A DPOC é a 4.ª causa de morte mundial e 5.ª em Portugal, mas 70% dos portugueses desconhecem a doença e ela é frequentemente diagnosticada tardiamente. A doença não afeta apenas fumadores ou idosos; poluição urbana, fumo passivo, infeções na infância e fatores genéticos podem comprometer a função pulmonar desde cedo.
DPOC: doença silenciosa que exige mudança de paradigma no diagnóstico em Portugal
A doença não surge de repente na velhice. Ela cresce silenciosamente durante décadas.
Porque é que a DPOC é tão frequentemente diagnosticada tarde? Parece que deveria ser mais fácil apanhar isto mais cedo.
Porque a doença é silenciosa durante décadas. A função pulmonar está a deteriorar-se, mas o doente não sente nada. Quando sente, já perdeu uma parte significativa da capacidade respiratória.
Mas há testes — a espirometria, por exemplo. Porque é que não se faz isto rotineiramente em pessoas jovens?
Exatamente. Esse é o ponto do estudo. Portugal nunca teve dados epidemiológicos nacionais sobre DPOC, por isso ninguém sabe realmente quem está em risco ou quando começar a vigiar.
Então o tabagismo não é o culpado principal?
É um fator importante, mas está longe de ser o único. A poluição urbana, o fumo passivo, as infeções na infância, até a genética — tudo isto pode danificar os pulmões antes de a pessoa chegar aos 25 anos.
Espera, a genética? Há pessoas que herdam isto?
Sim. O défice de alfa-1 antitripsina é um exemplo bem estabelecido. É uma doença hereditária que pode causar DPOC precoce, frequentemente em pessoas que nunca fumaram.
E quantas pessoas em Portugal têm DPOC sem o saber?
Ninguém sabe. Mais de 70% dos portugueses nunca ouviram falar da doença. O estudo com 9.000 participantes vai tentar responder a isto.
Mas isso é uma estimativa. Pode haver muito mais ou muito menos, dependendo de como a amostra foi selecionada.
Verdade. Por isso é que o estudo é importante — é a primeira vez que Portugal tenta mapear isto de forma sistemática.
E se descobrirem que há muitos mais casos do que se pensa?
Então teremos de repensar completamente como diagnosticamos e prevenimos a doença. Deixar de esperar que as pessoas fiquem velhas e doentes, e começar a vigiar desde cedo.
Incluindo pessoas com 20 anos. Isso é um grande passo.
É. Porque é nessa idade que a função pulmonar atinge o seu pico. Se já está comprometida aos 20, vai piorar durante décadas.
O Pulso
- DPOC é a 4.ª causa de morte mundial e 5.ª em Portugal
- Mais de 70% dos portugueses desconhecem a doença
- Estudo envolve 9.000 participantes, incluindo adultos a partir dos 20 anos
- Poluição urbana, fumo passivo e infeções na infância são fatores de risco além do tabagismo
- Défice de alfa-1 antitripsina pode causar DPOC precoce em pessoas que nunca fumaram
A DPOC é a 4.ª causa de morte mundial e 5.ª em Portugal, mas 70% dos portugueses desconhecem a doença e ela é frequentemente diagnosticada tardiamente. A doença não afeta apenas fumadores ou idosos; poluição urbana, fumo passivo, infeções na infância e fatores genéticos podem comprometer a função pulmonar desde cedo.
A Sociedade Portuguesa de Pneumologia lança estudo epidemiológico nacional sobre DPOC, incluindo adultos jovens a partir dos 20 anos, para identificar a verdadeira prevalência da doença e fatores de risco além do tabagismo.
A Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica é a quarta causa de morte no mundo e a quinta em Portugal, e no entanto mais de sete em cada dez portugueses nunca ouviram falar dela. Pior ainda: quando finalmente diagnosticada, a doença já terá roubado uma parte significativa da capacidade respiratória do doente, de forma irreversível. A Sociedade Portuguesa de Pneumologia quer mudar isto, começando por destruir a ideia mais perigosa que existe sobre a DPOC — que ela é coisa de fumadores velhos.
