Concentram os melhores alunos num único estabelecimento para destacar-se em rankings
Com a divulgação dos microdados do Enem 2025 pelo Ministério da Educação, emerge mais uma vez a tensão entre o que os números revelam e o que escondem: o Colégio Objetivo Integrado lidera o ranking paulista com 763,97 pontos, mas por trás das primeiras posições há indícios de que certas redes privadas concentram seus melhores alunos em unidades estratégicas para inflar resultados. O que se apresenta como mapa da excelência educacional pode ser, em parte, cartografia do privilégio e da seleção velada.
- O MEC liberou os microdados do Enem 2025 e O GLOBO compilou as 50 escolas paulistas com maiores médias, acendendo o debate sobre o que esses números realmente significam.
- Colégio Objetivo Integrado e Colégio Etapa III lideram o ranking, mas as primeiras posições são dominadas por instituições privadas de elite concentradas na região metropolitana de São Paulo.
- Uma discrepância preocupante chama atenção: algumas escolas do topo tinham muito mais alunos no segundo ano do ensino médio em 2024 do que no terceiro ano em 2025, sugerindo seleção deliberada de estudantes para fins de ranking.
- O colunista Antônio Gois aponta que redes com múltiplas unidades concentram seus melhores alunos em um único CNPJ, criando uma ilusão de excelência que não reflete o desempenho real da rede como um todo.
- O debate se aprofunda: rankings medem qualidade de ensino ou apenas a habilidade institucional de selecionar alunos brilhantes e de alta renda, servindo mais ao marketing do que à informação pública?
O Ministério da Educação liberou os microdados do Enem 2025, permitindo mapear com precisão os melhores desempenhos escolares em São Paulo. O GLOBO compilou as 50 escolas com maiores médias no estado — um levantamento que revela tanto os números quanto práticas questionáveis que podem estar por trás deles.
A metodologia considera a média aritmética da redação e das quatro provas objetivas de todos os alunos que realizaram o exame, excluindo ausentes. Escolas com menos de dez participantes ficam fora, pois o MEC não divulga esses dados. No topo, o Colégio Objetivo Integrado, na Bela Vista, alcançou 763,97 pontos; o Colégio Etapa III, na Vila Mariana, ficou com 762,31; e o Colégio Etapa de Valinhos obteve 734,96. As primeiras posições são dominadas por instituições privadas de elite da região metropolitana.
Mas há um padrão perturbador nesses dados. Algumas escolas do topo apresentaram, em 2024, muito mais matrículas no segundo ano do ensino médio do que alunos no terceiro ano em 2025 — discrepância que sugere seleção deliberada: os melhores alunos são concentrados em uma unidade específica para destacá-la nos rankings, enquanto os demais são registrados em outro CNPJ. O colunista Antônio Gois explicita essa dinâmica: redes com múltiplas unidades garantem que um único nome apareça no topo, mesmo que o desempenho agregado de toda a rede seja bem menos extraordinário.
O ranking completo inclui instituições de Campinas, São José dos Campos, Ribeirão Preto e outras cidades, entre colégios tradicionais como Bandeirantes e Dante Alighieri e redes mais recentes como Poliedro e Etapa. Todas cobram mensalidades altas e atendem populações de renda elevada. A questão que persiste é fundamental: esses rankings medem a qualidade do ensino ou apenas a capacidade de selecionar e concentrar alunos brilhantes? A resposta, pelos dados disponíveis, parece ser um pouco dos dois — e isso exige atenção contínua.
O Ministério da Educação liberou esta semana os microdados do Enem 2025, e com eles veio a possibilidade de mapear com precisão quais colégios de São Paulo obtiveram os melhores resultados. O GLOBO compilou o ranking das 50 escolas com as maiores médias no estado, um levantamento que revela não apenas os números, mas também algumas práticas questionáveis que podem estar por trás deles.
A metodologia é clara: cada escola recebe uma nota que representa a média aritmética da redação somada às quatro provas objetivas — Matemática, Linguagens, Ciências Humanas e Ciências da Natureza — considerando todos os alunos que efetivamente realizaram o exame naquele ano. Estudantes que faltaram são excluídos do cálculo. Colégios com menos de dez participantes não aparecem no ranking porque o MEC não divulga esses dados. É um sistema que, em tese, oferece uma visão honesta do desempenho institucional.
