Desde o final de setembro de 2026, centenas de milhares de jovens franceses ocupam as ruas exigindo o que toda geração, em algum momento, reivindica: um futuro que não lhes seja negado antes mesmo de começar. O que nasceu como bloqueios espontâneos em liceus deteriorados cresceu até se tornar um espelho das contradições de uma década de políticas que prometeram modernidade e entregaram exclusão. Diante da resposta do Estado — cassetetes, gás lacrimogêneo e uma granada que custou a mão de um adolescente de 15 anos —, o movimento não recua; ele se aprofunda.
Estudantes franceses enfrentam repressão policial em protesto por direitos educacionais
O gás lacrimogêneo não vai parar o movimento
Por que isso começou agora? Parece que educação sempre foi um problema.
Começou com os liceus — falta de professores, prédios caindo aos pedaços. Mas cresceu porque os universitários viram a chance de levantar suas próprias demandas, que também são urgentes. Bolsas, moradia, acesso real à universidade.
Mas quanto tempo isso vinha se acumulando? O texto diz que é resultado de dez anos de Macron, mas não explica por que explodiu em setembro especificamente.
É uma boa pergunta. Acho que foi o ponto de ruptura — quando você vê que nada muda, que o governo não ouve, você sai para a rua.
E a polícia? Cassetetes e gás lacrimogêneo contra manifestantes pacíficos?
Sim. E pior — uma criança de 15 anos perdeu a mão. Uma granada de atordoamento. É desproporcional, é absurdo.
Espera — o texto diz que foi uma granada de atordoamento que causou a amputação? Isso é incomum. Grenadas de atordoamento não costumam amputar. Há mais detalhes sobre como exatamente isso aconteceu?
Não, o texto só diz que foi atingido por uma granada de atordoamento em Lens. Os detalhes não estão lá.
E quanto à acusação de que Mélenchon está manipulando tudo?
É falso. O movimento é espontâneo. Mélenchon apoia porque nossas demandas alinham com o programa dele, não o contrário. Ele apareceu nos protestos, mas não comanda nada.
Mas como você sabe que é espontâneo? Há sindicatos estudantis envolvidos, certo? Quem coordena entre os diferentes liceus e universidades?
Há sindicatos, mas nenhum deles comanda o movimento. É descentralizado. A gente se organiza por conta própria.
E agora? O que vem depois?
Continuamos. O governo ofereceu conversas vazias. Queremos ação — orçamento, medidas emergenciais. Não vamos parar.
Der Puls
- O que começou com estudantes trancando portões de liceus sem professores tornou-se, em semanas, uma mobilização de 450 mil pessoas nas ruas de toda a França.
- A violência policial foi além do simbólico: em Lens, uma granada de atordoamento amputou a mão esquerda de um adolescente de 15 anos, chocando pais, professores e a opinião pública.
- O governo Lecornu ofereceu um dia e meio de diálogo e um site para reclamações — resposta que os próprios diretores de escola recusaram como insuficiente e vazia.
- Para deslegitimar o movimento, o governo acusa os estudantes de serem marionetes de Mélenchon, ignorando que a organização é espontânea e as demandas são concretas: bolsas, moradia, infraestrutura e fim da seleção excludente.
- Os estudantes prometem continuar — e contam com solidariedade internacional, inclusive do Brasil — enquanto exigem medidas emergenciais e desbloqueio imediato do orçamento educacional.
Desde o final de setembro de 2026, centenas de milhares de jovens franceses ocupam as ruas exigindo o que toda geração, em algum momento, reivindica: um futuro que não lhes seja negado antes mesmo de começar. O que nasceu como bloqueios espontâneos em liceus deteriorados cresceu até se tornar um espelho das contradições de uma década de políticas que prometeram modernidade e entregaram exclusão. Diante da resposta do Estado — cassetetes, gás lacrimogêneo e uma granada que custou a mão de um adolescente de 15 anos —, o movimento não recua; ele se aprofunda.
Na manhã de 7 de outubro, alunos da Sciences Po se reuniram pacificamente em Paris e foram recebidos com cassetetes e gás lacrimogêneo. Era o desdobramento de algo que havia começado de forma simples, semanas antes: alguns liceus bloqueados por estudantes do ensino médio que não aguentavam mais salas sem professores, prédios deteriorados e estruturas inadequadas.
Os universitários abraçaram a causa e ampliaram as demandas — bolsas maiores, auxílio-moradia, novos dormitórios, fim do sistema de seleção que exclui candidatos, mais recursos para restaurantes universitários sobrecarregados e igualdade de tratamento para estudantes não europeus, que viram suas mensalidades multiplicadas por dezesseis em 2026. O que era local tornou-se nacional: mais de 450 mil pessoas nas ruas de toda a França.
