Endometriose na adolescência: por que a dor menstrual não deve ser normalizada

Adolescentes com endometriose não diagnosticada sofrem anos de dor incapacitante que as impede de frequentar escola, praticar atividades e realizar tarefas cotidianas.
A mulher adulta com endometriose foi uma adolescente com dor que não foi ouvida
Reflexão do especialista sobre como a normalização da dor menstrual atrasa o diagnóstico em anos.
Mark

Por que o diagnóstico demora tanto quando a endometriose começa na adolescência?

Mimi

Porque a dor menstrual é tão comum nessa idade que acaba sendo normalizada. Entre 50% e 90% das adolescentes têm cólica intensa, então quando uma menina reclama, os adultos ao redor tendem a achar que é só parte do crescimento.

Luke

Mas isso significa que a maioria das adolescentes com cólica forte tem endometriose? Ou a maioria das que têm endometriose simplesmente não é diagnosticada?

Mimi

A segunda. A prevalência de cólica é alta, mas nem toda cólica é endometriose. O problema é que quando uma dor é realmente incapacitante — quando a menina falta à escola, abandona esportes — ninguém investiga porque acham que é normal.

Mark

E qual é a diferença entre uma cólica normal e uma que deveria ser investigada?

Mimi

A intensidade e o impacto. Se a dor impede a adolescente de fazer atividades básicas, se ela não consegue ir à escola ou se sente dor pélvica mesmo fora da menstruação, aí merece atenção.

Luke

Os dados mostram 1.192 internações entre 2014 e 2024, mas quantas adolescentes com endometriose não foram internadas? Quantas nunca foram diagnosticadas?

Mimi

Não sabemos. Os dados de internação são apenas a ponta do iceberg. Muitas meninas sofrem em casa, sem diagnóstico, sem tratamento.

Mark

Se o diagnóstico precoce é tão importante, por que não há um protocolo de rastreamento nas escolas ou nas consultas de rotina?

Mimi

Porque ainda há muita desinformação. Médicos de família e pediatras também normalizam a dor. Precisaria de uma mudança cultural e educacional, começando por ensinar meninas a reconhecer quando sua dor não é normal.

Luke

E quando é diagnosticada na adolescência, qual é o tratamento? Cirurgia?

Mimi

Depende do caso. Pode ser acompanhamento com terapias hormonais, suporte psicológico, e em alguns casos procedimentos cirúrgicos minimamente invasivos. O objetivo é controlar os sintomas e preservar a fertilidade futura.

Mark

Então uma adolescente diagnosticada hoje pode ter uma vida normal?

Mimi

Pode ter uma vida muito melhor do que teria sem diagnóstico. Mas a endometriose é crônica, então o acompanhamento continua ao longo da vida reprodutiva. O ganho real é evitar anos de sofrimento silencioso e proteger sua saúde no futuro.

  • 1.192 internações por endometriose em adolescentes de 10 a 19 anos entre 2014 e 2024 no Brasil
  • Diagnóstico demora 12,1 anos quando sintomas começam antes dos 19 anos, versus 3,3 anos após os 30
  • Entre 50% e 90% das adolescentes têm dismenorreia (cólica menstrual intensa)
  • 1.046 das internações ocorreram entre jovens de 15 a 19 anos; 39 em crianças até 9 anos

Entre 2014 e 2024, houve 1.192 internações por endometriose em adolescentes de 10 a 19 anos no Brasil, com maioria entre 15 e 19 anos. Pacientes com sintomas antes dos 19 anos esperam 12,1 anos para diagnóstico, versus 3,3 anos para quem apresenta sinais após os 30.

Endometriose pode apresentar sinais na adolescência, mas o diagnóstico leva em média 12 anos quando os sintomas começam antes dos 19 anos. A normalização da dor menstrual atrasa a identificação da doença.

Uma adolescente sente cólica durante a menstruação e falta à escola. Os pais a consolam dizendo que é coisa da idade. Meses depois, ela abandona o time de vôlei porque a dor a impede de treinar. Ninguém a leva ao médico. Essa cena se repete em milhares de casas brasileiras, e frequentemente esconde uma doença que deveria ter sido investigada anos antes: a endometriose.

