Itália declara alerta vermelho em 15 cidades; França registra noite mais quente historicamente com 21,6°C de média; Reino Unido prevê 38°C com inundações afetando transportes. Cientistas confirmam que mudanças climáticas aumentam frequência e intensidade de ondas de calor, com El Niño especialmente forte atuando como catalisador do fenômeno do domo de calor.
Domo de calor alimentado por El Niño quebra recordes de temperatura na Europa
Uma atmosfera mais quente funciona como um trampolim térmico
Por que este ano é diferente dos anteriores? Já houve ondas de calor na Europa antes.
Houve, mas a combinação de fatores este ano é rara. Um El Niño muito forte está amplificando um domo de calor que já seria extremo por si só. É como adicionar combustível a um fogo que já estava queimando.
E o domo de calor — como funciona exatamente?
Imagine uma tampa sobre uma panela. O ar fica preso, não consegue subir, não forma nuvens. Sem nuvens, o sol bate direto no solo dia após dia. O ar fica cada vez mais quente porque não consegue escapar.
Os cientistas dizem que isso é natural, mas está piorando?
Exatamente. Sistemas de alta pressão sempre existiram. Mas uma atmosfera mais quente funciona como um trampolim — torna mais fácil desencadear ondas de calor extremas. E esses padrões de bloqueio estão se tornando mais frequentes e persistentes.
Qual é o papel do El Niño nisso tudo?
O El Niño cria uma ondulação na corrente de jato sobre o oceano que favorece a alta pressão sobre a Europa. É um catalisador. Sem ele, o domo de calor seria menos intenso.
E as mortes — como alguém morre de calor em uma cidade moderna?
De várias formas. Alguns morrem em casa, onde o calor se acumula. Outros, desesperados para se refrescar, se afogam. Dois irmãos pequenos morreram trancados em um carro. O calor extremo não discrimina.
The Pulse
- Itália declara alerta vermelho em 15 cidades; França registra noite mais quente historicamente com 21,6°C de média
- El Niño especialmente forte amplifica domo de calor sobre a Europa
- Três idosos morreram em casas no sudoeste da França; dois irmãos de 2 e 4 anos encontrados sem vida em carro em Carpentras
- Pelo menos 40 mortes por afogamento na França e cinco na Alemanha registradas como efeitos indiretos
- Reino Unido prevê 38°C com inundações afetando transportes; Polônia espera até 41°C na Baixa Silésia
Itália declara alerta vermelho em 15 cidades; França registra noite mais quente historicamente com 21,6°C de média; Reino Unido prevê 38°C com inundações afetando transportes. Cientistas confirmam que mudanças climáticas aumentam frequência e intensidade de ondas de calor, com El Niño especialmente forte atuando como catalisador do fenômeno do domo de calor.
Segunda onda de calor extremo do ano varre Europa com temperaturas recordes acima de 40°C, alimentada por El Niño e sistema de alta pressão persistente, causando mortes confirmadas na França.
A Europa está passando pela segunda onda de calor extremo do ano, e desta vez os termômetros estão quebrando recordes históricos de norte a sul. Na terça-feira, enquanto as principais capitais do continente emitiam alertas de emergência, a Itália declarava vermelho em 15 cidades — Roma e Milão entre elas. A França havia acabado de registrar sua noite mais quente já medida, com uma temperatura média de 21,6°C entre segunda e terça. No Reino Unido, o serviço meteorológico previa 38°C para aquele mesmo dia, após uma noite de tempestades que deixou 29.074 raios em 24 horas. As inundações que se seguiram prejudicaram os trens, bloqueando acessos ao aeroporto de Heathrow. Alemanha, Espanha, Bélgica e Polônia enfrentavam consequências semelhantes.
