Empresas de transporte aéreo de pacientes têm filas de espera de dois dias; deputado estadual usou serviço para transferir irmão infectado por Covid-19. Manaus registra mais de 200 enterros diários, superando pico anterior; hospitais públicos e privados estão com lotação praticamente esgotada.
Elite de Manaus paga até R$ 170 mil para fugir em UTIs aéreas privadas
Meus voos estão lotados. Não tenho vaga até terça-feira.
Por que essa história importa agora, em janeiro de 2021? Não é só um caso de gente rica tendo privilégio?
É mais do que isso. Manaus estava em colapso — mais de 200 enterros por dia. O sistema público não conseguia absorver a demanda. Quem tinha dinheiro saía; quem não tinha ficava.
Mas precisamos ser claros: sabemos que esses voos aconteceram, sabemos os preços, sabemos que as empresas tinham fila de espera. O que não sabemos é quantas pessoas usaram o serviço. Os números são de demanda, não de volume real.
Verdade. Mas o ponto é que existia uma saída — cara, exclusiva, mas existia. E o governo federal não tinha capacidade de transferir nem os pacientes mais graves.
E quanto ao deputado? Isso é investigação de corrupção?
Não sabemos ainda. Sabemos que uma ambulância estatal levou o irmão dele. O governo disse que vai investigar. Médicos disseram que não é comum, mas "não é comum" não é o mesmo que "ilegal".
O que fica claro é que havia dois sistemas operando simultaneamente. Um para quem podia pagar R$ 170 mil. Outro para o resto.
E o governo federal sabia disso?
O comunicado deles é honesto sobre a limitação: não tinham UTIs aéreas. Mas isso significa que os pacientes mais críticos — exatamente os que mais precisavam sair — não podiam ser transferidos pelo setor público.
Enquanto isso, Claiton Souza estava voando com seus aviões lotados, ele próprio ainda se recuperando de Covid, sua família doente. O mercado funcionava enquanto o sistema público desabava.
Il Polso
- Empresas cobram até R$ 170 mil por transporte aéreo de pacientes entre Manaus e São Paulo
- Manaus registra mais de 200 enterros diários, superando pico anterior de abril-maio de 2020
- Deputado estadual Adjuto Afonso usou ambulância estatal para transferir irmão infectado por Covid-19
- Governo federal só consegue transferir pacientes fora de UTIs, pois não possui aeronaves equipadas
Empresas de transporte aéreo de pacientes têm filas de espera de dois dias; deputado estadual usou serviço para transferir irmão infectado por Covid-19. Manaus registra mais de 200 enterros diários, superando pico anterior; hospitais públicos e privados estão com lotação praticamente esgotada.
Durante crise sanitária do Amazonas, ricos pagam até R$ 170 mil em UTIs aéreas privadas para transferência a outros estados, enquanto população sofre com hospitais lotados e falta de oxigênio.
Em janeiro de 2021, enquanto Manaus enfrentava seu pior momento da pandemia de Covid-19, uma realidade paralela se desenrolava nos hangares da cidade. Quem tinha dinheiro — funcionários públicos de alto escalão, empresários, profissionais liberais e até políticos — pagava até R$ 170 mil para escapar em UTIs aéreas privadas rumo a Brasília, São Paulo, Goiânia e Cuiabá. O resto da população se aglomerava nos corredores de hospitais lotados, rezando para que houvesse oxigênio disponível.
O Amazonas vivia o que seu governo chamava de pior crise sanitária de todos os tempos. Os números eram brutais: mais de 200 enterros por dia, superando o pico anterior registrado entre abril e maio de 2020. Hospitais públicos e privados operavam com capacidade praticamente esgotada. Enquanto isso, duas empresas locais de transporte aéreo de pacientes não conseguiam acompanhar a demanda explosiva.
Marcos Pacheco, dono de uma dessas empresas, operava cinco aviões equipados para transporte de pacientes. Ele cobrava até R$ 170 mil pela rota Manaus-São Paulo e mantinha uma fila de espera de dois dias. "Não tem nem como comparar com o primeiro pico", disse Pacheco. "A procura aumentou exponencialmente. Estou com fila de espera de dois dias." Seus clientes preferiam Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Belém e Fortaleza como destinos. O pagamento era preferencialmente à vista, mas Pacheco abria crédito para alguns — um mercado restrito onde todos se conheciam.
Claiton Sérgio de Souza, dono da CTA Táxi Aéreo, operava três turbohélices fazendo seis voos diários. Cobrava em média R$ 95 mil para Brasília e R$ 85 mil para Cuiabá. "Meus voos estão lotados. Não tenho vaga até terça-feira", afirmou. Souza havia acabado de se recuperar da Covid-19; sua mulher e filha ainda estavam doentes. Mesmo assim, continuava transportando os que podiam pagar.
No domingo em que a reportagem acompanhou as operações, a família do deputado estadual Adjuto Afonso (PDT-AM) estava entre os clientes. Pela manhã, o parlamentar aguardava no hall do hangar para ver seu irmão, infectado por Covid-19, embarcar em uma UTI aérea com destino a Brasília. "Ele estava em casa. Está indo mais por precaução, mesmo", disse Afonso. No início da tarde, uma ambulância chegou ao hangar — não era qualquer ambulância, mas uma adesivada com o emblema do governo estadual do Amazonas. Médicos consultados sob anonimato disseram que usar ambulâncias governamentais para transportar pacientes fora da rede pública não era prática comum.
Quando questionado, Afonso alegou que a ambulância havia sido acionada através do Samu, o serviço municipal de urgência, por um familiar. A Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas negou ter identificado a remoção e anunciou uma investigação. "O Sister (Sistema de Transferência de Emergência Regulada) não identificou a remoção apontada na reportagem e uma investigação mais apurada se fará necessária para verificar as circunstâncias do fato apresentado", disse a nota oficial.
Enquanto isso, o governo federal havia anunciado uma operação para transferir 235 pacientes do Amazonas para outros estados — mas com uma limitação crucial: como o Ministério da Saúde não possuía UTIs aéreas, apenas pacientes fora de unidades de terapia intensiva poderiam ser transferidos. Os mais graves, aqueles que realmente precisavam de transporte urgente com suporte intensivo, ficavam para trás. A desigualdade não era apenas de acesso; era de sobrevivência.
Citazioni salienti
A procura aumentou exponencialmente. Não estou parando um minuto. Estou com fila de espera de dois dias.— Marcos Pacheco, empresário de transporte aéreo de pacientes
Meus voos estão lotados. Não tenho vaga até terça-feira. Eu acabei de sair da Covid-19. Minha mulher e minha filha estão doentes.— Claiton Sérgio de Souza, dono da CTA Táxi Aéreo