No topo da lista está o Colégio Objetivo Integrado, unidade Bela Vista em São Paulo, com média de 763,97 pontos. Logo atrás vem o Colégio Etapa III, também na capital, na Vila Mariana, com 762,31. O terceiro lugar fica com o Colégio Etapa em Valinhos, alcançando 734,96. As primeiras posições são dominadas por instituições privadas de elite, concentradas principalmente na região metropolitana de São Paulo, com destaque para bairros como Vila Mariana, Campo Belo e Vila Nova Conceição.
Mas há um padrão perturbador escondido nesses números. Algumas das escolas privadas que aparecem no topo apresentaram, em 2024, um número de matrículas no segundo ano do ensino médio significativamente maior do que no terceiro ano em 2025. Essa discrepância sugere que esses colégios podem estar praticando uma forma de seleção: mantêm os alunos com melhor desempenho acadêmico em uma unidade específica para que ela apareça no ranking nacional, enquanto registram o restante dos estudantes em outro CNPJ, em outra unidade ou estrutura administrativa. É uma estratégia que infla artificialmente os números de uma escola enquanto mascara o desempenho real da rede como um todo.
O colunista Antônio Gois, em artigo publicado no GLOBO, explicita essa dinâmica: redes que possuem múltiplas unidades frequentemente concentram seus melhores alunos em um único estabelecimento, garantindo que aquele nome apareça no topo dos rankings nacionais, mesmo que o desempenho agregado de todos os seus alunos em todas as suas unidades seja bem menos extraordinário. É uma prática que distorce a realidade educacional e cria uma ilusão de excelência que não reflete necessariamente a qualidade do ensino oferecido pela instituição como um todo.
O ranking completo inclui 50 escolas espalhadas por todo o estado de São Paulo. Além das líderes na capital, aparecem instituições de cidades como Campinas, São José dos Campos, Ribeirão Preto, Santo André, Guarulhos e Jundiaí. Algumas são colégios tradicionais com décadas de história, como o Bandeirantes e o Dante Alighieri. Outras são redes mais recentes que cresceram rapidamente, como a Poliedro e a Etapa. Todas elas, porém, compartilham uma característica: são escolas privadas que cobram mensalidades altas e atendem a uma população de renda elevada.
Esse cenário levanta questões fundamentais sobre o que os rankings de desempenho realmente medem. Eles refletem a qualidade do ensino ou apenas a capacidade de uma instituição de selecionar e concentrar seus alunos mais brilhantes? Eles informam pais e estudantes sobre onde encontrar educação de qualidade, ou servem principalmente como ferramenta de marketing para escolas que já gozam de prestígio e recursos? A resposta, pelos dados que agora temos em mãos, parece ser um pouco de ambos — e isso é um problema que merece atenção contínua.
Citas Notables
Redes que possuem mais de uma unidade por vezes concentram os melhores alunos num único estabelecimento, garantindo que o nome apareça no topo de rankings, mesmo que o desempenho agregado não seja tão extraordinário— Antônio Gois, colunista do GLOBO
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que essas escolas conseguem notas tão altas? É porque ensinam melhor?
Não é tão simples. Sim, muitas delas têm bons professores e recursos. Mas o ranking também reflete quem consegue entrar nessas escolas — alunos que já vêm de famílias com capital cultural e econômico alto.
Mas a metodologia do MEC parece objetiva. Média de todas as provas, todos os alunos.
Parece, mas há um truque. Algumas redes mantêm seus melhores alunos em uma unidade e registram os outros em CNPJs diferentes. Então a nota que aparece no ranking não é realmente representativa de toda a rede.
Isso é permitido?
Tecnicamente, sim. O MEC calcula por escola, não por rede. Então se você tem duas unidades com CNPJs diferentes, cada uma tem sua própria nota. Nada ilegal, mas eticamente questionável.
Então o ranking está mentindo?
Não está mentindo exatamente. Os números são reais. Mas estão contando uma história incompleta. É como dizer que um restaurante é excelente porque seus pratos mais caros são ótimos, enquanto ignora que a maioria dos clientes come algo mais simples.
O que isso significa para um pai procurando escola?
Significa que você não pode confiar cegamente no ranking. Precisa perguntar: quantos alunos essa escola tem no total? Todos fazem o Enem? Ou apenas alguns? A resposta vai te dar uma visão muito mais clara do que realmente está acontecendo.