ES registra recorde nacional de anomalias em peixes; suspeita recai sobre Mariana

Populações de peixes costeiros apresentam alta frequência de anomalias que comprometem seu equilíbrio e percepção sensorial, afetando a saúde dos ecossistemas marinhos.
Os otólitos funcionam como uma caixa-preta do animal
Estruturas do ouvido interno dos peixes guardam em camadas as condições da água vivida ao longo de suas vidas.
Mark

Por que os otólitos são tão importantes para entender o que aconteceu com esses peixes?

Mimi

Eles funcionam como um arquivo vivo. Crescem em camadas ao longo da vida do peixe, e cada camada guarda informações sobre a qualidade da água naquele período. Se a água está contaminada, os otólitos refletem isso na forma e na composição química.

Luke

Mas o estudo não prova que foi Mariana, certo? Diz que é a hipótese central, mas não há relação direta de causa e efeito.

Mimi

Exato. Os pesquisadores reconhecem que faltam dados essenciais — especialmente amostras de peixes coletadas antes de 2015, para comparação.

Mark

Então como eles chegaram a essa suspeita?

Mimi

Estudos anteriores já haviam identificado contaminação por ferro e acúmulo de metais em peixes da região afetada pelos rejeitos. E o resultado encontrado — 60,5% de anomalias — é muito acima da média nacional.

Luke

Mas sete anos se passaram entre o desastre e a coleta. Outros fatores poderiam ter causado essas deformidades nesse intervalo?

Mimi

Sim, diversos fatores interferem na formação dos otólitos. Por isso o próximo passo é analisar quimicamente os otólitos para identificar quais minerais específicos estão associados às deformidades.

Mark

E isso vai resolver a questão?

Mimi

Vai ajudar. Se encontrarem minerais típicos dos rejeitos de Mariana nos otólitos deformados, a conexão fica muito mais forte.

Luke

Ainda assim, seria correlação, não causalidade comprovada.

Mimi

Verdade. Mas em ecologia, muitas vezes é assim que funciona — você reúne evidências até que o quadro fica claro.

  • Uma taxa de 60,5% de deformidades em peixes — mais que o dobro do recorde nacional anterior — acende um alerta sobre a saúde dos ecossistemas costeiros do Espírito Santo.
  • Os otólitos deformados funcionam como testemunhas mudas: estruturas do ouvido interno que registram em camadas o estresse ambiental vivido por cada peixe ao longo de sua vida.
  • A suspeita recai sobre os rejeitos do desastre de Mariana em 2015, cujos metais podem persistir no ambiente por décadas — mas a ciência ainda não tem provas diretas de causa e efeito.
  • A ausência de amostras anteriores a 2015 é o principal obstáculo: sem um 'antes', é impossível medir com precisão o impacto real da tragédia sobre a fauna local.
  • O próximo passo da pesquisa é químico — identificar quais minerais estão associados às deformidades e verificar se os peixes também apresentam alterações visíveis externamente.

Quase sete anos após o rompimento da barragem de Fundão em Mariana, a natureza ainda guarda registros do desastre em estruturas minúsculas dentro dos peixes. Pesquisadores encontraram, na foz do Rio São Mateus, no litoral norte do Espírito Santo, a maior taxa de anomalias em peixes costeiros já documentada no Brasil — 60,5% dos exemplares analisados, mais do que o dobro do recorde anterior. Os otólitos, arquivos biológicos do que cada peixe viveu, sugerem que os rejeitos de minério lançados no Rio Doce em 2015 continuam moldando, silenciosamente, a vida marinha ao longo da costa.

Em maio de 2022, pesquisadores coletaram exemplares da espécie Stellifer naso na foz do Rio São Mateus, no litoral norte do Espírito Santo. Ao examinar os otólitos — pequenas estruturas do ouvido interno que crescem em camadas e acumulam informações sobre o ambiente vivido pelo peixe —, encontraram algo perturbador: 23 dos 38 exemplares apresentavam deformidades, uma taxa de 60,5%. Era o maior índice de anomalias em peixes costeiros já registrado no Brasil, superando em mais do que o dobro o recorde anterior de 27,11%.

Os otólitos funcionam como uma caixa-preta biológica. Quando a qualidade da água se deteriora, essas estruturas refletem o estresse — mudanças na forma, na composição química, às vezes projeções anormais. O estudo foi publicado em agosto de 2026 na revista Ocean and Coastal Research, após submissão em novembro de 2025 e aprovação em abril de 2026, seguindo o percurso típico da pesquisa científica com revisão por pares.

