Emendas orçamentárias rendem votos locais, mas não garantem reeleição

Emendas podem fortalecer bases, mas não blindam mandatos
Análise de dados de 409 deputados mostra que volume de recursos não garante reeleição.
Mark

Se as emendas geram ganho de 0,7 ponto percentual, isso não é nada?

Mimi

Não é nada em escala estadual, que é onde a eleição se decide. Mas em cidades pequenas, onde há menos votos em jogo, 70 votos podem fazer diferença local. O problema é que deputado federal não é eleito por cidade, é eleito por estado.

Luke

Mas espera — vocês estão dizendo que o ganho é de 0,7 ponto, mas que em 2022 já havia diferença de 5,9 contra 1%? Então a emenda não criou essa diferença, só a manteve?

Mimi

Exatamente. Os deputados já eram fortes nos municípios onde depois mandaram emendas. Quando você desconta a votação anterior, o ganho real cai para 0,7.

Mark

E por que os deputados mandam emendas para cidades onde já são fortes? Não seria mais estratégico fortalecer bases fracas?

Mimi

Pode ser que seja mais fácil trabalhar com aliados já estabelecidos. Ou que o retorno político seja mais garantido. A análise não consegue explicar a motivação.

Luke

Vocês mencionam que as emendas Pix têm efeito um pouco maior. Mas é realmente maior, ou está dentro da margem de erro?

Mimi

Está no limite da significância estatística. Comparar um deputado com pouco Pix com outro com muito eleva a chance de reeleição de 69% para 76%. É real, mas fraco.

Mark

E a taxa de reeleição geral? Não subiu com todas essas emendas?

Mimi

Ficou em 72%, praticamente igual à de 2002. Abaixo de 2010 e 2014. Então não, não subiu.

Luke

Isso significa que a votação anterior do deputado é o fator mais importante?

Mimi

Muito mais importante que o volume de emendas. Quando você coloca os dois na equação, o efeito das emendas desaparece.

  • A expansão das emendas parlamentares criou a expectativa de um novo poder eleitoral nas mãos dos deputados — mas os dados de 2026 frustram essa narrativa com números frios.
  • O ganho real atribuível às emendas é de apenas 0,7 ponto percentual de votos, o equivalente a cerca de 70 votos em um município de porte médio — uma margem que raramente decide eleições estaduais.
  • O efeito é mais visível em cidades pequenas, onde o eleitor identifica a origem do benefício, mas é justamente lá que há menos votos em disputa — tornando o impacto politicamente irrelevante em escala.
  • A taxa de reeleição de 72% permanece estável independentemente do volume de emendas recebidas, revelando que o verdadeiro preditor do sucesso eleitoral é o desempenho anterior do deputado, não o dinheiro que ele distribuiu.

Por anos, a lógica política brasileira sustentou que dinheiro público enviado aos municípios se convertia em votos seguros para quem o destinava. Uma análise rigorosa dos dados eleitorais de 2026 desafia essa crença: os ganhos existem, mas são modestos, geograficamente restritos e insuficientes para explicar quem sobrevive ou perece nas urnas. A reeleição, ao que os números sugerem, continua sendo obra de raízes políticas mais profundas do que qualquer transferência orçamentária.

Quando o Congresso ampliou os recursos que deputados podiam destinar diretamente a municípios, muitos esperavam um efeito eleitoral decisivo. A lógica parecia irresistível: mais dinheiro para as cidades significaria mais votos para quem os enviava. Os números de 2026, porém, contam uma história bem mais modesta.

Uma análise de mais de 142 mil pares de deputado e município — cruzando dados orçamentários com registros do TSE — mostra que as emendas geram ganhos reais, mas pequenos. Deputados obtiveram em média 6,7% dos votos em cidades que receberam suas emendas, contra 1% nas demais. A diferença parece expressiva até que se percebe que, já em 2022, antes dos pagamentos analisados, essa lacuna existia: 5,9% contra 1%. Parlamentares, como era previsível, direcionam recursos para onde já têm bases. Descontada a votação anterior, o ganho cai para 0,7 ponto percentual — cerca de 70 votos em um município de porte médio.

O tamanho da cidade define o peso das emendas. Em municípios com até cinco mil habitantes, o ganho chega a 1,3 ponto; em grandes centros, recua para 0,2. As chamadas emendas Pix mostram associação ligeiramente mais forte, com 1 ponto percentual de ganho, possivelmente por sua maior visibilidade junto a prefeitos aliados — mas a razão exata permanece incerta.

