Erika Hilton processa Ratinho por transfobia e misoginia após críticas à sua eleição

Ataque discursivo contra mulheres trans e mulheres cis que não se encaixam em definições biológicas restritivas, afetando dignidade e representatividade política.
mulheres são máquinas de reprodução
Caracterização de Erika Hilton sobre como Ratinho vê as mulheres, baseada em seus critérios biológicos restritivos.

Em um momento que deveria celebrar avanços na representatividade política, a eleição de Erika Hilton para a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher tornou-se o epicentro de um debate antigo e doloroso: quem tem o direito de definir o que é ser mulher. As palavras do apresentador Ratinho, transmitidas ao vivo pelo SBT, revelaram como a biologia ainda é usada como instrumento de exclusão — não apenas contra mulheres trans, mas contra todas as mulheres que escapam de uma definição estreita e redutora de feminilidade. Hilton respondeu não apenas com palavras, mas com uma denúncia formal no Ministério Público de São Paulo, transformando um ataque discursivo em um confronto institucional sobre dignidade e poder.

  • Eleita presidente de uma comissão dedicada à defesa das mulheres, Erika Hilton viu sua vitória política ser imediatamente contestada por forças que tentaram bloqueá-la nos bastidores e, depois, atacá-la publicamente.
  • Ratinho interrompeu sua transmissão no SBT para declarar que mulher 'de verdade' precisa ter útero, menstruar e ter filhos — uma fala que, ao tentar invalidar Hilton, atingiu milhões de mulheres cis e trans que não se encaixam nessa definição.
  • A deputada denunciou que o apresentador trata mulheres como máquinas reprodutivas, cujo valor político e humano estaria condicionado à capacidade biológica de gerar vida.
  • Hilton protocolou denúncia formal no Ministério Público de São Paulo pedindo investigação por discurso de ódio e transfobia, levando a disputa do campo simbólico para o campo jurídico.
  • A direita já articula medidas para reverter a eleição, enquanto o caso se consolida como um confronto mais amplo sobre quem tem direito a ocupar espaços de poder e representar outras pessoas.

Na quarta-feira, Erika Hilton foi eleita presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados, superando tentativas da direita e do Centrão de barrar sua candidatura nos bastidores. O que deveria ter sido um momento de reconhecimento político rapidamente se transformou em uma disputa sobre a própria definição de mulher.

O apresentador Ratinho, do SBT, interrompeu sua transmissão para questionar a eleição. Afirmou não achar 'muito justo' que a comissão fosse para uma mulher trans havendo 'tantas mulheres' disponíveis, e declarou que mulher precisa ter útero, menstruar e passar por irritabilidade menstrual para ser considerada mulher de verdade — uma rejeição direta à legitimidade de Hilton no cargo.

Na quinta-feira, Hilton respondeu com uma acusação formal. Apontou que a fala de Ratinho não a atingia apenas a ela, mas também mulheres trans, mulheres que passaram por histerectomia, mulheres que nunca menstruaram e mulheres sem filhos. Para a deputada, o apresentador reduz mulheres a máquinas de reprodução, cujo valor estaria inteiramente atrelado à capacidade biológica de gerar vida.

Hilton protocolou denúncia no Ministério Público de São Paulo pedindo investigação por discurso de ódio e transfobia, transferindo o confronto para a esfera institucional. Com políticos de direita já articulando formas de reverter sua eleição, a deputada transformou a agressão em ação legal — colocando no centro do debate uma pergunta que vai além de sua própria trajetória: quem tem direito de ocupar espaços de poder, e quem decide isso.

Na quarta-feira, Erika Hilton foi eleita presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados — uma vitória que não passou despercebida. A direita e o Centrão tentaram bloquear sua candidatura nos bastidores, mas ela venceu mesmo assim. O que deveria ter sido um momento de reconhecimento político virou, em poucas horas, o centro de uma disputa sobre o que significa ser mulher.

Ratinho, apresentador do programa no SBT, interrompeu sua transmissão para questionar a eleição. Ele disse não achar "muito justo" que a comissão fosse para uma mulher trans quando havia "tantas mulheres" disponíveis. Depois afirmou que mulher precisa ter útero, menstruar e passar por dias de irritabilidade menstrual para ser considerada mulher de verdade. A fala ecoou como uma definição biológica restrita de feminilidade — e como uma rejeição direta à legitimidade de Hilton no cargo.

Hilton respondeu na quinta-feira com uma acusação formal. Ela disse que Ratinho interrompeu seu programa especificamente para negar a condição de mulher a mulheres trans, a mulheres que não menstruam, a mulheres sem útero e a mulheres sem filhos. Para ela, o apresentador vê mulheres como máquinas de reprodução — seres cujo valor está inteiramente ligado à capacidade biológica de gerar vida.

A deputada foi além da crítica pública. No mesmo dia, protocolou uma denúncia formal no Ministério Público de São Paulo pedindo investigação contra Ratinho por discurso de ódio e transfobia. Ela caracterizou sua fala como um ataque que atingia muito além dela mesma: mulheres trans, mulheres cisgênero que passaram por histerectomia por câncer, mulheres que nunca menstruaram, mulheres que nunca tiveram filhos. Todas elas, segundo Hilton, foram alvo da mesma lógica excludente.

O que começou como uma reação a uma eleição se transformou em uma disputa sobre representatividade e dignidade. Políticos de direita já falam em medidas para reverter a eleição de Hilton. A deputada, por sua vez, transformou a agressão discursiva em ação legal — levando para a esfera institucional uma questão que toca no cerne de quem tem direito a ocupar espaços de poder e por quê.

mulher para ser mulher tem que ser mulher... tem que ter útero, menstruar, tem que ficar chata três, quatro dias
— Ratinho, apresentador do SBT
demonstrou a misoginia, o ódio primal que essa figura nojenta tem de toda e qualquer mulher que não siga o roteiro que ele considera certo
— Erika Hilton, deputada federal
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que Ratinho sentiu necessidade de falar sobre isso no programa dele? Não era só uma eleição interna da Câmara?

Model

Era, mas para ele a eleição representava algo maior — uma ruptura com uma ordem que ele considera natural. Quando uma mulher trans assume um cargo de representação das mulheres, questiona toda a estrutura de quem tem direito a falar em nome de quem.

Inventor

E quando Hilton diz que Ratinho vê mulheres como máquinas de reprodução, ela está exagerando ou há algo real nessa caracterização?

Model

Não é exagero. Ele literalmente listou características reprodutivas como requisitos para ser mulher. Útero, menstruação, filhos. Tudo ligado à biologia reprodutiva. Se você não tem isso, você não é mulher de verdade, segundo ele.

Inventor

Mas há mulheres que concordam com essa visão. Como Hilton lida com isso?

Model

Ela amplia o ataque. Diz que não é só contra mulheres trans — é contra todas as mulheres que não cabem nessa caixa. Mulheres que tiveram câncer e perderam o útero. Mulheres inférteis. Mulheres que escolheram não ter filhos. Todas estão sendo negadas.

Inventor

Então a denúncia no MP é sobre proteger quem, exatamente?

Model

Sobre proteger o direito de existir e ser reconhecida sem ter que passar por um teste biológico. E sobre estabelecer que discurso de ódio — mesmo quando vem de um apresentador famoso em horário nobre — tem consequências legais.

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