É falso que vacinas contra covid-19 tenham causado 800 mil mortes nos EUA

Dados sólidos mostram queda da mortalidade por covid-19 após vacinação
Especialista refuta alegações de que vacinas causaram mortes em massa nos EUA.

Vídeo circulante nas redes cita estudos com falhas metodológicas e dados de óbitos por outras causas, não por vacinação. Especialistas confirmam que vacinas reduziram mortalidade por COVID-19 e eventos adversos graves representam casos isolados entre bilhões de doses.

  • Vídeo viral cita estudos não revisados e dados não confirmados sobre 840 mil mortes
  • Qualquer pessoa pode registrar eventos no Vaers sem comprovação de causalidade
  • Bilhões de pessoas foram vacinadas com níveis de segurança muito bons
  • Mortalidade por covid-19 caiu drasticamente após introdução das vacinas

Estadão Verifica desmente alegação viral de que vacinas contra COVID-19 causaram até 840 mil mortes nos EUA. Afirmações baseiam-se em estudos não revisados e dados não confirmados, contrariando evidências científicas que comprovam redução da mortalidade.

Um vídeo que circula pelas redes sociais afirma que estudos baseados em autópsias identificaram até 840 mil mortes causadas por vacinas contra covid-19 nos Estados Unidos. O Estadão Verifica investigou a alegação e concluiu que ela é falsa. Não existem evidências de mortes em massa provocadas pela vacinação. As afirmações apresentadas na postagem apoiam-se em estudos que nunca passaram por revisão científica e em dados que não foram confirmados por nenhuma instituição de saúde.

O vídeo atribui essas alegações a um artigo publicado em maio de 2025, no qual o autor Hulscher afirmou que as vacinas mataram mais de 600 mil pessoas nos Estados Unidos — um número que ele comparou às duas Guerras Mundiais e à Guerra do Vietnã combinadas. Na versão em vídeo, o número foi ampliado para 840 mil mortes, e a comparação ganhou a Guerra do Iraque. Nenhuma dessas afirmações encontra respaldo em dados verificáveis.

Helton Santiago, professor de imunologia médica e diretor clínico do Centro de Tecnologia de Vacinas da Universidade Federal de Minas Gerais, explica que as alegações de Hulscher carecem completamente de sustentação científica. Santiago reconhece que sim, há eventos adversos associados às vacinas, mas ressalta que, considerando o volume imenso de doses administradas globalmente, esses casos representam exceções isoladas. "Bilhões de pessoas no mundo foram vacinadas com níveis de segurança muito bons, inclusive para plataformas vacinais novas", afirmou. Os raros casos de morte associados à vacinação ocorreram em pessoas que tinham alguma contraindicação ao uso ou que apresentaram reações incomuns por causas ainda desconhecidas.

O problema central está na fonte que Hulscher utiliza para sustentar suas alegações: o Sistema de Monitoramento de Segurança das Vacinas (Vaers), mantido pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA. Qualquer pessoa pode registrar um possível evento adverso no Vaers, mesmo sem ter certeza de que ele está ligado à vacinação. O próprio site da plataforma deixa claro que "o número de registros, por si só, não pode ser interpretado como evidência de uma associação causal entre uma vacina e um evento adverso". Essa é uma distinção fundamental: a plataforma coleta relatos, não prova de causalidade.

Alberto Chebabo, infectologista e gerente de atenção à saúde do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho da Universidade Federal do Rio de Janeiro, oferece uma analogia que ilustra perfeitamente o erro metodológico. Imagine um estudo realizado em uma enfermaria masculina de cardiologia que analisasse as causas de infarto e correlacionasse o uso de cueca como um fator de risco. Obviamente, todos os homens ali estariam usando cueca. Mas isso não significaria que há qualquer relação entre o uso de cueca e insuficiência cardíaca, infarto ou hipertensão. O mesmo ocorre com os dados do Vaers: a simples coincidência temporal entre vacinação e morte não estabelece causalidade.

O que a evidência científica realmente mostra é o oposto do que Hulscher afirma. Santiago é categórico: não existe nenhum estudo, antigo ou recente, que sustente a conclusão de que a maioria das mortes por covid-19 foi causada pelas vacinas. "Há o contrário: dados sólidos mostrando uma grande queda da mortalidade por covid-19 após a introdução das vacinas", disse. Essa redução na mortalidade é documentada em múltiplos países e sistemas de saúde, representando um dos maiores sucessos da medicina moderna.

A desinformação continua encontrando espaço nas redes sociais porque explora uma plataforma real — o Vaers — e a transforma em algo que ela não é: um sistema de comprovação de danos. O Vaers existe precisamente para coletar sinais potenciais que depois serão investigados por epidemiologistas e cientistas. Usar seus dados brutos como prova de causalidade é um erro metodológico fundamental que qualquer pesquisador treinado reconheceria imediatamente. Mas para o público geral, a alegação soa plausível, especialmente quando apresentada em um vídeo com números grandes e comparações históricas.

Há o contrário: dados sólidos mostrando uma grande queda da mortalidade por covid-19 após a introdução das vacinas
— Helton Santiago, professor de imunologia médica da UFMG
O número de registros, por si só, não pode ser interpretado como evidência de uma associação causal entre uma vacina e um evento adverso
— Sistema de Monitoramento de Segurança das Vacinas (Vaers)
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que alguém criaria um vídeo com números tão específicos — 840 mil mortes — se não houvesse nenhuma base para isso?

Model

Porque números grandes e específicos soam mais convincentes do que afirmações vagas. E porque o Vaers existe de verdade, com registros reais, então há uma aparência de legitimidade. O truque é confundir "pessoas relataram algo" com "isso foi comprovado".

Inventor

Mas se bilhões de pessoas foram vacinadas, como podemos ter certeza de que não houve 840 mil mortes causadas pelas vacinas?

Model

Porque temos sistemas de vigilância epidemiológica em dezenas de países. Se houvesse um padrão de mortes em massa, seria visível em todos esses sistemas simultaneamente. Além disso, a mortalidade por covid-19 caiu drasticamente após a vacinação — o oposto do que esperaríamos se as vacinas estivessem matando pessoas.

Inventor

O Vaers permite que qualquer pessoa registre um evento. Isso não torna os dados inúteis, certo?

Model

Não, torna-os úteis para uma coisa específica: gerar hipóteses que depois precisam ser investigadas. O Vaers é um sistema de alerta, não de prova. É como um médico que ouve um paciente descrever um sintoma — útil para começar a investigação, mas não é diagnóstico.

Inventor

A analogia da cueca é inteligente, mas parece simplificar demais. Não há diferença entre usar cueca e tomar uma vacina?

Model

A diferença é que a cueca não é uma intervenção médica. Mas o ponto é o mesmo: se você observa apenas pessoas que tiveram um resultado específico — neste caso, morte — e depois procura por algo que todas elas têm em comum, você vai encontrar muitas coisas em comum que não têm nada a ver com o resultado. A maioria das pessoas vacinadas não morreu. A maioria das pessoas que morreram de covid-19 não foram vacinadas ou foram vacinadas tardiamente.

Inventor

Como você explica para alguém que viu o vídeo e acreditou nele?

Model

Começando pelo que é verdadeiro: sim, há eventos adversos raros. Sim, o Vaers existe e coleta dados. Depois, explicando o que esses dados significam e o que não significam. E finalmente, apontando para o resultado que importa: menos pessoas morrendo de covid-19 após a vacinação. A verdade é mais simples e mais poderosa do que a mentira.

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