Casas Bahia registrou prejuízo de R$ 10,1 bilhões e dívida de R$ 17,3 bilhões, enquanto Marabraz também protocolou RJ com dívidas de R$ 140 milhões. Combinação de juros altos, baixo crescimento, endividamento público e 82% das famílias brasileiras endividadas pressiona empresas varejistas dependentes de crédito.
Epidemia de RJs no varejo: Casas Bahia e Marabraz são só o começo, alerta CEO
Fornecedores que antes vendiam para você não fazem mais isso quando você entra em RJ
Por que a recuperação judicial é tão prejudicial se ela permite renegociar dívidas?
Porque renegociar dívidas é apenas uma parte da história. Quando você entra em RJ, os fornecedores que antes vendiam a prazo simplesmente param de fazer isso. Você fica sem acesso ao crédito comercial, sem conseguir repor estoques, e aí a loja começa a esvaziar.
Mas a Casas Bahia é uma empresa gigante. Como ela chega a esse ponto?
Porque o varejo mudou completamente. Não é mais sobre comprar barato e vender caro. Hoje o dinheiro vem dos juros, do crediário. Quando 82% das famílias estão endividadas e a inadimplência sobe, você perde nos dois lados: menos vendas e mais calotes.
E por que agora? Por que não antes?
Porque a combinação é perfeita para uma tempestade. Juros altos, crescimento baixo, governo captando muito dinheiro no mercado, consumidor quebrado. Tudo junto pressiona empresas que já estão alavancadas.
Você acha que vai piorar?
Moraes é bem claro: 2027 vai ser muito pior. Não importa quem ganhar a eleição, a economia não muda de trajetória rápido. O risco de mais RJs é muito, muito forte.
E a Casas Bahia consegue sair dessa?
Existe um risco grande de ruptura. Ela precisa de R$ 1 bilhão só para recompor estoques, e os fornecedores estão desconfiados. Se não conseguir fazer isso rápido, pode não ter volta.
The Pulse
- Casas Bahia: prejuízo de R$ 10,1 bilhões e dívida de R$ 17,3 bilhões em 2026
- Marabraz protocolou RJ com dívidas de R$ 140 milhões
- 82% das famílias brasileiras estão endividadas
- 33 empresas já entraram em RJ até junho de 2026
- Estoques da Casas Bahia caíram mais de 20% no segundo trimestre
Casas Bahia registrou prejuízo de R$ 10,1 bilhões e dívida de R$ 17,3 bilhões, enquanto Marabraz também protocolou RJ com dívidas de R$ 140 milhões. Combinação de juros altos, baixo crescimento, endividamento público e 82% das famílias brasileiras endividadas pressiona empresas varejistas dependentes de crédito.
Casas Bahia e Marabraz entram em recuperação judicial enquanto especialistas alertam para onda crescente de insolvências no varejo. CEO da A&S Partners prevê níveis historicamente elevados de RJs em 2026-2027.
Na madrugada de segunda-feira, a Casas Bahia protocolou um pedido de recuperação judicial que marca apenas o início de uma crise mais ampla no varejo brasileiro. A varejista acumula um prejuízo de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026 e declara dívidas totalizando R$ 17,3 bilhões. No mesmo fim de semana, a Marabraz também entrou em recuperação judicial, carregando aproximadamente R$ 140 milhões em dívidas. Até junho deste ano, outras 33 empresas já haviam seguido o mesmo caminho.
Para Wagner de Moraes, CEO da A&S Partners e especialista em recuperações judiciais, o que se vê agora é apenas a ponta de um iceberg muito maior. Ele prevê que 2026 e especialmente 2027 serão anos de aceleração dramática no volume de insolvências em diversos setores. A combinação de juros elevados, crescimento econômico fraco, endividamento crescente e dificuldade de acesso ao crédito cria um ambiente onde empresas já fragilizadas enfrentam pressão cada vez maior. O risco, segundo sua avaliação, é que o Brasil registre níveis historicamente sem precedentes de recuperações judiciais.
Mas a recuperação judicial não é uma solução simples. Moraes enfatiza que o processo é extremamente custoso e exige uma liquidez muito forte da empresa. Mais do que isso, ele desencadeia uma deterioração nas relações comerciais que pode ser fatal. Fornecedores que antes concediam prazos para pagamento passam a exigir condições muito mais rígidas assim que uma empresa entra em recuperação judicial. Esse endurecimento cria um efeito em cascata: menos acesso a fornecedores, dificuldade para recompor estoques, piora na qualidade e variedade de produtos disponíveis, e consequentemente queda nas vendas.
A Casas Bahia exemplifica esse risco de forma particularmente aguda. A companhia já enfrenta dificuldades significativas de reposição de mercadorias. Seus estoques caíram mais de 20% no segundo trimestre, e ela busca um financiamento de R$ 1 bilhão na modalidade DIP apenas para reforçar o caixa e tentar recompor os níveis de produtos nas prateleiras. Moraes vê um risco muito grande de ruptura operacional, de a empresa não conseguir executar seu plano de recuperação na velocidade necessária. A dependência da varejista em relação ao crédito e à cadeia de fornecedores torna a situação particularmente frágil.
O ambiente macroeconômico oferece pouco alívio. O elevado endividamento público reduz o espaço para uma queda consistente dos juros, mantendo o custo de capital das empresas em patamares elevados. O resultado é uma combinação particularmente destrutiva para o varejo: crescimento econômico baixo, inflação elevada, carga tributária pesada e consumidores endividados. Moraes cita uma estimativa de que 82% das famílias brasileiras estejam endividadas, cenário que reduz drasticamente o poder de compra e aumenta a pressão sobre empresas que dependem de crédito para movimentar vendas.
A transformação do modelo de negócios do varejo amplifica essa vulnerabilidade. Décadas atrás, as varejistas ganhavam dinheiro basicamente na compra e venda de mercadorias. Hoje, ganham dinheiro com juros, com crédito direto ao consumidor. A Casas Bahia, em particular, mantém um modelo próprio de crediário que historicamente foi central em sua operação. Nesse contexto, a inadimplência elevada se torna especialmente problemática. Com consumidores mais endividados e crédito mais caro, as companhias precisam lidar simultaneamente com menor demanda e maior custo financeiro. Moraes não vê muita chance de reversão dessa tendência no curto prazo.
Quanto ao risco político, o executivo não considera as eleições de 2026 o principal fator de deterioração econômica. Independentemente de quem vencer, a economia brasileira não conseguiria mudar de trajetória de forma rápida. O principal alerta está no período posterior ao pleito. Para Moraes, 2027 pode marcar uma piora ainda maior do ambiente para empresas endividadas, especialmente aquelas dependentes de crédito e com pouca capacidade de geração de caixa. Como ele resume: ganha esquerda, ganha direita, ganha quem ganhar, vai ter um ano ruim aí.
Notable Quotes
Eu arrisco a dizer que esse ano de 2026, principalmente o ano de 2027, vai alavancar muito o volume de RJs de diversas áreas ou diversas organizações— Wagner de Moraes, CEO da A&S Partners
Existe um risco muito grande de ruptura e de ela não conseguir fazer a lição de casa do jeito que se deve, dentro dessa velocidade que se deve— Wagner de Moraes, sobre a Casas Bahia