Inflação projetada para 2022 sobe pela 32ª semana consecutiva, atingindo 9,77% até dezembro, enquanto crescimento estimado cai para 0,93% anual. Consumo das famílias brasileiras enfraquece com endividamento em níveis recordes e crédito mais caro, afetando empresas como Magazine Luiza com queda de 12,65%.
Estagflação à vista: Ibovespa cai 1,81% enquanto dólar sobe e mercado projeta inflação alta
A inflação vai comer o dinheiro extra rapidamente
Por que o mercado brasileiro caiu quando o resto do mundo subiu? Não deveria estar tudo melhor?
Porque o Brasil está preso em seus próprios problemas. Enquanto a América gasta trilhões e puxa a economia global, aqui o governo gasta sem controle mas sem investir em nada que gere crescimento. É a diferença entre gastar para crescer e gastar para se manter no poder.
Estagflação soa como uma palavra de economista assustado. O que realmente significa para quem vive aqui?
Significa que seu salário não acompanha o custo de vida, mas seu patrão não consegue vender mais porque ninguém tem dinheiro. Você paga mais caro por tudo, ganha menos em termos reais, e a economia não cresce. É um beco sem saída.
O governo está tentando ajudar os pobres com mais transferências. Isso não deveria ajudar?
Ajuda por uma semana. Depois a inflação come o dinheiro extra, e você está no mesmo lugar, mas o governo gastou mais. É como tentar encher um balde furado.
E o teto de gastos? Não era para evitar exatamente isso?
Era. Mas agora vão dinamitar o teto para gastar mais. É como ter uma dieta e depois mudar a balança para parecer que você não engordou.
Petrobras subiu. Isso não é bom sinal?
É bom para quem tem ações da Petrobras. O petróleo está caro porque o mundo quer consumir mais. Mas isso não resolve o problema fiscal do Brasil. É uma vela acesa num quarto que está pegando fogo.
Le Pouls
- Ibovespa caiu 1,81% para 104.404 pontos; dólar subiu 0,75% a R$ 5,4991
- Inflação projetada para 2022 sobe para 4,79%; crescimento estimado cai para 0,93% ao ano
- Inflação até dezembro de 2021 revisada para 9,77%, em alta pela 32ª semana consecutiva
- Magazine Luiza caiu 12,65%; apenas 10 das 92 ações do Ibovespa subiram
Inflação projetada para 2022 sobe pela 32ª semana consecutiva, atingindo 9,77% até dezembro, enquanto crescimento estimado cai para 0,93% anual. Consumo das famílias brasileiras enfraquece com endividamento em níveis recordes e crédito mais caro, afetando empresas como Magazine Luiza com queda de 12,65%.
Mercado projeta estagflação para 2022 com inflação acima de 4,7% e crescimento próximo a 0,93%, refletindo perdas de 1,81% no Ibovespa e alta do dólar a R$ 5,50 nesta terça-feira.
A terça-feira trouxe um retrato pouco animador dos mercados brasileiros. O Ibovespa caiu 1,81%, fechando em 104.404 pontos, enquanto o dólar à vista subiu 0,75% para R$ 5,4991. Num dia em que o apetite por risco prevalecia globalmente — com bolsas americanas atingindo máximas históricas e mercados emergentes subindo — os ativos brasileiros seguiram sozinhos para baixo, desalinhados do resto do mundo. Quando convertido para dólar, o tombo do índice chega a 2,55%, uma queda ainda mais severa que a vista em reais.
O cenário que assusta investidores é a possibilidade concreta de estagflação em 2022. O mercado financeiro projeta inflação de 4,79% para o próximo ano — uma revisão para cima que se repete há 32 semanas seguidas. Para este ano, a inflação projetada até dezembro já alcança 9,77%, também em alta contínua. Simultaneamente, as expectativas de crescimento econômico foram reduzidas. Enquanto 2021 deve encerrar com expansão de 4,88%, bem abaixo dos 4,93% previstos antes, 2022 apresenta perspectiva ainda mais sombria: crescimento de apenas 0,93% ao ano. Alguns bancos, como o Credit Suisse, projetam recessão. Essa combinação — inflação alta com crescimento baixo — é precisamente o que define estagflação, um cenário que o Brasil não experimenta há décadas.
O governo tenta conter a queda de popularidade com transferências de renda ampliadas, mas economistas alertam que o efeito será rapidamente corroído. A inflação retroalimentada pelo descontrole de gastos federais vai consumir o poder de compra desse dinheiro extra. Pior ainda, o crédito ficará mais caro justamente quando as famílias já estão endividadas em níveis recordes. A economia, já sob pressão, terá ainda menos ar para respirar. Dentro da bolsa, empresas que dependem do consumo doméstico foram as mais atingidas. A Magazine Luiza caiu 12,65% nesta sessão, após ter desabado 18% no pregão anterior. Das 92 ações do Ibovespa, apenas 10 escaparam de quedas. O giro financeiro total ficou abaixo de R$ 21 bilhões.
A única luz veio da Petrobras, que subiu 1,5%. O petróleo Brent subiu 0,5%, ultrapassando US$ 82 por barril, impulsionado pela demanda americana robusta — alimentada pelo pacote trilionário de gastos da Casa Branca — enquanto a oferta global segue aquém. Isso beneficia a gigante brasileira, cujas ações estão descontadas no mercado.
Fernanda Consorte, economista-chefe do Ourinvest, observa que o câmbio é o termômetro mais honesto da situação. Embora o real tenha se fortalecido nos últimos dias, o patamar do dólar no Brasil permanece elevado, sinalizando uma conjuntura muito ruim. "Temos uma série de problemas, e o principal é o fiscal e a condução do governo. São problemas que, quando olhamos para frente, parecem de difícil resolução", afirma. O Banco Central e o ministério da Economia insistem que não há estagflação nos radares, mas o mercado financeiro — e a maioria dos economistas-chefes do país — veem a tempestade se aproximando.
A aprovação da PEC dos precatórios no Senado pode piorar ainda mais o quadro. Se confirmada, ela dinamitará o teto de gastos como existe hoje, substituindo-o por um limite mais alto, adequando a Constituição aos gastos do governo em vez do contrário. Alvaro Bandeira, economista-chefe do Modalmais, questiona o tamanho do rombo: será de R$ 30 bilhões, R$ 40 bilhões, R$ 50 bilhões ou R$ 100 bilhões em 2022? A incerteza persiste porque existe uma briga forte entre as alas econômica e política do governo. Tudo isso ocorre em ano eleitoral, quando o Brasil tem tradição de gastar descontroladamente — e não em investimentos produtivos, o que agrava ainda mais a situação diante da polarização política atual.
A curva de juros futuros segue disfuncional, com taxas de curto prazo mais altas que as de longo prazo, refletindo a desconfiança do mercado. Enquanto isso, o Brasil caminha para um 2022 que promete ser tão desafiador quanto 2021 foi volátil.
Citations marquantes
O patamar dos preços da moeda americana no Brasil sugere uma conjuntura muito ruim. Temos uma série de problemas, e o principal é o fiscal e a condução do governo.— Fernanda Consorte, economista-chefe do Ourinvest
O furo do teto vai ser de R$ 30, R$ 40, R$ 50 ou R$ 100 bilhões em 2022? Ainda existe uma briga muito forte entre as alas econômica e política do governo.— Alvaro Bandeira, economista-chefe do Modalmais