Ao dividir os 409 candidatos à reeleição em grupos por volume de emendas recebidas, não emerge qualquer padrão claro: as taxas de reeleição oscilam entre 67% e 78%, variação que os estatísticos atribuem ao acaso. Quando votação anterior e emendas entram juntas nos modelos, o efeito das emendas desaparece da significância estatística. Como deputados federais disputam distritos do tamanho de estados inteiros, dezenas de votos em municípios pequenos raramente decidem uma cadeira. A narrativa de que as emendas blindam mandatos não encontra sustentação nos dados — outros fatores, como alianças locais e estratégias de campanha, mostram-se muito mais determinantes.

Há dois anos, quando o Congresso Nacional ampliou significativamente os recursos que deputados federais podiam destinar diretamente a municípios através de emendas orçamentárias, muitos analistas esperavam um efeito eleitoral explosivo. A lógica era simples: mais dinheiro para as cidades significaria mais votos para quem o enviava. Mas os números da eleição de 2026 contam uma história bem mais modesta.

Uma análise abrangente de mais de 142 mil pares de deputado e município — cruzando dados do Sistema Integrado de Orçamento e Planejamento com os registros do Tribunal Superior Eleitoral — revela que as emendas geram ganhos eleitorais reais, mas pequenos e geograficamente concentrados. Entre os 409 deputados que tentaram reeleição, a taxa de sucesso ficou em 72%, praticamente idêntica à de 2002 e inferior aos índices de 2010 e 2014, apesar de todo o dinheiro em jogo.

O padrão que emerge é revelador. Em 2026, deputados conquistaram em média 6,7% dos votos em municípios que receberam suas emendas, contra apenas 1% naqueles que não receberam. A diferença parece substancial até que se examina o que acontecia antes. Em 2022, antes dos pagamentos analisados, essa mesma diferença já existia: 5,9% contra 1%. Os parlamentares, como era de se esperar, direcionam recursos para cidades onde já possuem bases eleitorais mais robustas. Quando se desconta a votação anterior de cada município, a vantagem cai de 5,7 para 2,3 pontos percentuais. O ganho real entre 2022 e 2026 é de apenas 0,7 ponto percentual — em um município com dez mil votos para deputado federal, isso representa aproximadamente 70 votos.

O tamanho da cidade determina o peso das emendas. Em municípios com até cinco mil habitantes, o ganho é de 1,3 ponto percentual; em cidades acima de 500 mil, cai para 0,2 ponto. Nesses pequenos redutos, os recursos têm peso relativo maior e o eleitor consegue identificar claramente a origem do benefício. Mas é também onde há menos votos em disputa. As chamadas emendas Pix — transferências que caem diretamente no caixa municipal sem convênio prévio — mostram uma associação ligeiramente mais forte, com ganho de 1 ponto percentual contra 0,7 das demais emendas. A razão permanece incerta: pode ser que a flexibilidade dessas transferências facilite a associação dos recursos a ações visíveis dos prefeitos e deputados, ou simplesmente que elas fluam para aliados já consolidados.

Quando se divide os 409 candidatos à reeleição em cinco grupos de tamanho semelhante conforme o volume de emendas recebidas, não emerge qualquer relação clara entre recursos e sucesso eleitoral. As taxas de reeleição foram de 71%, 67%, 75%, 71% e 78% — variação que se explica mais por acaso estatístico do que por padrão. A razão é que as cotas são surpreendentemente parecidas: metade dos deputados recebeu entre 87 e 105 milhões de reais em pagamentos.

Os modelos estatísticos confirmam o que os números brutos sugerem: a votação anterior de um deputado prevê sua reeleição muito melhor do que o volume de emendas que ele direcionou. Quando ambas as variáveis entram na equação, o efeito das emendas desaparece da significância estatística. Sozinho, o valor pago quase nada acrescenta para prever quem vence. A única exceção notável é as emendas Pix, que mostram uma relação positiva, ainda que fraca: comparar um deputado que recebeu pouco Pix com outro que recebeu muito eleva a chance prevista de reeleição de 69% para 76%, mas essa diferença está no limite da significância estatística.

O que esses dados revelam é que as emendas aparecem associadas a ganhos locais pequenos e concentrados em cidades com poucos eleitores. Como deputados federais são eleitos em distritos do tamanho de estados inteiros, dezenas de votos em municípios pequenos dificilmente bastam para decidir uma cadeira. A narrativa que circulou nos últimos anos — de que as emendas blindam mandatos — não encontra sustentação nos dados. As emendas podem contribuir para fortalecer bases eleitorais, mas estão longe de explicar, sozinhas, quem consegue ou não se reeleger. Outros fatores, como a presença de aliados políticos nos municípios e as estratégias de campanha dos deputados, parecem ser muito mais determinantes.

As emendas podem contribuir para fortalecer as bases eleitorais dos parlamentares, mas estão longe de explicar, sozinhas, quem consegue ou não se reeleger
— Análise da Folha de S.Paulo
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