O tribunal mencionado simplesmente não existe no sistema judicial
Em março de 2023, uma alegação viral afirmava que Bill Gates enfrentava um mandado de prisão nas Filipinas por mortes ligadas a vacinas — mas a história repousava sobre uma fundação inexistente: o tribunal mencionado jamais existiu no sistema judicial filipino. A desinformação, originada em um site americano conhecido por conteúdo falso, alcançou dezenas de milhares de pessoas antes de ser desmentida por múltiplas organizações de verificação. O episódio revela como narrativas fabricadas podem ganhar vida própria nas redes sociais, mesmo quando construídas sobre instituições que nunca existiram.
- Uma alegação explosiva sobre um mandado de prisão internacional contra Bill Gates se espalhou pelo Twitter em dias, acumulando mais de 33 mil visualizações antes de qualquer verificação.
- O suposto tribunal responsável pelo mandado — o Tribunal de Crimes Hediondos de Manila — não consta em nenhum registro oficial da Suprema Corte das Filipinas, pois simplesmente não existe.
- A desinformação partiu de um site americano com histórico de conteúdo falso e circulou disfarçada de reportagem em português, dando aparência de legitimidade à fabricação.
- A Fundação Bill e Melinda Gates confirmou à Reuters a inexistência de qualquer mandado, enquanto Reuters e Politifact chegaram independentemente à mesma conclusão: a alegação é completamente falsa.
Em março de 2023, uma alegação começou a circular nas redes sociais afirmando que Bill Gates havia sido alvo de um mandado de prisão internacional emitido pelas Filipinas, acusado de homicídio premeditado ligado a mortes supostamente causadas por vacinas contra a covid-19. Um único tuíte, publicado em 3 de março, acumulou mais de 33 mil visualizações, quase 2 mil curtidas e centenas de retuítes — tudo antes de qualquer verificação.
O problema central era estrutural: o tribunal citado na alegação, o Tribunal de Crimes Hediondos de Manila, não existe. A Suprema Corte das Filipinas mantém uma lista completa das instituições judiciais do país, e nenhuma delas corresponde a esse nome. Nas Filipinas, crimes de extrema gravidade são julgados em tribunais regionais comuns, não em uma corte especializada na capital.
A origem da história remontava a um site americano com histórico documentado de desinformação. O conteúdo circulou como captura de tela de uma suposta reportagem em português, com título fabricado sobre o mandado — sem qualquer respaldo da imprensa profissional. Quando a Fundação Bill e Melinda Gates foi consultada pela Reuters, confirmou que não existia nenhum mandado de prisão contra Gates relacionado a vacinas. A fundação, registre-se, financiou a distribuição de vacinas contra a covid-19 em 92 países, incluindo as Filipinas, por meio da Gavi.
A verificação do UOL Confere foi corroborada por Reuters e Politifact, que analisaram a mesma alegação de forma independente e chegaram à mesma conclusão. O caso ilustra com precisão como a desinformação prospera: não pela força dos fatos, mas pela velocidade do compartilhamento — capaz de levar uma ficção a dezenas de milhares de pessoas antes que a realidade tenha chance de responder.
Uma alegação que circulou nas redes sociais em março de 2023 afirmava que Bill Gates havia sido alvo de um mandado de prisão internacional emitido por um tribunal nas Filipinas, acusado de homicídio premeditado relacionado a mortes supostamente causadas por vacinas contra a covid-19. A história se espalhou rapidamente: um tuíte publicado no dia 3 de março alcançou mais de 33 mil visualizações, quase 2 mil curtidas e 651 retuítes antes de ser verificada. Mas a acusação não tinha fundamento algum.
O tribunal mencionado na alegação — o Tribunal de Crimes Hediondos de Manila — simplesmente não existe. Quando verificadores consultaram o site da Suprema Corte das Filipinas, que mantém uma lista completa dos tribunais do país e descreve como funciona o sistema judicial, ficou claro que não há qualquer instituição com esse nome operando nas ilhas. Delitos de extrema gravidade nas Filipinas são julgados em tribunais regionais, não em um tribunal especializado em crimes hediondos localizado na capital.
A desinformação teve origem em um site americano conhecido por publicar conteúdo falso. O tuíte compartilhava uma captura de tela de uma suposta reportagem em português, datada de 2 de março, com um título fabricado: "Mandado de prisão de Bill Gates emitido nas Filipinas por 'assassinato premeditado' vinculado ao lançamento de vacina". Nenhuma reportagem legítima da imprensa profissional sustentava a acusação.
Quando questionada sobre o assunto, a Fundação Bill e Melinda Gates confirmou à Reuters que não havia qualquer mandado de prisão contra Gates relacionado a vacinas contra o coronavírus. A fundação não respondeu quando contatada diretamente sobre o tema. O que é documentado, porém, é que a fundação financiou a distribuição de vacinas contra a covid-19 em 92 países, incluindo as Filipinas, através da Gavi, agência internacional de vacinação.
A verificação de fatos realizada pelo UOL Confere foi corroborada por outras organizações de checagem. Tanto a Reuters quanto o Politifact analisaram a mesma alegação e chegaram à mesma conclusão: era completamente falsa. A história ilustra como desinformação pode ganhar tração nas redes sociais — alcançando dezenas de milhares de pessoas — mesmo quando construída sobre fundações inteiramente fictícias, como um tribunal que nunca existiu.
Notable Quotes
Não há mandado de prisão pelo suposto tribunal filipino com relação às vacinas contra o coronavírus— Porta-voz da Fundação Bill e Melinda Gates à Reuters
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que alguém criaria uma história tão específica sobre um tribunal que não existe?
Porque funciona. Quanto mais detalhes — um país real, um crime específico, uma figura pública conhecida — mais a história parece verdadeira. As pessoas compartilham sem verificar.
Mas como uma captura de tela falsa de uma reportagem em português convence as pessoas?
Porque a maioria não clica no link. Veem a imagem, leem o título, e já acreditam. O visual de uma reportagem é suficiente.
A Fundação Gates financiou vacinas nas Filipinas. Isso não dá alguma credibilidade à acusação?
Ao contrário. Exatamente porque a fundação trabalhou lá é que a história parecia plausível. Pegou um fato real e construiu uma ficção em cima dele.
Quantas pessoas viram isso antes de ser desmentido?
Mais de 33 mil. E cada compartilhamento levava a mais pessoas. Esse é o problema: a mentira viaja rápido, a correção chega depois.
O que impede que a mesma história seja criada novamente com outro tribunal fictício?
Nada. Por isso a verificação de fatos é contínua. Mas a melhor defesa é as pessoas aprenderem a questionar, a verificar antes de compartilhar.