A hipótese central aponta para o desastre de Mariana. Em novembro de 2015, o rompimento da barragem de Fundão lançou toneladas de rejeitos de minério de ferro no Rio Doce, que chegaram ao Atlântico e contaminaram uma extensa faixa costeira. Estudos anteriores já haviam identificado acúmulo de ferro e bioacumulação de metais na região. Para Jonas Andrade-Santos, do Museu Nacional da UFRJ e um dos autores do trabalho, o resultado muito acima da média nacional possivelmente se relaciona às marcas deixadas pela tragédia — metais que persistem no ambiente por longos períodos.

Os pesquisadores, porém, são cautelosos. O estudo não estabelece relação direta de causa e efeito, e falta um dado essencial: amostras coletadas antes de 2015. Sem essa comparação histórica, a origem exata das deformidades permanece em aberto. O próximo passo será analisar quimicamente os otólitos para identificar quais minerais aparecem associados às anomalias, além de verificar se há alterações externas nos peixes. A pesquisa avança tentando preencher a distância entre a suspeita e a certeza.

Em maio de 2022, pesquisadores coletaram peixes na foz do Rio São Mateus, entre Conceição da Barra e São Mateus, no litoral norte do Espírito Santo. Quando examinaram os otólitos — pequenas estruturas do ouvido interno que funcionam como um registro vivo das condições ambientais — encontraram algo alarmante: 23 dos 38 exemplares da espécie Stellifer naso apresentavam deformidades. Isso representava 60,5% da amostra, o maior índice de anomalias em peixes costeiros jamais documentado no Brasil.

Os otólitos crescem em camadas ao longo da vida do peixe, acumulando informações químicas e estruturais sobre o ambiente em que o animal viveu. Quando a qualidade da água se deteriora, essas estruturas refletem o estresse — mudanças na forma, na composição química, às vezes até projeções anormais que lembram dedos. Cientistas usam os otólitos como uma espécie de caixa-preta biológica, um arquivo do que o peixe experimentou. Por isso, o resultado chamou atenção imediata: o recorde anterior para peixes costeiros brasileiros era de apenas 27,11%, registrado em exemplares do bagre Cathorops spixii. O número encontrado no Espírito Santo superava esse marco em mais do que o dobro.

O estudo foi publicado no início de agosto de 2026 na revista Ocean and Coastal Research, editada pelo Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo e submetida a revisão por pares. Embora a publicação seja recente, o trabalho carrega uma história mais longa: os peixes foram capturados em 2022, os otólitos foram extraídos e fotografados, as análises estatísticas foram realizadas, e tudo passou pela avaliação de outros pesquisadores. O artigo foi submetido em novembro de 2025 e aprovado em abril de 2026, um cronograma típico da pesquisa científica.

A hipótese central dos autores aponta para o desastre de Mariana. Em novembro de 2015, a barragem de Fundão rompeu em Mariana, Minas Gerais, liberando toneladas de rejeitos de minério de ferro no Rio Doce. Esses materiais chegaram ao Oceano Atlântico e contaminaram uma vasta região costeira. Estudos anteriores já haviam identificado acúmulo de ferro e bioacumulação de metais em peixes da área afetada. Segundo Jonas Andrade-Santos, do Museu Nacional da UFRJ e um dos autores do estudo, o resultado ficou muito acima da média nacional, o que possivelmente se relaciona às marcas deixadas pela tragédia. Os metais podem permanecer no ambiente por longos períodos, o que ajuda a explicar por que peixes capturados quase sete anos depois ainda apresentavam alta frequência de anomalias.

Mas os pesquisadores são cautelosos. Embora os indícios apontem para Mariana, o trabalho não estabelece uma relação direta de causa e efeito. Diversos fatores interferem na formação dos otólitos, e falta um dado essencial: amostras de peixes coletadas na região antes de 2015. Sem essa comparação histórica, não é possível medir com precisão o antes e o depois do desastre. A análise estatística mostrou que os otólitos com anomalias tinham variação morfológica maior do que os considerados normais, mas a origem exata das deformidades permanece em aberto.

O município de Serra, no Espírito Santo, está oficialmente reconhecido como parte do território atingido pelo desastre do Rio Doce, incluindo as áreas de Nova Almeida e parte de Jacaraípe. Isso significa que o mesmo evento que motivou este estudo alcança oficialmente parte do litoral serrano.

O próximo passo da pesquisa será químico. A equipe pretende analisar a composição dos otólitos para identificar quais minerais aparecem associados às deformidades. Também planejam verificar se há alterações externas nos peixes, como deformações nas nadadeiras. O trabalho continua, tentando preencher as lacunas entre a suspeita e a certeza.

O resultado ficou muito acima da média nacional, o que possivelmente se relaciona às marcas deixadas pela tragédia
— Jonas Andrade-Santos, Museu Nacional da UFRJ
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