O Brasil emerge como epicentro da inovação em pagamentos na América Latina, concentrando quase metade das empresas mais avançadas da região — não apenas startups, mas gigantes tradicionais que aprenderam a se reinventar. Um estudo da Visa revela que a fronteira entre varejo, tecnologia e serviços financeiros está se dissolvendo, enquanto a pandemia comprime décadas de transformação em poucos meses. O país enfrenta, ao mesmo tempo, a promessa de um sistema mais inclusivo e o peso de uma desigualdade digital que ainda deixa milhões à margem.
Estudo Visa aponta Brasil como líder em inovação em pagamentos na América Latina
As varejistas estão se tornando plataformas de serviços
Por que o Brasil se destaca tanto em inovação em pagamentos?
Não é apenas porque temos startups. O que torna o Brasil diferente é que empresas tradicionais — varejistas, bancos estabelecidos — estão inovando com a mesma intensidade. Elas têm escala, capital e acesso a clientes. Quando decidem inovar, conseguem fazer isso rapidamente.
E essas empresas tradicionais estão realmente mudando, ou apenas copiando o que as startups fazem?
Estão realmente mudando. Magazine Luiza é um exemplo claro: uma varejista que se tornou uma plataforma de serviços. Isso não é cópia. É transformação. Elas estão expandindo para segmentos completamente novos, como o Mercado Livre fez com o Mercado Pago.
Qual é o segredo dessas empresas mais inovadoras?
Colaboração. Todas elas trabalham com parceiros externos — startups, fintechs, aceleradoras. Não tentam fazer tudo sozinhas. Além disso, a inovação não fica presa em um departamento. É responsabilidade de toda a organização. E usam metodologias ágeis.
A pandemia mudou algo?
Mudou muito. Os pagamentos sem contato cresceram de cinco para vinte e dois por cento em apenas três meses. As pessoas começaram a ver dinheiro como ameaça. Mas o que é mais importante é que isso acelerou uma tendência que já existia. Os pagamentos digitais vão ser os principais no longo prazo.
Mas nem todo mundo tem acesso a essas tecnologias, certo?
Exato. Quarenta por cento dos pagamentos ainda são feitos em dinheiro. Há uma desigualdade profunda. O desafio agora é aproveitar a penetração de setenta por cento de smartphones para alcançar essa população desbancarizada. É aí que está a oportunidade real.
E o que vem a seguir?
PIX e open banking começam em novembro. Isso vai mudar o jogo. Mas a maioria das empresas ainda está em fase intermediária de inovação. Sessenta e quatro por cento trabalham em silos, têm processos burocráticos. Elas estão em transformação, mas ainda têm um longo caminho.
El Pulso
- O Brasil concentra 43% das empresas mais inovadoras em pagamentos da América Latina, superando expectativas ao incluir gigantes tradicionais como Magazine Luiza e Banco do Brasil ao lado de nativas digitais.
- A pandemia agiu como catalisador brutal: pagamentos sem contato saltaram de 5% para 22% em apenas três meses, redesenhando hábitos de consumo em tempo recorde.
- A desigualdade digital ameaça o avanço — 40% dos pagamentos ainda são feitos em dinheiro vivo por uma população desbancarizada, criando uma tensão entre o Brasil que inova e o Brasil que ainda espera.
- Empresas líderes apostam em ecossistemas abertos: parcerias com fintechs, metodologias ágeis e uso intensivo de APIs permitem lançar produtos 24% mais rápido e formar 60% mais alianças do que concorrentes.
- O ambiente regulatório se movimenta: PIX e open banking entram em operação em novembro, prometendo reorganizar as regras do jogo para bancos, fintechs e consumidores.
- Ainda assim, 64% das empresas avaliadas operam em estágios iniciais ou intermediários de inovação, reagindo ao mercado em vez de moldá-lo — o caminho até a maturidade é longo.
O Brasil emerge como epicentro da inovação em pagamentos na América Latina, concentrando quase metade das empresas mais avançadas da região — não apenas startups, mas gigantes tradicionais que aprenderam a se reinventar. Um estudo da Visa revela que a fronteira entre varejo, tecnologia e serviços financeiros está se dissolvendo, enquanto a pandemia comprime décadas de transformação em poucos meses. O país enfrenta, ao mesmo tempo, a promessa de um sistema mais inclusivo e o peso de uma desigualdade digital que ainda deixa milhões à margem.
O Brasil reúne quase metade das empresas mais inovadoras em pagamentos de toda a América Latina, segundo estudo conduzido pela Visa em parceria com a Americas Market Intelligence, que ouviu líderes de mais de cem companhias da região. Para Vanesa Meyer, head de Inovação e Design da Visa América Latina, o resultado confirma um padrão histórico: o país ocupa papel de liderança com inovação vinda de perfis muito diferentes de empresas.
O dado mais revelador é que a vanguarda não pertence apenas às startups. Companhias tradicionais como Magazine Luiza e Banco do Brasil estão na linha de frente, ao lado de nativas digitais como o Mercado Livre — que nasceu como marketplace e hoje tem no Mercado Pago um pilar central do negócio. As fronteiras entre varejo, tecnologia e serviços financeiros estão desaparecendo, e as empresas que lideram essa transformação compartilham características comuns: todas colaboram com parceiros externos, metade investiu diretamente em startups, 70% adotam metodologias ágeis e usam o dobro de APIs em relação aos concorrentes menos inovadores.