O fenômeno por trás dessa devastação é bem compreendido pelos meteorologistas: um domo de calor — uma área de alta pressão estacionada sobre o continente que funciona como uma tampa sobre uma panela. Quando o ar fica preso sob essa pressão, não consegue subir e formar nuvens. Sem nuvens, a luz solar bate diretamente no solo dia após dia, aquecendo-o continuamente. A agência meteorológica francesa explica que esses sistemas também bloqueiam frentes de chuva, deixando o ar cada vez mais quente e seco.
Mas o que torna este ano particularmente grave é a combinação de fatores. Cientistas apontam um El Niño especialmente forte — que especialistas alertavam há mais de um mês que poderia provocar crises globais — trabalhando em conjunto com uma massa de água fria no Atlântico Norte. Juntos, esses elementos criam uma ondulação na corrente de jato sobre o oceano, favorecendo a persistência da alta pressão sobre a Europa. William Henneberg, meteorologista da Commodity Weather Group, descreveu o padrão como muito incomum e alertou que provavelmente persistiria, mantendo temperaturas acima da média até o início de julho.
Os alertas vermelhos se multiplicavam. Partes do sul do Reino Unido receberam um raro alerta vermelho válido de quarta a quinta-feira, com previsões de até 40°C. Quase toda a Espanha estava sob alerta de calor, com o País Basco — onde esse calor extremo é relativamente raro — enfrentando 40°C à sombra. A Polônia esperava 38°C em Varsóvia e até 41°C na região da Baixa Silésia, o que seria um recorde histórico para domingo. Autoridades em todo o continente chamaram atenção para o fato de que temperaturas comuns a desertos africanos estavam sendo registradas no coração da Europa.
O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, aproveitou um evento da Semana de Ação Climática em Londres para fazer um apelo direto. Ele conectou a crise climática à dependência global de combustíveis fósseis, descrevendo uma atmosfera cada vez mais quente empurrando o planeta para pontos de ruptura catastróficos. "Londres não está apenas dando um aviso. Ela está fervendo", disse.
Cientistas confirmam que embora sistemas de alta pressão façam parte da variabilidade natural do clima, as mudanças climáticas estão aumentando tanto a frequência quanto a intensidade de eventos extremos. Hannah Cloke, professora de Meteorologia e Ciência do Clima da Universidade de Reading, explicou que uma atmosfera mais quente funciona como um "trampolim térmico" — a temperatura inicial mais elevada desencadeia ondas de calor com mais facilidade. Além disso, padrões persistentes de bloqueio por alta pressão podem se desenvolver com mais frequência, permitindo que o clima variável britânico fique preso em uma mesma configuração por mais tempo, acumulando calor.
As consequências humanas foram imediatas e devastadoras. Dois irmãos de 2 e 4 anos foram encontrados sem vida dentro do carro da família em Carpentras na segunda-feira. Três idosos morreram em suas casas no sudoeste da França. Pelo menos 40 mortes por afogamento foram registradas na França e cinco na Alemanha — o primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, mencionou esses afogamentos como um efeito indireto da crise climática, já que pessoas desesperadas procuravam qualquer corpo d'água para se refrescar, desde fontes em parques até canais urbanos.
Autoridades adotaram medidas de prevenção. No Reino Unido, pelo menos 312 escolas foram fechadas. Em Madri, a prefeitura abriu "abrigos climáticos" para pessoas em situação de rua e vulneráveis durante as horas de mais calor, oferecendo água, alimentos e instalações de higiene. Recomendações foram emitidas para grupos de risco — crianças, idosos, gestantes e doentes crônicos — para que se mantivessem hidratados e evitassem deslocamentos. Mas as medidas chegavam tarde demais para muitos.
Notable Quotes
Uma crise climática está nos empurrando cada vez mais para temperaturas mais altas e para mais perto de pontos de ruptura catastróficos— Antonio Guterres, secretário-geral da ONU
Uma atmosfera mais quente está funcionando como uma espécie de trampolim térmico, em que a temperatura inicial mais elevada desencadeia ondas de calor com mais facilidade— Hannah Cloke, professora de Meteorologia e Ciência do Clima da Universidade de Reading