Empresa com 3 funcionários propôs venda de US$ 6 bi em vacinas ao governo Bolsonaro

Não somos distribuidores da AstraZeneca, e nunca dissemos que éramos
A Davati nega autorização para vender vacinas após denúncia de propina ao ministério da Saúde.
Mark

Como uma empresa com apenas três funcionários conseguiu chegar até o ministério da Saúde com uma proposta de US$ 6 bilhões?

Mimi

Porque naquele momento, em 2021, o Brasil estava desesperado por vacinas. O governo recebia propostas de todos os lados. Uma empresa pequena, com um endereço no Texas e um CEO que se vendia bem no LinkedIn, conseguiu passar por uma porta que deveria estar fechada.

Mark

Mas e-mails mostram que o ministério respondeu positivamente. Isso não é suspeito?

Mimi

Muito. O ministério pediu documentação que comprovasse que a Davati era representante autorizada da AstraZeneca. Nunca foi. A AstraZeneca deixou isso claro: não trabalha com intermediários no Brasil. Então alguém no ministério estava fingindo acreditar em algo que não era verdade.

Mark

O que torna essa história ainda mais estranha?

Mimi

A Davati tentou a mesma coisa no Canadá, com reservas indígenas. Ofereceu 6 milhões de doses por US$ 21 milhões. A AstraZeneca disse que estava investigando vendas ilegais. É um padrão: a empresa aparecia em lugares diferentes, oferecia vacinas que não tinha autorização para vender, e desaparecia quando questionada.

Mark

Qual era o interesse real da Davati?

Mimi

Isso é o que fica em aberto. Se a empresa nunca havia vendido uma dose de vacina a nenhum país, como pretendia entregar 400 milhões? A denúncia de propina sugere que alguém dentro do ministério estava facilitando algo que não deveria acontecer. Mas a Davati também pode ter sido apenas um intermediário oportunista, tentando conectar fornecedores reais com governos desesperados.

Mark

E o remdesivir que vendiam?

Mimi

Fabricado por uma empresa indiana que não era autorizada. E a versão genérica só poderia ser vendida aos 127 países mais pobres do mundo, segundo regras da OMC. A Davati estava operando fora de qualquer marco legal.

  • Uma microempresa sem histórico em vacinas ofereceu bilhões em doses ao governo federal, expondo a vulnerabilidade do processo de compras durante a pandemia.
  • Um representante da Davati denunciou que um diretor do Ministério da Saúde teria exigido propina de US$ 1 por dose para fechar o contrato — acusação que sacudiu o governo e alimentou a CPI da Covid.
  • E-mails obtidos pela Folha contradizem a versão oficial: o próprio Ministério da Saúde respondeu positivamente à proposta, pedindo reunião e elogiando os termos comerciais.
  • A AstraZeneca desautorizou completamente a Davati, afirmando não trabalhar com intermediários no Brasil e investigar possíveis vendas ilegais de sua vacina.
  • O padrão se repete além-fronteiras: a mesma empresa tentou vender doses a reservas indígenas no Canadá, onde autoridades já sinalizavam que as ofertas 'não pareciam legítimas'.

Uma empresa texana com três funcionários e faturamento anual de pouco mais de US$ 266 mil propôs ao governo Bolsonaro a compra de 400 milhões de doses de vacina por US$ 6 bilhões — uma oferta que nunca poderia ter sido cumprida, pois a Davati Medical Supply jamais havia vendido um único imunizante a qualquer país. O episódio ilumina algo mais amplo do que uma fraude isolada: revela como a urgência de uma pandemia pode abrir brechas para que a fantasia se apresente como solução, e como o poder público, quando despreparado ou mal-intencionado, pode recebê-la de braços abertos.

Em junho de 2020, a Davati Medical Supply abriu as portas em Austin, no Texas, com três funcionários e faturamento estimado em US$ 266 mil anuais. Funcionava no mesmo endereço de uma incorporadora imobiliária e de uma representante de materiais de construção. Seu CEO, Herman Cardenas, se apresentava no LinkedIn como um "visionário e empreendedor em série". Meses depois, essa empresa propôs ao governo federal brasileiro a compra de 400 milhões de doses da AstraZeneca por até US$ 6 bilhões — sem jamais ter vendido uma única dose de vacina a qualquer país.

O site da Davati, que chegou a ser retirado do ar, listava não apenas vacinas, mas também anestésicos e o antiviral remdesivir, fabricado por uma farmacêutica indiana não autorizada pela Gilead, detentora da patente. A proposta ao Brasil ganhou contornos ainda mais graves quando Luiz Paulo Dominguetti Pereira, apresentado como representante da empresa, denunciou à Folha que Roberto Ferreira Dias, diretor de Logística do Ministério da Saúde, teria pedido propina de US$ 1 por dose para viabilizar o contrato.

