Carga tinha 1,05m acima do limite de altura e 45cm acima do limite de largura autorizado para o transporte. Motorista realizava ultrapassagem quando atingiu coluna central da passarela; empresa será intimada a apresentar documentos.
Empresa de transporte será investigada após passarela cair e matar mãe e filho na Fernão Dias
Ele tinha uma feira aqui em São Paulo e passou na casa da mãe dele
Por que a empresa está sendo investigada se o motorista já foi preso?
Porque a responsabilidade não termina com o motorista. A empresa contratou o transporte, obteve a autorização, e aparentemente permitiu que um caminhão com dimensões maiores do que o autorizado fosse transportado. Alguém tinha que saber que as medidas não batiam.
A autorização existia, então. Como é que um caminhão maior passou por ela?
Essa é exatamente a pergunta que a polícia está fazendo. A autorização permitia 4,40 metros de altura. O caminhão tinha 5,45 metros. Alguém assinou aquela autorização sabendo ou não sabendo dessa diferença. Se sabia, é negligência. Se não sabia, é incompetência.
E o motorista? Ele disse que não previu que a carga pudesse atingir a passarela.
Ele estava fazendo uma ultrapassagem com um caminhão que tinha mais de um metro acima do limite autorizado. Não é questão de prever — é questão de saber o que você está transportando. Se você sabe que sua carga é maior do que deveria ser, você não faz ultrapassagem em um trecho com estruturas baixas.
Então foi negligência em cadeia?
Parece ser. A empresa que contratou o transporte, a pessoa que obteve a autorização, o motorista que realizou a manobra. Cada um teve uma oportunidade de parar aquilo antes de Rosângela e Douglas estarem naquele carro.
Eles eram de Belo Horizonte. Estavam apenas passando?
Douglas tinha um compromisso profissional em São Paulo. Passou na casa da mãe e a convidou para viajar com ele. Foi um convite casual. Ela aceitou. Ninguém estava esperando uma passarela desabar sobre eles.
O que acontece agora com a empresa?
Ela vai ter que explicar tudo — como contratou o transporte, como obteve a autorização, como permitiu que um caminhão maior fosse transportado. Se a polícia encontrar evidências de que a empresa sabia das dimensões reais, as acusações podem ser muito mais sérias do que apenas negligência.
O Pulso
- Caminhão tinha 5,45m de altura e 3,75m de largura; autorização permitia 4,40m e 3,30m
- Motorista Deyvidson Temudo de Oliveira, 42 anos, preso por homicídio culposo
- Rosângela Soares Chaves, 63 anos, e Douglas Soares Quaresma, 40 anos, morreram no acidente
- Colisão ocorreu durante ultrapassagem na terça-feira, 18 de agosto, às 10h06
- Rodovia Fernão Dias ficou interditada por mais de dez horas; congestionamento de 23 km
Carga tinha 1,05m acima do limite de altura e 45cm acima do limite de largura autorizado para o transporte. Motorista realizava ultrapassagem quando atingiu coluna central da passarela; empresa será intimada a apresentar documentos.
Polícia Civil investiga empresa responsável por carreta que transportava caminhão com dimensões acima do autorizado, causando queda de passarela que matou mãe e filho na Fernão Dias.
Na terça-feira de manhã, às 10h06, uma carreta transportando um caminhão atingiu a coluna central de uma passarela na Rodovia Fernão Dias, em Vargem, São Paulo. A estrutura desabou sobre a pista no sentido oposto, seus blocos de concreto caindo diretamente sobre um carro que passava pelo local. Dentro daquele veículo estavam Rosângela Soares Chaves, de 63 anos, e seu filho Douglas Soares Quaresma, de 40 anos. Os dois morreram no acidente.
