Por 28 anos, Niranaram Chetanram Chaudhary habitou o corredor da morte por um crime que cometeu aos 12 anos — condenado não apenas por um tribunal, mas por um erro burocrático que ninguém se deu ao trabalho de questionar. A Suprema Corte da Índia o libertou em março de 2023, depois que registros escolares esquecidos revelaram o que deveria ter sido evidente desde o início: ele era uma criança. Sua história é um espelho incômodo sobre o que acontece quando sistemas de justiça falham em enxergar o ser humano diante deles.
Erro em data de nascimento condenou adolescente indiano à morte por 28 anos
Perdi os melhores anos da minha vida por causa de um simples erro
Como um erro tão fundamental — registrar a idade errada de uma criança — consegue passar despercebido por 24 anos em um tribunal?
Porque ninguém verificou. Não havia certidão de nascimento. Os registros eram antigos. E uma vez que o erro foi cometido no início, ninguém questionou a premissa básica. O sistema inteiro operou a partir daquela mentira.
Mas alguém deve ter tido acesso aos registros escolares originais durante o julgamento em 1998, certo? Ou eles simplesmente não existiam?
Os registros escolares existiam, mas ninguém os procurou. Shreya Rastogi, do Projeto 39A, disse que os documentos do julgamento original nem chegaram à Suprema Corte. É um fracasso sistêmico — investigadores, promotores, defensores, todos falharam.
E quanto ao próprio Niranaram? Ele se lembra do crime? Ele admite ter feito?
Ele diz que não se lembra. Diz que foi espancado pela polícia após a prisão, que foi forçado a assinar papéis, que era apenas um menino. Mas quando perguntei se ele negava o crime, ele disse que não estava negando nem admitindo — que sua memória não era clara.
Então temos um homem condenado à morte por um crime que ele não consegue se lembrar de ter cometido, condenado como adulto quando era criança, e agora libertado sem qualquer reparação do Estado. Isso é correto?
Sim. E ele passou 28 anos estudando sozinho em uma cela, aprendendo idiomas, lendo Dostoiévski, enquanto isso tudo deveria ter sido resolvido em semanas.
Como ele está agora? Psicologicamente, quero dizer.
Traumatizado. Ele diz que se sente um estranho em sua própria casa. Não consegue se comunicar com sua mãe porque esqueceu a língua materna. Tem medo de espaços públicos. Passou tanto tempo isolado que não sabe como falar com as pessoas, especialmente mulheres.
Mas ele quer estudar direito e fazer trabalho social?
Sim. Quer ajudar outros prisioneiros que enfrentam situações semelhantes. É notável, considerando tudo o que perdeu.
E o Estado? Ofereceu alguma compensação?
Não. Nenhuma reparação foi oferecida.
Il Polso
- Um erro policial de registro transformou um menino de 12 anos em adulto nos olhos da lei, selando seu destino com uma condenação à morte em 1998.
- Por 24 anos, nenhum promotor, defensor ou juiz fez a pergunta mais básica — quantos anos ele tinha — enquanto Niranaram envelheceu em uma cela de menos de 11 metros quadrados.
- Somente em 2018, após nove anos de investigação do Projeto 39A da Universidade Nacional de Direito de Delhi, uma anotação em um antigo registro escolar provou que ele nasceu em 1982 e era menor na época do crime.
- A Suprema Corte reconheceu o erro e o libertou em março de 2023, mas não ofereceu reparação — ele saiu da prisão aos 41 anos com uma mala e nenhum amparo institucional.
- Livre, Niranaram enfrenta um país irreconhecível, uma língua materna esquecida, uma mãe com quem só consegue se comunicar por intérprete e o desafio de reaprender a existir entre pessoas.