Cardenas negou qualquer negociação, mas e-mails obtidos pela reportagem contaram outra história: em fevereiro, o departamento de logística respondeu à proposta manifestando "total interesse" nas vacinas e pedindo uma reunião. Em outra mensagem, o próprio Dias solicitou uma carta comprovando que a Davati era representante autorizada da AstraZeneca, classificando a oferta como boa "diante de outras recebidas até agora".

A AstraZeneca foi categórica: não vende vacinas pelo mercado privado, não trabalha com intermediários no Brasil e investiga possíveis vendas ilegais. Após a repercussão, a Davati emitiu nota afirmando ser apenas um distribuidor de medicamentos não relacionados à Covid e admitindo que nunca foi distribuidora autorizada da AstraZeneca. O histórico da empresa se revelou ainda mais extenso: em março de 2021, tentou vender 6 milhões de doses a reservas indígenas no Canadá por US$ 21 milhões. O ministro canadense Marc Miller alertou que havia "indicações de que essas ofertas não são legítimas". Questionado, Cardenas admitiu que a Davati não era distribuidora da AstraZeneca, mas tinha "acesso a pessoas que são" — e estava "testando esse canal".

Em junho de 2020, uma empresa chamada Davati Medical Supply abriu as portas em Austin, no Texas, com três funcionários e um faturamento anual estimado em US$ 266 mil. Meses depois, essa mesma empresa propôs ao governo federal brasileiro a venda de 400 milhões de doses da vacina AstraZeneca — um negócio que poderia alcançar US$ 6 bilhões. O problema é que a Davati nunca havia vendido uma única dose de vacina a nenhum país.

A empresa funcionava no mesmo endereço onde estavam registradas outras duas companhias: uma incorporadora imobiliária chamada Impact Developers e uma representante de produtos de construção, a Davati Building Products. Seu CEO, Herman Cardenas, descrevia-se no LinkedIn como um "visionário, pioneiro e empreendedor em série" que havia fundado e administrado múltiplas empresas ao longo de sua carreira. No site da Davati, que chegou a ser tirado do ar, a empresa afirmava vender não apenas vacinas, mas também anestésicos como propofol e o antiviral remdesivir, usado em pacientes hospitalizados com Covid. O remdesivir que a Davati comercializava era fabricado por uma farmacêutica indiana chamada Anzalp, que não constava entre os laboratórios autorizados pela Gilead, detentora da patente, para produzi-lo.

Luiz Paulo Dominguetti Pereira, apresentando-se como representante da Davati, denunciou à Folha que Roberto Ferreira Dias, diretor de Logística do Ministério da Saúde, havia solicitado uma propina de US$ 1 por dose em troca de fechar um contrato com a pasta. Cardenas negou inicialmente que houvesse negociação com o ministério, afirmando que a empresa havia apenas oferecido um orçamento que não foi aceito. Porém, e-mails obtidos pela Folha contavam uma história diferente. Em 26 de fevereiro, o departamento de logística respondeu positivamente à proposta, manifestando "total interesse na aquisição das vacinas" e solicitando agendar uma reunião. Em outro e-mail, Dias pediu a Cardenas uma carta comprovando que a Davati era representante autorizada da AstraZeneca, afirmando que "essa proposta comercial parece boa diante de outras recebidas até agora".

A AstraZeneca, porém, foi categórica. Em nota à Folha, a empresa afirmou que não disponibiliza sua vacina por meio do mercado privado e não trabalha com intermediários no Brasil — todos os convênios são realizados diretamente com a Fiocruz e o governo federal. Após a denúncia vir à tona, a Davati divulgou uma nota oficial afirmando ser apenas um distribuidor internacional de remédios e vacinas não relacionadas à Covid. "Não somos distribuidores autorizados da AstraZeneca, e nunca dissemos que éramos", declarou a empresa, acrescentando que recebera pedidos de clientes para tentar encontrar fornecedores de vacinas contra Covid-19.

O histórico da Davati revelou-se ainda mais problemático. Em março de 2021, a empresa havia tentado vender 6 milhões de doses da vacina AstraZeneca a reservas indígenas no Canadá por US$ 21 milhões. A AstraZeneca afirmou estar investigando vendas ilegais de sua vacina e negou qualquer "venda ou distribuição" para o setor privado. O ministro canadense dos Serviços Indígenas, Marc Miller, declarou à mídia que havia "indicações de que essas ofertas não são legítimas". Quando questionado pela CBC, Cardenas disse que a Davati não era distribuidora da AstraZeneca, mas tinha "acesso a pessoas que são" e estava "testando esse canal para garantir que conseguem entregar". A empresa também havia negociado a venda de milhões de vacinas para várias prefeituras no Brasil, ampliando o escopo de suas operações questionáveis.

Não somos distribuidores autorizados da AstraZeneca, e nunca dissemos que éramos
— Davati Medical Supply, em nota oficial
Temos indicações de que essas ofertas não são legítimas. Isso gera um alerta
— Marc Miller, ministro canadense dos Serviços Indígenas
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