Rosângela era de Belo Horizonte. Douglas trabalhava como representante comercial de óculos e havia viajado para São Paulo a negócios. Antes de seguir para a capital, passou na casa da mãe e a convidou para acompanhá-lo. Ela aceitou. Segundo o irmão de Rosângela, Renato Carlos Soares, foi um convite simples, uma oportunidade de passear. "Ele tinha uma feira aqui em São Paulo e passou na casa da mãe dele, que é minha irmã, a Rosângela, e perguntou para ela se ela queria vir passear com ele aqui. E foi essa tragédia aí."
A investigação da Polícia Civil revelou rapidamente que o acidente não foi simplesmente uma fatalidade. O caminhão transportado pela carreta tinha dimensões que extrapolavam significativamente o que havia sido autorizado. A autorização permitia uma carga com até 4,40 metros de altura e 3,30 metros de largura. O veículo real media 5,45 metros de altura e 3,75 metros de largura — ou seja, 1,05 metro acima do limite de altura e 45 centímetros acima do limite de largura. Segundo o delegado Hermes Jun Nakashima, embora houvesse uma autorização para o transporte de carga superdimensionada, as medidas reais do caminhão simplesmente não se encaixavam naquilo que o documento permitia.
O motorista, Deyvidson Temudo de Oliveira, de 42 anos, foi preso em flagrante por homicídio culposo e lesão corporal. Sua prisão foi convertida em preventiva na quarta-feira seguinte. Em depoimento, ele afirmou aos policiais que não teve intenção de causar o acidente e que não previu que a carga pudesse atingir a estrutura da passarela. Mas os fatos apontam para outra direção. Segundo a polícia, ele estava realizando uma ultrapassagem quando o caminhão, com seu excesso de altura e largura, colidiu com a coluna central da estrutura. O impacto ocorreu na parte lateral do veículo — uma característica que a polícia considera ter sido um dos fatores que contribuíram para o colapso.
Agora a empresa responsável pela carreta será investigada. Representantes legais serão intimados a comparecer à delegacia e apresentar documentos sobre a contratação do serviço, a origem e o destino da carga, e as condições em que o transporte foi realizado. A investigação vai apurar se a empresa cumpriu todas as exigências legais para transportar uma carga superdimensionada e quem era responsável pelas dimensões do veículo. O delegado Nakashima explicou a gravidade: "Em razão de ser uma carga superdimensionada, em largura e altura, é necessário essa autorização. Lá no momento da lavratura do flagrante já foi observado que ele tinha essa autorização, só que a carga total, em altura e largura, ela extrapolava."
A polícia também vai verificar o trajeto autorizado e as características da estrutura atingida para entender se o transporte era compatível com aquele percurso. A perícia e os depoimentos devem ajudar a reconstruir o momento exato da colisão e apontar se o excesso de dimensões teve relação direta com a queda da passarela de 70 toneladas. A investigação não se limita ao motorista — a partir dos documentos, depoimentos e laudos, a Polícia Civil poderá verificar se houve falhas na operação e se outras pessoas podem ser responsabilizadas.
Outros veículos também foram atingidos. Um segundo carro que seguia logo atrás teve seu capô levantado pelo impacto, mas o motorista saiu ileso. Um caminhão que transportava hortifrúti foi atingido, e seu motorista ficou ferido, sendo levado para um hospital em Bragança Paulista, de onde recebeu alta. A Rodovia Fernão Dias ficou completamente interditada por pouco mais de dez horas, com congestionamento chegando a 23 quilômetros. O trânsito foi liberado por volta das 22h30. Os corpos de Rosângela e Douglas seguiram para Osasco e depois para Minas Gerais, onde seriam enterrados.
Citações Notáveis
Em razão de ser uma carga superdimensionada, em largura e altura, é necessário essa autorização. Lá no momento da lavratura do flagrante já foi observado que ele tinha essa autorização, só que a carga total, em altura e largura, ela extrapolava.— Delegado Hermes Jun Nakashima
Ele tinha uma feira aqui em São Paulo e passou na casa da mãe dele, que é minha irmã, a Rosângela, e perguntou para ela se ela queria vir passear com ele aqui. E foi essa tragédia aí.— Renato Carlos Soares, irmão de Rosângela