Epidemia de RJs no varejo: Casas Bahia e Marabraz são só o começo, alerta CEO

Fornecedores que antes vendiam para você não fazem mais isso quando você entra em RJ
O CEO da A&S Partners explica como a recuperação judicial cria um efeito cascata que pode ser fatal para varejistas.
Mark

Por que a recuperação judicial é tão prejudicial se ela permite renegociar dívidas?

Mimi

Porque renegociar dívidas é apenas uma parte da história. Quando você entra em RJ, os fornecedores que antes vendiam a prazo simplesmente param de fazer isso. Você fica sem acesso ao crédito comercial, sem conseguir repor estoques, e aí a loja começa a esvaziar.

Mark

Mas a Casas Bahia é uma empresa gigante. Como ela chega a esse ponto?

Mimi

Porque o varejo mudou completamente. Não é mais sobre comprar barato e vender caro. Hoje o dinheiro vem dos juros, do crediário. Quando 82% das famílias estão endividadas e a inadimplência sobe, você perde nos dois lados: menos vendas e mais calotes.

Mark

E por que agora? Por que não antes?

Mimi

Porque a combinação é perfeita para uma tempestade. Juros altos, crescimento baixo, governo captando muito dinheiro no mercado, consumidor quebrado. Tudo junto pressiona empresas que já estão alavancadas.

Mark

Você acha que vai piorar?

Mimi

Moraes é bem claro: 2027 vai ser muito pior. Não importa quem ganhar a eleição, a economia não muda de trajetória rápido. O risco de mais RJs é muito, muito forte.

Mark

E a Casas Bahia consegue sair dessa?

Mimi

Existe um risco grande de ruptura. Ela precisa de R$ 1 bilhão só para recompor estoques, e os fornecedores estão desconfiados. Se não conseguir fazer isso rápido, pode não ter volta.

  • Casas Bahia: prejuízo de R$ 10,1 bilhões e dívida de R$ 17,3 bilhões em 2026
  • Marabraz protocolou RJ com dívidas de R$ 140 milhões
  • 82% das famílias brasileiras estão endividadas
  • 33 empresas já entraram em RJ até junho de 2026
  • Estoques da Casas Bahia caíram mais de 20% no segundo trimestre

Casas Bahia registrou prejuízo de R$ 10,1 bilhões e dívida de R$ 17,3 bilhões, enquanto Marabraz também protocolou RJ com dívidas de R$ 140 milhões. Combinação de juros altos, baixo crescimento, endividamento público e 82% das famílias brasileiras endividadas pressiona empresas varejistas dependentes de crédito.

Casas Bahia e Marabraz entram em recuperação judicial enquanto especialistas alertam para onda crescente de insolvências no varejo. CEO da A&S Partners prevê níveis historicamente elevados de RJs em 2026-2027.

Na madrugada de segunda-feira, a Casas Bahia protocolou um pedido de recuperação judicial que marca apenas o início de uma crise mais ampla no varejo brasileiro. A varejista acumula um prejuízo de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026 e declara dívidas totalizando R$ 17,3 bilhões. No mesmo fim de semana, a Marabraz também entrou em recuperação judicial, carregando aproximadamente R$ 140 milhões em dívidas. Até junho deste ano, outras 33 empresas já haviam seguido o mesmo caminho.

Para Wagner de Moraes, CEO da A&S Partners e especialista em recuperações judiciais, o que se vê agora é apenas a ponta de um iceberg muito maior. Ele prevê que 2026 e especialmente 2027 serão anos de aceleração dramática no volume de insolvências em diversos setores. A combinação de juros elevados, crescimento econômico fraco, endividamento crescente e dificuldade de acesso ao crédito cria um ambiente onde empresas já fragilizadas enfrentam pressão cada vez maior. O risco, segundo sua avaliação, é que o Brasil registre níveis historicamente sem precedentes de recuperações judiciais.

Mas a recuperação judicial não é uma solução simples. Moraes enfatiza que o processo é extremamente custoso e exige uma liquidez muito forte da empresa. Mais do que isso, ele desencadeia uma deterioração nas relações comerciais que pode ser fatal. Fornecedores que antes concediam prazos para pagamento passam a exigir condições muito mais rígidas assim que uma empresa entra em recuperação judicial. Esse endurecimento cria um efeito em cascata: menos acesso a fornecedores, dificuldade para recompor estoques, piora na qualidade e variedade de produtos disponíveis, e consequentemente queda nas vendas.

A Casas Bahia exemplifica esse risco de forma particularmente aguda. A companhia já enfrenta dificuldades significativas de reposição de mercadorias. Seus estoques caíram mais de 20% no segundo trimestre, e ela busca um financiamento de R$ 1 bilhão na modalidade DIP apenas para reforçar o caixa e tentar recompor os níveis de produtos nas prateleiras. Moraes vê um risco muito grande de ruptura operacional, de a empresa não conseguir executar seu plano de recuperação na velocidade necessária. A dependência da varejista em relação ao crédito e à cadeia de fornecedores torna a situação particularmente frágil.

O ambiente macroeconômico oferece pouco alívio. O elevado endividamento público reduz o espaço para uma queda consistente dos juros, mantendo o custo de capital das empresas em patamares elevados. O resultado é uma combinação particularmente destrutiva para o varejo: crescimento econômico baixo, inflação elevada, carga tributária pesada e consumidores endividados. Moraes cita uma estimativa de que 82% das famílias brasileiras estejam endividadas, cenário que reduz drasticamente o poder de compra e aumenta a pressão sobre empresas que dependem de crédito para movimentar vendas.

A transformação do modelo de negócios do varejo amplifica essa vulnerabilidade. Décadas atrás, as varejistas ganhavam dinheiro basicamente na compra e venda de mercadorias. Hoje, ganham dinheiro com juros, com crédito direto ao consumidor. A Casas Bahia, em particular, mantém um modelo próprio de crediário que historicamente foi central em sua operação. Nesse contexto, a inadimplência elevada se torna especialmente problemática. Com consumidores mais endividados e crédito mais caro, as companhias precisam lidar simultaneamente com menor demanda e maior custo financeiro. Moraes não vê muita chance de reversão dessa tendência no curto prazo.

Quanto ao risco político, o executivo não considera as eleições de 2026 o principal fator de deterioração econômica. Independentemente de quem vencer, a economia brasileira não conseguiria mudar de trajetória de forma rápida. O principal alerta está no período posterior ao pleito. Para Moraes, 2027 pode marcar uma piora ainda maior do ambiente para empresas endividadas, especialmente aquelas dependentes de crédito e com pouca capacidade de geração de caixa. Como ele resume: ganha esquerda, ganha direita, ganha quem ganhar, vai ter um ano ruim aí.

Eu arrisco a dizer que esse ano de 2026, principalmente o ano de 2027, vai alavancar muito o volume de RJs de diversas áreas ou diversas organizações
— Wagner de Moraes, CEO da A&S Partners
Existe um risco muito grande de ruptura e de ela não conseguir fazer a lição de casa do jeito que se deve, dentro dessa velocidade que se deve
— Wagner de Moraes, sobre a Casas Bahia
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