Estátua de 11 metros do Diabo é inaugurada em templo de quimbanda no Ceará

É uma prática de se curar, de cultuar a ancestralidade, de ser inteiro
Tata Roberto Leão rejeita a ideia de que quimbanda seja prática do mal e a redefine como caminho de cura e autoconhecimento.
Mark

Por que uma estátua de 11 metros? Parece uma afirmação muito pública para uma prática que muitos desconhecem.

Mimi

É uma afirmação, sim. Mãe Rainha das Trevas lidera há quase 30 anos e tem recursos para materializar sua fé. A estátua não é provocação — tem licenças, alvarás, aprovação ambiental. É um ato de visibilidade.

Mark

Mas por que o Diabo? Isso não assusta as pessoas?

Mimi

Porque na quimbanda, o Diabo não é o inimigo. Exus e pombagiras não são entidades do mal. São ancestrais, são partes de nós mesmos. O medo vem de quem não conhece a prática.

Mark

Tata Roberto fala de cura espiritual. Cura de quê, exatamente?

Mimi

De tudo aquilo que nos impede de ser inteiros. Das sombras que negamos, dos desejos que reprimimos, do ciclo de reencarnar sofrendo. É quase psicanalítico — você se conhece profundamente para se libertar.

Mark

E se alguém de outra religião quisesse praticar quimbanda?

Mimi

Pode. Não é religião, é prática. Um católico, um evangélico, um espírita — qualquer um pode buscar os exus e pombagiras sem abandonar sua fé.

Mark

A oralidade significa que não há regras fixas?

Mimi

Significa que cada comunidade, cada tata, desenvolve sua própria compreensão. Não há um livro que diga como fazer. Há fundamentos, mas há liberdade também.

Mark

Então a estátua é um marco dessa liberdade?

Mimi

É um marco de que a quimbanda existe, é legítima, e merece ocupar espaço público — mesmo que em propriedade privada. É visibilidade para quem foi invisível por séculos.

  • Uma estátua de 11 metros do Diabo surge no litoral cearense e provoca reações imediatas de estranhamento e curiosidade em escala nacional.
  • A quimbanda, prática milenar de matriz africana voltada à cura espiritual, é frequentemente confundida com culto ao mal — um equívoco que seus praticantes buscam desfazer com urgência.
  • O templo Palácio Estrela Negra da Quimbanda obteve todas as licenças ambientais e alvarás necessários, transformando um ato espiritual em também um ato de legitimidade civil.
  • Praticantes como Tata Roberto Leão articulam a quimbanda como jornada psicanalítica de autoconhecimento, onde encarar as próprias sombras é o caminho para a cura integral.
  • O debate em torno da estátua aponta para uma tensão mais ampla: o direito de expressão religiosa de tradições afro-brasileiras em um país de maioria cristã.

Na orla do litoral cearense, uma estátua de 11 metros dedicada ao Diabo foi erguida com licenças legais e bênçãos ancestrais, marcando a inauguração de um templo de quimbanda — prática magística de raiz africana cujo nome, em língua Banto, significa simplesmente curador. O monumento não é um gesto de provocação, mas uma afirmação pública de uma tradição que, por décadas, operou nas margens da visibilidade. Em tempos em que o sagrado é frequentemente disputado no espaço público, a quimbanda convida à reflexão sobre o que uma sociedade considera digno de monumento — e quais sombras ainda recusa encarar.

Na Taíba, distrito de São Gonçalo do Amarante na região metropolitana de Fortaleza, uma estátua de 11 metros dedicada ao Diabo foi inaugurada no dia 25 de julho. O monumento pertence ao templo Palácio Estrela Negra da Quimbanda, dirigido pela feiticeira Mãe Rainha das Trevas, que lidera práticas espirituais há quase três décadas. A obra custou mais de cem mil reais e contou com projeto de engenheiro civil.

Para entender o que a estátua representa, é preciso entender a quimbanda. Tata Roberto Leão, praticante há três anos e também pai de santo na umbanda há duas décadas, é direto: quimbanda não é religião. É uma prática magística aberta a pessoas de qualquer fé. A palavra vem do Banto — grupo etnolinguístico da África subsaariana — e significa curador. Suas raízes são africanas, mas incorpora também influências dos povos originários e da magia cerimonial europeia. Sem texto sagrado centralizado, transmite-se pela oralidade, e cada comunidade desenvolve sua própria forma de praticá-la.

No centro da quimbanda estão os exus e as pombagiras — entidades que, segundo Roberto, representam partes do próprio praticante e de sua ancestralidade. O processo é descrito como uma jornada quase psicanalítica: mergulhar em si mesmo sem negar as próprias sombras, compreender desejos, ganhar consciência plena e decidir livremente o que realizar. Nessa cosmologia, passado, presente e futuro coexistem simultaneamente. Para alguns adeptos, a prática oferece uma cura espiritual tão profunda que poderia encerrar o ciclo de reencarnações — entendido como um castigo, não uma bênção.

