EPR venceu leilão competitivo oferecendo maior desconto (22,53%) entre três concorrentes, superando Motiva (12,1%) e Arteris (0,01%). Arteris receberá indenização de até R$ 400 milhões pela perda do ativo; EPR assumirá dívida de R$ 1,7 bilhão e aportará R$ 423 milhões em outorga.
EPR vence concessão da Régis Bittencourt com desconto de 22,53% no pedágio
Um corredor que tem demanda conhecida e potencial de crescimento
Por que o governo insistiu em fazer um leilão competitivo se a Arteris já operava a rodovia?
O Tribunal de Contas da União estabeleceu essa regra justamente para evitar o que chamam de risco moral. Se deixassem a Arteris renovar sem concorrência, estaria criando um precedente perigoso — a empresa poderia negociar termos muito favoráveis sem pressão de mercado.
Mas a Arteris perde o ativo que operava há anos. Como isso é justo?
A Arteris recebe uma indenização — R$ 120 milhões que pode chegar a R$ 400 milhões com correções. Não é perda total. E o modelo assume que a concorrência gera um resultado melhor para o público: menores tarifas, mais investimentos.
A EPR ofereceu 22,53% de desconto. Isso significa que os usuários pagarão muito menos?
Exatamente. A tarifa básica máxima era de R$ 0,05912 por quilômetro. Com o desconto, fica significativamente menor. Mas a EPR compensou isso depositando R$ 423 milhões e assumindo uma dívida de R$ 1,7 bilhão.
Parece que a EPR fez um negócio arriscado.
Talvez. Mas a empresa vê a Régis Bittencourt como um corredor estratégico entre Curitiba e São Paulo, com tráfego maduro e potencial de crescimento. Eles acreditam que conseguem operar com lucro mesmo com o desconto.
O que aprenderam com o caos da transição da Fernão Dias?
Que a comunicação entre as empresas é crítica. Houve questionamentos sobre contratos renovados, ajustes de caixa suspeitos, computadores formatados. Desta vez, o governo está mais atento e as empresas prometem um plano de transição baseado nas premissas do edital.
Isso vai se repetir com outras concessões?
Sim. A Via Brasil já está agendada para 12 de novembro. Este é o novo modelo do governo — renegociar concessões antigas através de leilões competitivos. Muda quem controla a infraestrutura, mas teoricamente beneficia o usuário.
The Pulse
- EPR venceu leilão com desconto de 22,53% sobre tarifa de pedágio
- Arteris receberá indenização de até R$ 400 milhões
- EPR assumirá dívida de R$ 1,7 bilhão e aportará R$ 423 milhões em outorga
- Concessão terá 15 anos adicionais e receberá R$ 7,2 bilhões em investimentos
- Próximo leilão (Via Brasil) está marcado para 12 de novembro
EPR venceu leilão competitivo oferecendo maior desconto (22,53%) entre três concorrentes, superando Motiva (12,1%) e Arteris (0,01%). Arteris receberá indenização de até R$ 400 milhões pela perda do ativo; EPR assumirá dívida de R$ 1,7 bilhão e aportará R$ 423 milhões em outorga.
EPR conquistou a concessão da rodovia Régis Bittencourt com desconto de 22,53% sobre tarifa de pedágio, substituindo a Arteris após processo de repactuação. Contrato inclui 15 anos adicionais e R$ 7,2 bilhões em investimentos.
Na manhã de quinta-feira, 23 de julho, a B3 em São Paulo foi palco de uma disputa que redefiniu o controle de uma das principais rodovias do país. A EPR, grupo formado pela Equipav e pela Perfin, venceu o leilão da Régis Bittencourt com uma proposta agressiva: um desconto de 22,53% sobre a tarifa básica de pedágio. Com isso, a empresa desbancou dois concorrentes — a Motiva, que ofereceu 12,1% de desconto, e a Arteris, a controladora anterior, que apresentou apenas 0,01% de deságio.
O processo marca um ponto de inflexão em um modelo de renegociação de concessões que o governo federal vem implementando há meses. A Arteris, que operava a rodovia desde antes, precisou abrir mão do ativo porque o Tribunal de Contas da União estabeleceu uma regra clara: quando uma concessão é repactuada, ela deve ser oferecida ao mercado em leilão competitivo. A medida existe para evitar o que técnicos chamam de risco moral — a possibilidade de um grupo econômico se beneficiar de uma renegociação sem concorrência real. Com a mudança de controle, a Régis Bittencourt ganha 15 anos adicionais de concessão e receberá aproximadamente R$ 7,2 bilhões em investimentos, além de outros R$ 4 bilhões em despesas operacionais ao longo do contrato.
O custo dessa vitória para a EPR é substancial. O desconto oferecido — que ultrapassou o limite de 18% estabelecido no edital — obriga a empresa a depositar R$ 423 milhões em uma conta vinculada, funcionando como uma espécie de colchão para possíveis reequilíbrios futuros. Além disso, a EPR assumirá uma dívida líquida de R$ 1,7 bilhão contraída pela concessionária anterior junto ao mercado. A Arteris, por sua vez, receberá uma indenização pela perda do ativo: R$ 120 milhões inicialmente, mas um termo de autocomposição assinado entre a empresa, o governo e o TCU prevê que esse valor seja corrigido e pode chegar a cerca de R$ 400 milhões.
Para a EPR, a Régis Bittencourt representa uma peça estratégica em seu portfólio. A empresa já opera sete concessões rodoviárias em Minas Gerais e no Paraná. José Carlos Cassaniga, diretor-presidente da EPR, explicou a lógica por trás da agressividade da proposta: a rodovia conecta Curitiba e São Paulo, um corredor logístico maduro com demanda de tráfego conhecida e potencial de crescimento. "A nossa estratégia é sempre olhar para corredores importantes de infraestrutura, de corredores logísticos estratégicos no Brasil", disse.
Este leilão não é isolado. Representa o segundo capítulo de um processo que começou meses antes, quando a Arteris já havia renegociado a Fernão Dias, outra concessão importante de seu portfólio. Naquele caso, a Motiva venceu a disputa e assumiu o ativo. A transição, porém, foi turbulenta. A Motiva questionou a Arteris sobre contratos renovados durante o período de transição, levantou suspeitas sobre ajustes de caixa que teriam inflado o saldo do ativo e protestou contra a formatação de computadores antes da mudança de controle. O ministro dos Transportes, George Santoro, reconheceu que houve "problemas de comunicação" naquele processo, mas afirmou que as lições foram incorporadas. "Colocamos as duas empresas para conversar e resolvemos rapidamente. Não foi nenhum problema sério", disse.
Cassaniga, da EPR, demonstrou confiança de que a transição será mais suave desta vez. "Estamos absolutamente confiantes que vamos desenhar um plano de transição com base nas premissas do próprio edital e isso vai ser muito bem conduzido. Nós estamos preparados para isso", afirmou. O governo, por sua parte, já tem agendada a próxima etapa desse modelo de renegociação: o leilão da Via Brasil, que controla a BR-163 entre Mato Grosso e Pará, está marcado para 12 de novembro. A Conasa, atual controladora, seguirá o mesmo caminho que a Arteris — perderá o ativo para quem oferecer o maior desconto.
Notable Quotes
A nossa estratégia é sempre olhar para corredores importantes de infraestrutura, de corredores logísticos estratégicos no Brasil— José Carlos Cassaniga, diretor-presidente da EPR
Aquele ruído que deu foi um problema de comunicação na verdade, que poderia ter sido evitado— George Santoro, ministro dos Transportes, sobre a transição da Fernão Dias