Eleições polarizadas aumentam risco de infarto; cardiologistas dão 5 dicas de prevenção

Em 2020, 357 mil brasileiros morreram por doenças circulatórias, a maior causa de óbitos no país; 50% dos infartados não chegam vivos ao hospital.
Tempo é coração: cada minuto perdido representa onze dias a menos de vida
Cardiologista explica por que a velocidade do atendimento em infarto é literalmente questão de vida ou morte.
Mark

Por que exatamente uma eleição polarizada afeta o coração de forma diferente de outros estresses da vida cotidiana?

Mimi

Porque toca em algo fundamental: o futuro. Uma eleição presidencial força as pessoas a pensar em mudanças que podem vir — na economia, na segurança, na educação. É um estresse que não é pessoal e imediato, mas coletivo e projetado. O corpo não diferencia bem entre ameaças reais e imaginárias. Libera os mesmos hormônios.

Mark

Os números mostram aumentos de 17% a 62% em internações. Isso significa que a maioria das pessoas vai infartar?

Mimi

Não. Significa que entre milhões de pessoas, alguns milhares a mais vão ter eventos cardiovasculares nesses dias específicos. São pessoas que já tinham fatores de risco — colesterol alto, hipertensão, diabetes. O estresse é o gatilho, não a causa única. Mas para quem está no limite, é a diferença entre passar bem e ir para o hospital.

Mark

Se o estresse é tão perigoso, por que não prescrever medicamentos para todos durante eleições?

Mimi

Porque o estresse não é mensurável como pressão arterial ou colesterol. Cada pessoa sente diferente. E porque existem estratégias que funcionam sem medicação — dormir bem, se exercitar, meditar. Elas têm evidências científicas. Remédios são para casos graves, quando a pessoa já perdeu o controle.

Mark

Qual é o sinal de alerta mais importante que as pessoas deveriam conhecer?

Mimi

Dor no peito irradiando para o braço, com suor frio. Mas aqui está o problema: metade das pessoas que infartam não chega viva ao hospital. Muitas ignoram os sinais, acham que é indigestão, esperam passar. Não espera. Cada minuto conta — literalmente onze dias de vida por minuto perdido.

Mark

A pandemia piorou isso tudo?

Mimi

Muito. Pessoas deixaram de ir ao médico, perderam planos de saúde, acumularam estresse. Agora temos uma demanda represada de doenças cardiovasculares. É como se o coração de muita gente estivesse esperando para falhar. Uma eleição polarizada pode ser o empurrão que faltava.

Mark

Então o que uma pessoa deveria fazer nos dias antes de uma eleição importante?

Mimi

Dormir sete horas, se exercitar, meditar ou simplesmente desligar das redes sociais. Não é glamouroso, mas funciona. E se sentir algo estranho no peito — qualquer coisa — não hesite. Ligue para a emergência. Melhor ser falso alarme do que chegar tarde.

  • Estudos com milhões de pacientes confirmam que eleições polarizadas disparam uma onda mensurável de infartos e AVCs nos dias seguintes ao voto.
  • O mecanismo é fisiológico: adrenalina e cortisol elevam pressão arterial e tornam o sangue mais viscoso, transformando a ansiedade política em risco cardíaco real.
  • No Brasil, metade dos infartados não chega viva ao hospital, e uma demanda represada de doenças cardiovasculares — agravada pela pandemia — torna o cenário ainda mais delicado.
  • Cardiologistas alertam que períodos de alta tensão também incentivam exageros no álcool, na comida e no tabaco, somando cargas extras ao coração já sobrecarregado.
  • Cinco estratégias comprovadas — gerenciar estresse, dormir bem, exercitar-se, evitar excessos e reconhecer sintomas — podem fazer a diferença entre chegar ou não ao hospital a tempo.

Quando uma nação se divide em torno de uma disputa eleitoral, o corpo humano registra essa tensão de forma concreta e mensurável. Pesquisas conduzidas por universidades americanas de prestígio documentaram aumentos de até 62% nas internações por infarto e AVC nos dias seguintes a eleições presidenciais polarizadas — um fenômeno que a fisiologia explica com precisão, mas que a política raramente considera. No Brasil, onde 357 mil pessoas morreram por doenças circulatórias em 2020, a aproximação de um pleito acirrado convida a uma reflexão urgente: o coração não é imune ao clima do tempo histórico.