A construção do monumento exigiu aprovações formais. Por estar localizado na Área de Proteção Ambiental das Dunas do Litoral Oeste, a prefeitura precisou obter autorização da Secretaria Estadual de Meio Ambiente. Licença ambiental e alvará de construção foram emitidos conforme a legislação vigente. A estátua, portanto, não desafia o Estado — ela foi por ele reconhecida.

Na Taíba, município de São Gonçalo do Amarante na região metropolitana de Fortaleza, uma estátua de 11 metros dedicada ao Diabo foi erguida e inaugurada no dia 25 de julho. O monumento ocupa uma propriedade privada e pertence ao templo Palácio Estrela Negra da Quimbanda, dirigido pela feiticeira Mãe Rainha das Trevas, que lidera práticas religiosas há quase três décadas. A construção custou mais de cem mil reais e contou com projeto de um engenheiro civil, embora a feiticeira tenha mantido em sigilo o tempo necessário para sua conclusão.

Para compreender o significado dessa inauguração, é preciso entender o que é quimbanda — uma pergunta que muitos se fazem ao ouvir falar da estátua. Tata Roberto Leão, que pratica quimbanda há três anos e se tornou tata em 2026, oferece uma resposta clara: quimbanda não é religião. É uma prática magística que pode ser realizada por pessoas de qualquer fé. O termo tata, que significa pai ou sacerdote na linhagem Congo-Angola, designa um mestre ou dirigente ritualista. Roberto também é pai de santo na umbanda, religião que pratica há duas décadas, e sua dupla experiência o coloca em posição privilegiada para explicar as nuances entre essas práticas.

A quimbanda tem raízes profundas em matriz africana, mas sua forma atual incorpora influências dos povos originários e da magia cerimonial europeia. Diferentemente de religiões como o cristianismo, islamismo ou judaísmo, que possuem textos sagrados centralizados, a quimbanda se transmite pela oralidade. Não existe um livro único que rege seus preceitos, o que significa que não há um modo universal de praticá-la. Cada comunidade, cada praticante, desenvolve sua própria compreensão e aplicação dos fundamentos. A palavra quimbanda vem do Banto, grupo etnolinguístico da África subsaariana, onde kimbanda significa curador — uma origem que aponta para o propósito central da prática.

Segundo Tata Roberto, a quimbanda é fundamentalmente um culto a entidades conhecidas como exus e pombagiras. Mas o que isso significa na prática? Ele descreve o processo como uma jornada de autoconhecimento quase psicanalítica, onde o praticante busca compreender a si mesmo sem negar suas próprias sombras. É um mergulho interior que visa identificar desejos, ganhar consciência plena de quem se é, e decidir livremente o que vale a pena realizar. Nessa perspectiva, passado, presente e futuro não ocorrem de forma linear, um evento após o outro, mas simultaneamente. Ao acessar os exus e pombagiras, o praticante acessa partes de si mesmo e de sua própria ancestralidade.

Para alguns adeptos, a quimbanda oferece também a possibilidade de cura espiritual profunda — uma cura que, em sua visão, poderia eliminar a necessidade de reencarnar. Nessa cosmologia, a reencarnação é entendida como um castigo espiritual, um ciclo onde o indivíduo fica fadado a reviver todas as dimensões boas e ruins da vida carnal. Quando plenamente curado, acreditam, a pessoa se tornaria um exu ou pombagira. Tata Roberto rejeita a caracterização da quimbanda como prática do mal. Para ele, é uma prática de cura, de cultuar a ancestralidade, de honrar a si mesmo, de se compreender como um ser inteiro e de se tornar uma pessoa mais completa.

A estátua em si gerou necessidade de aprovações formais. Como o empreendimento está localizado na Área de Proteção Ambiental das Dunas do Litoral Oeste, a Prefeitura de São Gonçalo do Amarante precisou obter autorização da Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Mudança do Clima. Segundo a gestão municipal, tanto a Licença Ambiental quanto o Alvará de Construção foram emitidos de acordo com a legislação vigente, após aprovação do Governo do Estado. O monumento, portanto, não é um ato de desafio às autoridades, mas um empreendimento que passou pelos trâmites legais exigidos.

A quimbanda é uma prática magística que agrega todas as religiões, com origem em matriz africana, influência dos povos originários e da magia cerimonial europeia
— Tata Roberto Leão
Não é uma prática do mal. É uma prática de se curar, de cultuar a sua ancestralidade, honrar a si mesmo e ser uma pessoa mais completa
— Tata Roberto Leão
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