A PrEP, quando utilizada corretamente, é uma ferramenta fundamental para prevenção do HIV, mas previne apenas o HIV, não todas as outras infecções sexualmente transmissíveis. Por isso, a saúde pública trabalha com o conceito de prevenção combinada, que reúne diferentes estratégias de acordo com as necessidades de cada pessoa. Rocker defende também a abordagem de redução de danos, que reconhece que o cuidado não deve depender de uma pessoa interromper imediatamente o uso de determinada substância. O objetivo é diminuir riscos e consequências negativas, oferecer informação e manter o vínculo com os serviços de saúde. Para preparar os serviços para abordar chemsex, Rocker aponta a necessidade de formação continuada dos profissionais, equipes multidisciplinares, atenção à saúde mental e participação de pessoas da própria comunidade na construção das estratégias de cuidado. O mais importante é não transformar essas pessoas em usuários de drogas antes de enxergá-las como pessoas. Quando o paciente teme ser julgado e o profissional não abre espaço para a conversa, oportunidades de prevenção e cuidado podem ser perdidas. Mas quando há escuta sem moralismo, a informação permite que as pessoas façam escolhas mais conscientes e reduzam danos quando o uso acontece.

Simplesmente perguntar ao paciente 'você usa drogas?' muitas vezes não é suficiente. Precisamos entender qual droga, em qual contexto, com que frequência, por qual motivo e quais são as consequências desse uso.
— Lucas Rocker Ramos, médico infectologista e investigador principal do Estudo GLOW
A gente está dentro de um cenário de um serviço especializado, onde se espera que essa conversa tenha sido mais frequente.
— Giovanna Haimowski, enfermeira e primeira autora da análise premiada
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