Quando uma nação se divide em torno de uma eleição presidencial, os prontos-socorros sentem o impacto. Um estudo da Kaiser Permanente, com parceria de Columbia e Harvard, acompanhou 6,3 milhões de pessoas na Califórnia após a eleição americana de 2020 e registrou alta de 17% nas internações cardiovasculares nos cinco dias seguintes. Em 2016, o mesmo grupo havia encontrado um salto ainda mais alarmante: 62% de hospitalizações nos dois dias após o pleito. A pesquisa, publicada no JAMA em 2022, confirma o que cardiologistas já suspeitavam.

O mecanismo é bem compreendido. A antecipação eleitoral desencadeia a liberação de adrenalina e cortisol, que aceleram os batimentos, elevam a pressão e tornam o sangue mais viscoso. Para quem já convive com hipertensão, diabetes ou colesterol alto, esse estado representa risco adicional grave. O cardiologista Agnaldo Piscopo relembra pacientes que infartaram após separações ou notícias de morte — sem nenhum outro fator de risco presente. A carga emocional, sozinha, foi suficiente para provocar o espasmo da coronária.

Os números brasileiros reforçam a gravidade. Em 2020, 357 mil brasileiros morreram por doenças circulatórias — a maior causa de óbitos no país. Metade dos infartados não chega viva ao hospital. Pesquisador do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, Álvaro Avezum estima que eliminar o estresse evitaria 33% dos infartos e 17% dos AVCs no mundo.

Cardiologistas consultados pela BBC News Brasil apontam cinco atitudes essenciais. Gerenciar o estresse separando o que está sob nosso controle do que não está, com ajuda de meditação e limites claros para o consumo de notícias. Dormir pelo menos sete horas por noite, com horários regulares e sem telas nas duas horas anteriores. Praticar entre 150 e 300 minutos de exercício aeróbico moderado por semana, aproveitando o bem-estar que o movimento libera justamente nos momentos de tensão. Evitar os exageros típicos de períodos de alta ansiedade — álcool, comida em excesso, cigarro. E, talvez o mais crítico: reconhecer os sinais de infarto e AVC e ligar imediatamente para o 192, pois cada minuto perdido representa onze dias a menos de vida.

A cardiologista Roberta Saretta, do Hospital Sírio-Libanês, alerta que o contexto pós-pandemia agrava o quadro: muitos brasileiros deixaram de consultar médicos por medo da covid ou por perda de planos de saúde. Existe uma demanda represada que pode explodir. O coração, afinal, não espera pelo resultado das urnas.

Quando uma nação se divide em torno de uma eleição presidencial, o coração paga o preço. Médicos de todo o mundo observam o mesmo fenômeno: nos dias que seguem votações polarizadas, os prontos-socorros se enchem de pacientes com infarto e acidente vascular cerebral. Não é coincidência. É fisiologia.

Um estudo conduzido por pesquisadores da Kaiser Permanente, em parceria com as universidades Columbia e Harvard, rastreou os registros de saúde de 6,3 milhões de pessoas na Califórnia após a eleição presidencial americana de 2020. Nos cinco dias seguintes ao pleito que levou Joe Biden à vitória sobre Donald Trump, as internações por doenças cardiovasculares agudas subiram 17% em relação ao período anterior. Quatro anos antes, em 2016, o mesmo grupo de cientistas havia encontrado um aumento ainda mais alarmante: 62% de hospitalizações nos dois dias imediatamente após aquela eleição. A pesquisa, publicada no Journal of the American Medical Association em abril de 2022, é uma das mais respeitadas da área e confirma o que cardiologistas já suspeitavam: eventos de grande tensão política afetam diretamente o sistema cardiovascular.

O mecanismo é bem compreendido. Quando uma eleição presidencial se aproxima, as pessoas começam a pensar no futuro — o que pode melhorar ou piorar na economia, na segurança, na saúde, na educação. Essa antecipação desencadeia uma cascata de mudanças no corpo. O organismo libera adrenalina e cortisol, hormônios do estresse que aceleram os batimentos cardíacos, elevam a pressão arterial e deixam o sangue mais viscoso. Para alguém com colesterol alto, hipertensão, diabetes ou obesidade, essas alterações representam um risco adicional grave. O entupimento de uma artéria coronária — o infarto — ou o rompimento de uma veia no cérebro — o AVC hemorrágico — podem ser desencadeados. Em alguns casos, o nervosismo exacerbado por si só é suficiente. Agnaldo Piscopo, diretor do Centro de Treinamento em Emergências Cardiovasculares da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, relembra casos de pacientes que infartaram após eventos críticos como separações, notícias de morte, assaltos ou heranças — situações em que nenhum outro fator de risco estava presente. O espasmo da coronária foi provocado apenas pela carga emocional.