O Prof. Doutor Jorge Ferreira, presidente da SPP, explica que essa visão é não apenas incompleta mas prejudicial. A função pulmonar constrói-se desde antes do nascimento, cresce durante a infância e adolescência, e atinge o seu pico máximo por volta dos 20 a 25 anos. Se esse pico for inferior ao esperado — porque a criança respirou ar poluído, foi exposta a fumo passivo, sofreu infeções respiratórias frequentes, nasceu prematura ou com baixo peso, ou porque herdou uma vulnerabilidade genética — o risco de desenvolver DPOC aumenta dramaticamente, mesmo que essa pessoa nunca fume um cigarro na vida. A doença não surge de repente na velhice. Ela cresce silenciosamente durante décadas.
É precisamente esse silêncio que torna a DPOC tão perigosa. Nos estágios iniciais, os sintomas são subtis e fáceis de ignorar: uma ligeira falta de ar ao subir escadas, cansaço mais rápido durante o exercício, uma tosse ocasional, infeções respiratórias um pouco mais frequentes. Qualquer pessoa atribui isto ao sedentarismo, ao stress, ao cansaço normal do dia a dia. Entretanto, a função pulmonar está a deteriorar-se de forma mensurável, mas sem que o doente o sinta. Quando finalmente os sintomas se tornam impossíveis de ignorar, a perda de função já é significativa e irreversível.
Para quebrar este ciclo, a SPP lançou um estudo epidemiológico nacional sem precedentes em Portugal. Envolverá 9.000 participantes espalhados por todo o território continental e, de forma inovadora, incluirá adultos a partir dos 20 anos — uma abordagem que coloca Portugal entre os primeiros países do mundo a estudar a DPOC desta forma. O objetivo é simples mas ambicioso: mapear a verdadeira prevalência da doença, identificar quantos portugueses têm DPOC sem o saber, e caracterizar os fatores de risco reais que operam na população portuguesa.
Para além do tabagismo, esses fatores são muitos. A poluição atmosférica urbana e doméstica, incluindo o uso de biomassa em espaços fechados, desempenha um papel determinante. Profissões com exposição a poeiras, fumos químicos e agentes irritantes respiratórios aumentam o risco. As infeções respiratórias recorrentes na infância deixam marcas permanentes. As condições socioeconómicas adversas e o sedentarismo contribuem. E depois há a genética: o défice de alfa-1 antitripsina, uma doença hereditária subdiagnosticada, pode causar DPOC de início precoce em pessoas jovens que nunca fumaram, porque essa proteína produzida no fígado é essencial para proteger o tecido pulmonar contra a inflamação. Investigação recente tem identificado outros determinantes genéticos que influenciam o crescimento pulmonar e a suscetibilidade aos fatores ambientais.
O Prof. Ferreira é claro sobre o que está em jogo. Sem dados epidemiológicos robustos, Portugal não consegue conhecer a verdadeira prevalência da doença, não consegue identificar grupos de risco subdiagnosticados, e não consegue planear políticas de saúde e alocação de recursos de forma eficaz. O estudo fornecerá, pela primeira vez, uma estimativa sólida da prevalência real da DPOC em Portugal, a sua distribuição por idade, sexo e gravidade, e os padrões precoces de alteração da função pulmonar em adultos jovens. Permitirá também caracterizar melhor os fatores de risco ambientais, ocupacionais e genéticos presentes na população portuguesa.
O impacto potencial é enorme. A DPOC causa elevada morbilidade, absentismo laboral, redução de produtividade e perda significativa de qualidade de vida. Com dados sólidos em mão, será possível passar de uma estratégia centrada quase exclusivamente no tratamento tardio para uma abordagem baseada na prevenção, diagnóstico precoce e intervenção antecipada. Será possível direcionar recursos para os grupos de maior risco, promover estilos de vida saudáveis desde idades precoces, e reforçar a vigilância clínica de populações vulneráveis. Ao intervir mais cedo, pode-se atrasar significativamente a progressão da doença e melhorar de forma sustentada a qualidade de vida dos doentes. Não é possível prevenir eficazmente aquilo que não se conhece. Este estudo é o primeiro passo para mudar o paradigma.
Citações Notáveis
A função pulmonar constrói-se desde o período pré-natal, cresce durante a infância e adolescência e atinge o seu pico máximo por volta dos 20-25 anos. Se esse pico for inferior ao esperado, o risco de desenvolver DPOC aumenta significativamente, mesmo em pessoas que nunca fumaram.— Prof. Doutor Jorge Ferreira, Presidente da SPP
Não é possível prevenir eficazmente aquilo que não se conhece. Este estudo fornece a base científica necessária para uma mudança estrutural na abordagem à DPOC em Portugal.— Prof. Doutor Jorge Ferreira, Presidente da SPP