A resposta do governo foi a repressão. O ministro do Interior escolheu a força. Em Lens, uma granada de atordoamento arrancou a mão esquerda de um adolescente de 15 anos — a mesma arma usada contra crianças enquanto agricultores simpatizantes da extrema direita bloqueavam estradas sem maiores consequências nos anos anteriores. A Sciences Po, por sua vez, cancelou aulas presenciais para dificultar a organização dos estudantes, repetindo a lógica repressiva já adotada durante os protestos pró-Palestina de 2024.
O primeiro-ministro Lecornu ofereceu um dia e meio de diálogo e um site para reclamações. O principal sindicato de diretores de escola recusou participar. Os estudantes também: queriam medidas emergenciais e orçamento desbloqueado, não conversas vazias. O governo então tentou deslegitimar o movimento acusando-o de ser manipulado por Jean-Luc Mélenchon — argumento que ignora a natureza espontânea da mobilização e serve apenas para desviar o debate das demandas reais.
O que está acontecendo na França é resultado de quase dez anos de políticas que prometeram modernidade e produziram exclusão, marginalizando uma juventude sem acesso às instituições de elite. O movimento tem apoio internacional, inclusive do Brasil. E o gás lacrimogêneo, como a história costuma mostrar, não é capaz de parar quem já não tem nada a perder.
Na quarta-feira 7 de outubro, centenas de alunos da Sciences Po se reuniram pacificamente nas ruas de Paris quando a polícia chegou com cassetetes e gás lacrimogêneo. No dia anterior, mais de 450 mil pessoas — estudantes e simpatizantes — ocuparam as ruas de toda a França, transformando o que começou como um movimento localizado no final de setembro em uma mobilização de escala nacional.
Tudo começou simples. Alguns liceus foram bloqueados por estudantes do ensino médio que denunciavam condições insuportáveis: falta de professores, edifícios deteriorados, estruturas inadequadas para o clima que muda, horários escolares que sobrecarregam. Os universitários abraçaram a causa e ampliaram as demandas. Queriam bolsas de estudo maiores, auxílio-moradia expandido, novos dormitórios, e fim do sistema de seleção que exclui candidatos das universidades. Pediam também mais recursos para os restaurantes universitários, que ficaram superlotados quando o governo, atendendo a um antigo pedido, reduziu o preço da refeição para um euro — aumentou a procura sem aumentar a capacidade. E exigiam igualdade de tratamento para estudantes não europeus, que tiveram o auxílio-moradia cortado e viram suas mensalidades multiplicadas por dezesseis neste ano.
O governo do primeiro-ministro Sébastien Lecornu respondeu com indiferença. O ministro do Interior, Laurent Nuñez, escolheu a repressão policial. A violência foi desproporcional o suficiente para chocar pais e professores. Em Lens, um adolescente de 15 anos perdeu a mão esquerda depois de ser atingido por uma granada de atordoamento — uma arma usada contra crianças. Enquanto isso, o mesmo governo havia permitido passivamente que agricultores simpatizantes da extrema direita fechassem estradas em 2024 e 2025.
A Sciences Po cancelou arbitrariamente as aulas presenciais, tentando impedir que os estudantes se organizassem. A universidade adotou essa lógica repressiva desde os protestos pró-Palestina de 2024, quando mandou a polícia invadir o campus para remover alunos — algo sem precedentes. Lecornu ofereceu um dia e meio de diálogo nas escolas e um site para receber reclamações. O principal sindicato de diretores de escola recusou participar. Os estudantes não queriam conversas vazias: exigiam medidas emergenciais e orçamento desbloqueado.
O governo tentou deslegitimar o movimento acusando os estudantes de serem manipulados por Jean-Luc Mélenchon, líder do partido A França Insubmissa e candidato presidencial para 2027. É verdade que o movimento estudantil simpatiza com Mélenchon — porque ele e seu partido apoiam as reivindicações. Mélenchon e Bally Bagayoko, prefeito de Saint-Denis, a cidade mais pobre da periferia parisiense, compareceram aos protestos. Bagayoko e outros políticos da LFI chegaram a se colocar fisicamente entre os estudantes e a polícia.
Mas é falso que sindicatos estudantis sejam comandados por alguém. Na verdade, é o governo que tenta politizar a questão para desacreditar um movimento que se organiza por conta própria. O que está acontecendo na França é espontâneo, nascido de insatisfação crescente, e tem apoio de estudantes de vários países, inclusive do Brasil, através do site 10mesures.fr. Reflete uma época de ameaça à perda de direitos e falta de perspectiva de futuro. Na França especificamente, é resultado de quase dez anos de políticas antissociais sob Emmanuel Macron, que tenta desmantelar universidades e escolas, marginalizando grande parte da juventude que não tem acesso às instituições consideradas de elite. O gás lacrimogêneo não vai parar o movimento.
Bemerkenswerte Zitate
O movimento atual na França é espontâneo, fruto de uma insatisfação cada vez maior— Estudante participante do protesto
Não será o gás lacrimogêneo que vai nos parar— Estudante participante do protesto