Os números brasileiros são sobrios. Em 2020, 357 mil brasileiros morreram por doenças circulatórias, tornando-as a maior causa de óbitos no país. Metade dos pacientes que sofrem um infarto não chega viva ao hospital. Dois grandes estudos internacionais, o InterHeart e o InterStroke, confirmaram o papel do estado emocional nesses eventos. Álvaro Avezum, diretor do Centro Internacional de Pesquisa do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, calcula que se fosse possível eliminar o estresse, evitaríamos 33% dos casos de infarto e 17% dos episódios de AVC em todo o mundo.

A boa notícia é que existem estratégias comprovadas para reduzir o risco. Cardiologistas consultados pela BBC News Brasil destacam cinco atitudes essenciais. Primeira: gerenciar o estresse diferenciando aquilo sobre o qual temos controle do que não podemos mudar. Práticas como meditação e atenção plena reduzem a liberação de adrenalina, diminuem a pressão arterial e a frequência cardíaca. Estabelecer momentos específicos para ver notícias e redes sociais também ajuda — ficar constantemente conectado em períodos de disputa acirrada causa danos à saúde. Segunda: dormir bem. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos aponta que noites de má qualidade estão relacionadas a pressão alta, diabetes tipo 2 e obesidade. Adultos precisam de pelo menos sete horas diárias. A qualidade importa: adormecer e despertar nos mesmos horários, diminuir luzes ao anoitecer e evitar telas duas horas antes de dormir fazem diferença.

Terceira: fazer atividade física. Logo após o exercício, o corpo libera substâncias que trazem prazer e bem-estar — particularmente bem-vindos em momentos de estresse. A atividade regular controla hipertensão, diabetes, colesterol alto e obesidade. A Organização Mundial da Saúde recomenda 150 a 300 minutos de exercício aeróbico moderado ou 75 a 150 minutos de treino vigoroso por semana para adultos entre 18 e 64 anos. Quarta: cuidar dos exageros. Em períodos de alta tensão, as pessoas tendem a ficar compulsivas — comem mais, bebem mais álcool, fumam mais. Somado a noites mal dormidas e sedentarismo, isso representa carga extra ao coração. Também é importante evitar embates desnecessários onde há risco de agressões verbais e físicas. Quinta, e talvez a mais crítica: reconhecer os sinais de infarto ou AVC. No infarto, é comum sentir dor no lado esquerdo do peito irradiando para o braço, acompanhada de suor frio, náuseas, tontura e mal-estar. Alguns pacientes sentem dor na boca do estômago ou nas costas. No AVC, aparecem dor forte na cabeça, paralisia da face ou de parte do corpo, dificuldade para raciocinar ou completar frases. Em qualquer um desses casos, não se trancar em lugar algum — avisar alguém próximo e ligar para o serviço de emergência no 192 é essencial. Cada minuto perdido desde o entupimento da artéria representa onze dias a menos de vida para o paciente.

Roberta Saretta, gerente do Centro de Cardiologia do Hospital Sírio-Libanês, reforça que essas orientações ganham ainda mais importância no contexto pós-pandemia. Muitas pessoas deixaram de ir ao médico por medo da covid ou perderam acesso a planos de saúde por dificuldades financeiras. Existe uma demanda represada de doenças cardiovasculares que pode explodir. Se você perceber que algo mudou na sua saúde — não conseguir mais fazer uma atividade de rotina, sentir cansaço exagerado ou dor no peito — vale buscar avaliação médica. O coração, afinal, não espera pelo resultado das urnas.

Se conseguíssemos de alguma maneira acabar com o estresse, evitaríamos 33% dos casos de infarto e 17% dos episódios de AVC que acontecem em todo o mundo
— Álvaro Avezum, cardiologista e diretor do Centro Internacional de Pesquisa do Hospital Alemão Oswaldo Cruz
Em tantos anos de trabalho nos serviços de emergência, já vi muita gente infartar após um evento crítico, como uma separação conjugal, a notícia da morte de alguém querido, um assalto ou uma partilha de herança
— Agnaldo Piscopo, diretor do Centro de Treinamento em Emergências Cardiovasculares da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo
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