A pandemia acelerou mudanças que já estavam em curso. Pesquisas da Visa com a população bancarizada mostraram que 70% dos entrevistados passaram a usar menos dinheiro vivo entre março e julho. O salto mais expressivo foi nos pagamentos sem contato, que cresceram de 5% para 22% em três meses. Tecnologias como inteligência artificial, machine learning e biometria ganharam protagonismo, com a biometria atingindo 70% de adoção entre as empresas mais inovadoras.
O cenário, porém, carrega contradições. Apesar da penetração de 70% de smartphones, 40% dos pagamentos ainda são feitos em dinheiro por uma população desbancarizada. E apenas 26% das empresas avaliadas estão em estágios avançados de inovação — a maioria ainda opera em silos, com processos burocráticos e postura reativa. Com o PIX e o open banking prestes a entrar em operação em novembro, o Brasil se aproxima de um novo capítulo, mas a distância entre os que lideram e os que ainda buscam alcançá-los permanece considerável.
O Brasil reúne quase metade das empresas mais inovadoras em pagamentos de toda a América Latina. É o que aponta um estudo conduzido pela Visa em parceria com a Americas Market Intelligence, que entrevistou líderes de mais de cem empresas da região para mapear como a indústria de pagamentos está evoluindo. O levantamento não trouxe surpresa para Vanesa Meyer, head de Inovação e Design da Visa América Latina. "Temos visto o Brasil ao longo dos tempos em um papel de liderança, com inovação vindo de diferentes tipos de empresas", afirmou.
O que chama atenção no estudo é que a inovação não vem apenas de startups ou empresas nativas digitais. Companhias tradicionais como Magazine Luiza e Banco do Brasil estão na linha de frente. A gigante do varejo de Franca, em São Paulo, é citada como exemplo de como uma varejista tradicional conseguiu oferecer uma experiência omnicanal de ponta. Essa transformação reflete uma tendência clara: as fronteiras entre os tipos de negócio estão desaparecendo. Varejistas estão se tornando plataformas de serviços, expandindo para segmentos completamente novos. O Mercado Livre nasceu como marketplace, mas hoje tem no Mercado Pago uma unidade de negócio fundamental.
As empresas mais inovadoras compartilham características bem definidas. Todas elas trabalham em colaboração com parceiros externos — fintechs, aceleradoras, startups. Metade investiu diretamente em startups. Quarenta por cento tinha algum programa de incubação ou aceleração. Todas faziam algum tipo de parceria para encontrar soluções mais criativas. Além disso, setenta por cento adotam metodologias ágeis, e a inovação não é responsabilidade de um departamento isolado, mas de toda a organização. Essas empresas desenvolvem o dobro de provas de conceito, lançam novos produtos vinte e quatro por cento mais rápido e formam sessenta por cento mais parcerias do que seus concorrentes menos inovadores. Usam também o dobro de APIs.
Mas há um desafio imenso à frente. O Brasil tem uma desigualdade profunda em termos de acesso à tecnologia e digitalização. Enquanto bancos digitais na América Latina já têm mais de cinquenta milhões de usuários, ainda há uma população desbancarizada que responde por quarenta por cento dos pagamentos feitos em dinheiro. Transações digitais já representam mais de sessenta por cento do total, mas há espaço para crescimento. A penetração de setenta por cento de smartphones na sociedade brasileira abre possibilidades. É uma das razões pelas quais novos bancos como o Nubank conseguiram decolar.
A pandemia acelerou mudanças que já estavam em curso. A Visa fez duas pesquisas com a população bancarizada — uma em março e outra em julho — para acompanhar como o comportamento dos consumidores estava evoluindo. Setenta por cento dos entrevistados passaram a usar menos dinheiro vivo, adotando débito e carteiras digitais. O salto mais impressionante foi nos pagamentos sem contato. Em três meses, cresceram de cinco por cento para vinte e dois por cento. Em países como Chile e Costa Rica, esse meio já ultrapassa cinquenta por cento. "Isso mostra como o comportamento do consumidor está mudando. Se pensarmos no longo prazo, esses pagamentos digitais vão ser os principais", disse Vanesa.
Tecnologias como inteligência artificial, machine learning e biometria ganharam peso como alicerces para sustentar a inovação em pagamentos. A biometria teve um aumento de quarenta e quatro por cento entre as empresas entrevistadas, chegando a setenta por cento de adoção entre as mais inovadoras. Assistentes virtuais, chatbots de atendimento e outras funções automatizadas estão transformando como os clientes interagem com seus provedores de pagamento.
O cenário regulatório também está evoluindo. Há mais de mil e trezentas fintechs operando na América Latina, e vinte e quatro por cento delas atuam na vertical de pagamentos. O México aprovou uma lei de fintechs. Bancos centrais estão regulamentando pagamentos instantâneos. No Brasil, o PIX e o open banking começam a operar em novembro. Contudo, apenas vinte e seis por cento de todas as empresas avaliadas estão nas fases avançada ou madura de inovação. Sessenta e quatro por cento ainda estão em desenvolvimento ou fase intermediária, com equipes de inovação que reagem às mudanças do mercado em vez de buscarem disrupção. Essas empresas trabalham em silos, usam APIs moderadamente, têm alianças estruturadas verticalmente e enfrentam processos de desenvolvimento burocráticos. Estão em transformação digital, buscando alcançar as inovadoras do mundo e da região.
Citas Notables
Temos visto o Brasil ao longo dos tempos em um papel de liderança, com inovação vindo de diferentes tipos de empresas— Vanesa Meyer, head de Inovação e Design da Visa América Latina
Se pensarmos no longo prazo, esses pagamentos digitais vão ser os principais— Vanesa Meyer, head de Inovação e Design da Visa América Latina