Por 28 anos, Niranaram Chetanram Chaudhary habitou o corredor da morte por um crime que cometeu aos 12 anos — condenado não apenas por um tribunal, mas por um erro burocrático que ninguém se deu ao trabalho de questionar. A Suprema Corte da Índia o libertou em março de 2023, depois que registros escolares esquecidos revelaram o que deveria ter sido evidente desde o início: ele era uma criança. Sua história é um espelho incômodo sobre o que acontece quando sistemas de justiça falham em enxergar o ser humano diante deles.
Niranaram Chetanram Chaudhary saiu da prisão de Nagpur em março carregando uma mala e 28 anos de vida perdida. Havia sido condenado à morte em 1998 por assassinatos ocorridos em Pune em 1994 — sete pessoas mortas em uma tentativa de assalto. Tinha 12 anos e seis meses na época. Mas a polícia registrou seu nome errado e sua idade errada, e ninguém, em nenhuma instância do sistema judiciário, parou para verificar.
A razão é tão simples quanto devastadora: muitos indianos de áreas rurais não possuem certidões de nascimento, e Niranaram era um deles. Investigadores, promotores, defensores e juízes operaram durante décadas sob a suposição de que ele tinha 20 anos quando o crime ocorreu. Somente em 2018, após anos de trabalho do Projeto 39A — um programa de justiça criminal da Universidade Nacional de Direito de Delhi —, alguém encontrou uma anotação em um antigo registro escolar de seu vilarejo natal em Bikaner. A data de nascimento era 1º de fevereiro de 1982. Sob a lei indiana, menores não podem ser condenados à morte; a pena máxima seria de três anos.
Em março de 2023, a Suprema Corte o libertou. Sem reparação. Sem amparo. Aos 41 anos, Niranaram voltou para Jalabsar, um vilarejo de 3 mil pessoas cercado por dunas no Rajastão, e descobriu que a Índia havia mudado completamente — e que ele também. Dentro da cela, havia terminado o ensino médio, feito mestrado em sociologia, aprendido marata, hindi e punjabi, e lido de Gandhi a Dostoiévski. Mas havia esquecido seu próprio dialeto materno.
Sua mãe dançou na noite anterior ao seu retorno. Quando finalmente se encontraram, os dois choraram — e perceberam que não conseguiam se entender sem um intérprete. Seu pai havia morrido em 2019, enquanto ele ainda estava preso. Hoje, Niranaram vive em um quarto na casa de um irmão, ensina inglês aos sobrinhos e aprende a usar um celular. Quer estudar direito e ajudar outros prisioneiros em situações semelhantes. Mas ainda tem medo de espaços públicos, não sabe como interagir com desconhecidos e oscila entre o alívio da liberdade e a ansiedade do futuro. 'É uma estranha mistura de emoções', disse ele.
Niranaram Chetanram Chaudhary saiu da prisão de Nagpur em março com uma mala e nenhum lugar para ir além de casa. Havia passado 28 anos, seis meses e 23 dias — 10.431 dias no total — em uma cela de três metros por três e meio, caminhando de um lado para o outro, lendo livros, fazendo exames, tentando provar algo que deveria ter sido óbvio desde o início: que era uma criança quando foi condenado à morte.
Em 1994, sete pessoas foram mortas a facadas em Pune — cinco mulheres e duas crianças — em uma tentativa de assalto que saiu do controle. Niranaram, que havia fugido de casa após a terceira série e estava trabalhando em uma alfaiataria, foi preso junto com outros dois homens. A polícia cometeu um erro que ninguém perceberia por 24 anos. Registrou seu nome errado — Narayan em vez de Niranaram — e sua idade errada também. Em 1998, o tribunal o condenou à morte, operando sob a suposição de que ele tinha 20 anos. Ninguém verificou. Ninguém perguntou. Os promotores não perguntaram. Os advogados de defesa não perguntaram. Os juízes não perguntaram.