A condição é comumente associada à vida adulta, mas pode começar a dar sinais ainda na adolescência. Entre 2014 e 2024, o Brasil registrou 1.192 internações por endometriose em adolescentes de 10 a 19 anos, conforme dados do Sistema de Informações Hospitalares do SUS publicados no Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences. A maioria desses casos — 1.046 internações — ocorreu entre jovens de 15 a 19 anos. Houve ainda 39 registros em crianças de até 9 anos no mesmo período. O problema não está apenas na prevalência da doença, mas no tempo que leva para ser descoberta.

Quando os primeiros sintomas aparecem antes dos 19 anos, o diagnóstico demora, em média, 12,1 anos, segundo informações da Sociedade de Ginecologia e Obstetrícia de São Paulo. Compare isso com pacientes que começam a apresentar sinais após os 30 anos: para elas, o intervalo é de aproximadamente 3,3 anos. Essa diferença abismal tem raízes na forma como a sociedade entende a dor menstrual na adolescência. A dismenorreia — o nome técnico para cólica menstrual intensa — afeta entre 50% e 90% das adolescentes. Tão comum é o sintoma que acaba sendo naturalizado: pelos pais, pelos professores, até por profissionais de saúde. Uma dor que deveria acender um sinal de alerta vira, simplesmente, parte do crescimento.

O ginecologista e cirurgião robótico Thiers Soares, especialista em endometriose, adenomiose e miomas, resume a trajetória de suas pacientes com uma frase que pesa: "A mulher adulta com endometriose foi, quase sempre, uma adolescente com dor que não foi ouvida." Quando a cólica intensa é tratada como um rito de passagem da puberdade, anos preciosos se perdem. Uma menina que poderia ter começado o diagnóstico ainda na escola, relatando a dor aos pais ou ao médico de família, segue sofrendo em silêncio. Nem toda cólica é endometriose, mas nem toda cólica é normal. O ponto de atenção está na intensidade e no impacto que a dor provoca na vida cotidiana. Se uma adolescente precisa faltar à escola todos os meses, se abandona atividades que gosta ou se não consegue fazer tarefas básicas, aquela dor merece investigação.

Os sinais que merecem atenção especial incluem cólicas tão fortes que impedem a ida à escola, dor na região pélvica mesmo fora do período menstrual, desconforto ao evacuar ou urinar durante a menstruação e sangramento muito intenso. A questão não é alarmar as famílias a cada desconforto, mas ensinar as meninas, desde cedo, a diferenciar o incômodo esperado da dor que exige investigação. Essa educação, segundo Thiers, evita anos de sofrimento silencioso e, em muitos casos, preserva a saúde reprodutiva no futuro.

A endometriose é uma doença crônica sem cura definitiva, o que significa acompanhamento ao longo de toda a vida reprodutiva. Mas o diagnóstico precoce muda a trajetória. Quanto antes identificada e tratada, maior a chance de controlar os sintomas, evitar cirurgias mais complexas no futuro e proteger a fertilidade. O tratamento em adolescentes pode combinar acompanhamento ginecológico com terapias hormonais para regular o ciclo e controlar a progressão da doença, além de suporte psicológico para lidar com os impactos emocionais, escolares e sociais de conviver com uma condição crônica. Em casos indicados, procedimentos cirúrgicos minimamente invasivos podem remover focos de endometriose, sempre considerando a preservação da capacidade reprodutiva futura.

O reconhecimento dos primeiros sinais pode começar em casa, na escola ou durante consultas de rotina com pediatras e médicos de família. Se todos os meses uma adolescente precisa faltar às aulas, deixa de praticar esportes ou não consegue realizar atividades básicas, o impacto merece ser levado a sério. Falar sobre saúde menstrual desde cedo ajuda meninas a conhecerem melhor o próprio corpo e a diferenciar o desconforto administrável da dor que paralisa. Se a menstruação repetidamente impede uma adolescente de estudar, sair de casa ou fazer atividades cotidianas, suportar em silêncio não deve ser a única alternativa. Investigar o que está acontecendo pode evitar que uma jovem atravesse boa parte da vida sem saber a verdadeira origem de sua dor.

Quando a cólica intensa é tratada como um rito de passagem da puberdade, perdemos anos preciosos de um diagnóstico que poderia ter começado ainda na escola
— Dr. Thiers Soares, ginecologista e cirurgião robótico
Não é sobre alarmar as famílias a cada cólica, mas sobre ensinar as meninas, desde cedo, a diferenciar o desconforto esperado da dor que exige investigação
— Dr. Thiers Soares
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