A razão pela qual ninguém perguntou é simples e devastadora: muitos indianos, especialmente em áreas rurais, não possuem certidões de nascimento. Niranaram era um deles. Seus registros de prisão eram antigos demais. Os documentos do julgamento original nunca chegaram à Suprema Corte. O sistema inteiro falhou — investigadores, promotores, defensores, tribunais — em fazer uma pergunta básica. Somente em 2018, após nove anos de trabalho do Projeto 39A, um programa de justiça criminal da Universidade Nacional de Direito de Delhi, alguém finalmente questionou quantos anos ele tinha no momento do crime. Encontraram uma anotação em um antigo registro escolar do seu vilarejo natal em Bikaner. Niranaram nasceu em 1º de fevereiro de 1982. Tinha 12 anos e seis meses quando os assassinatos ocorreram. Sob a lei indiana, um menor não pode ser condenado à morte. A pena máxima para qualquer crime cometido por uma criança é de três anos.
Em março deste ano, a Suprema Corte da Índia o libertou. Os juízes se perguntaram se uma criança de 12 anos poderia realmente cometer um crime tão horrível, mas reconheceram que não tinham conhecimento de psicologia infantil ou criminologia para deixar que essa questão obscurecesse o julgamento. Os fatos eram claros. Ele era menor. Ele deveria ter sido tratado como menor. Ele não foi. Ninguém lhe ofereceu reparação.
Quando Niranaram voltou para Jalabsar — um vilarejo de 600 casas e 3 mil pessoas em Bikaner, cercado por dunas e vastas áreas agrícolas — ele descobriu que a Índia havia mudado. Havia carros novos nas estradas. As pessoas usavam roupas estilosas. Havia jovens em motos Hayabusa que ele pensava que apenas estrelas de cinema teriam. Era um país diferente. Mas ele era um homem diferente também. Havia passado 28 anos estudando sozinho em uma cela úmida e apertada. Terminou a escola. Fez mestrado em sociologia. Estava se preparando para outro em ciências políticas. Aprendeu marata, hindi e punjabi. Leu Gandhi, Chetan Bhagat, Sidney Sheldon, Dostoiévski. Seu romance favorito era A Confissão, de John Grisham — um thriller jurídico que, em sua opinião, refletia seu próprio destino. Mas havia esquecido sua língua materna, um dialeto do Rajastão.
Na noite anterior ao seu retorno, sua mãe, com 70 e poucos anos, dançou ao som de um DJ em uma caminhonete alugada. Mas quando finalmente ficou cara a cara com Niranaram, as lágrimas rolaram. Nenhum dos dois conseguia entender o que o outro estava dizendo. Seu pai havia morrido em 2019. Agora, todos os dias, mãe e filho passam tempo se olhando e se comunicando através de um intérprete — geralmente um jovem sobrinho que entende hindi. "Às vezes, me sinto um estranho na minha própria casa", disse Niranaram.
Ele vive em um quarto na casa de um dos irmãos, onde ensina inglês aos sobrinhos. Seus irmãos trabalham em 40 hectares de terra agrícola da família, cultivando trigo, mostarda e leguminosas. Mas Niranaram quer estudar direito e fazer trabalho social, ajudando outros prisioneiros que enfrentam destinos semelhantes. Ele está aprendendo a usar um celular. Os sobrinhos abriram contas no Facebook e WhatsApp para ele. Mas ele ainda tem medo de esbarrar com as pessoas em espaços públicos. Passou tanto tempo em isolamento que se tornou socialmente inapto. Não sabe como interagir com mulheres. Tem que pensar duas vezes antes de falar com alguém. "Estou oscilando entre o passado e o futuro", disse ele. "Estou feliz por estar livre. Fico tenso com o que está por vir. É uma estranha mistura de emoções."
Citazioni salienti
Todo o sistema falhou. Os promotores, os advogados de defesa, os tribunais, os investigadores. Simplesmente falhamos em verificar quantos anos ele tinha no momento do incidente.— Shreya Rastogi, Projeto 39A
Às vezes, me sinto um estranho na minha própria casa.— Niranaram Chetanram Chaudhary