O real teve desempenho inferior aos pares em dia de cautela dos investidores, com fluxo de saída da bolsa e incertezas sobre negociações de paz no Oriente Médio. Pesquisa Datafolha mostrou enfraquecimento de Flávio Bolsonaro, com Lula abrindo 9 pontos de vantagem no primeiro turno, elevando peso de fatores políticos locais na taxa de câmbio.
Dólar sobe 0,54% em dia de tensão geopolítica e Fed, mas recua 0,78% na semana
O mercado está em cima do muro, sem disposição para assumir mais riscos
Por que o dólar subiu nesta sexta se o real está tendo um ano tão bom?
O movimento de hoje foi mais sobre o que aconteceu lá fora e aqui dentro ao mesmo tempo. O Fed ficou mais duro sobre inflação, o que fortalece o dólar globalmente. Mas o real especificamente sofreu porque investidores começaram a sair da bolsa brasileira e porque a pesquisa Datafolha mostrou Flávio Bolsonaro enfraquecido.
Espera — o real está em alta de 8,39% no ano, mas o dólar subiu 0,54% em um dia. Isso não é contraditório? O que exatamente mudou?
Não é contraditório porque estamos falando de períodos diferentes. No ano, o real se valorizou muito. Mas esta semana e especialmente hoje, o dólar ganhou espaço. É como um jogador que está ganhando a temporada mas perdeu o último jogo.
E o que a pesquisa Datafolha tem a ver com câmbio?
Tudo. Se Flávio Bolsonaro enfraquece, aumenta a chance de Lula vencer e continuar com uma política fiscal mais expansionista. Isso afasta investidores estrangeiros, que saem da bolsa e precisam de dólares para sair do país.
Mas a pesquisa mostrou que Flávio está em empate técnico no segundo turno. Os operadores realmente acham que ele vai perder?
Não sabem. Por isso o mercado está "em cima do muro", como disse um analista. Flávio caiu, mas não desabou. Alguns acham que ele pode se recuperar, outros que pode aparecer um terceiro candidato mais ao centro.
E o Federal Reserve nisto tudo?
O Fed está preocupado com inflação e sinalizando juros mais altos por mais tempo. Isso torna os ativos americanos mais atraentes, então investidores globais preferem dólares a moedas de países emergentes como o Brasil.
Mas o Warsh, novo presidente do Fed, disse que inflação pode ser mais baixa. Isso não deveria enfraquecer o dólar?
Deveria, mas o mercado não acreditou muito. O Christopher Waller, diretor do Fed, foi mais duro, falando em possibilidade de aumento de juros se a inflação não ceder. E há petróleo caro mantendo pressão nos preços.
Qual é o cenário para as próximas semanas?
Depende de duas coisas: se há acordo entre EUA e Irã sobre o programa nuclear, o que acalmaria o petróleo, e como o mercado interpreta a política doméstica. Se Lula consolidar vantagem, o real pode sofrer mais.
Mas você disse que os dois pilares do real — comércio exterior e carry trade — seguem em pé. Por que então o pessimismo?
Porque esses pilares podem não ser suficientes se o dólar ficar muito forte globalmente e se a incerteza política doméstica aumentar. É uma questão de peso relativo.
Il Polso
- Dólar fechou em alta de 0,54% a R$ 5,0282 na sexta-feira, 22 de maio
- Real recuou 0,78% na semana, apesar de acumular valorização de 8,39% no ano
- Pesquisa Datafolha mostrou Lula com 40% e Flávio Bolsonaro com 31% no primeiro turno
- Ibovespa recuou 0,61% na semana e acumula sexta semana consecutiva no campo negativo
- DI para janeiro de 2027 subiu para máxima intradia de 14,115%
O real teve desempenho inferior aos pares em dia de cautela dos investidores, com fluxo de saída da bolsa e incertezas sobre negociações de paz no Oriente Médio. Pesquisa Datafolha mostrou enfraquecimento de Flávio Bolsonaro, com Lula abrindo 9 pontos de vantagem no primeiro turno, elevando peso de fatores políticos locais na taxa de câmbio.
O dólar fechou em alta de 0,54% a R$ 5,02 nesta sexta, impulsionado por tensões no Oriente Médio e sinais mais duros do Federal Reserve sobre inflação, mas recuou 0,78% na semana.
Na sexta-feira, 22 de maio, o dólar encerrou a sessão em alta de 0,54%, cotado a R$ 5,0282, enquanto investidores adotavam uma postura defensiva na véspera do fim de semana. Apesar do ganho do dia, a moeda americana recuou 0,78% ao longo da semana — um movimento que reflete a tensão entre pressões externas e domésticas sobre a economia brasileira.
Dois fatores principais impulsionaram o comportamento do câmbio. No exterior, dirigentes do Federal Reserve adotaram tom mais duro sobre inflação, com o diretor Christopher Waller reforçando a possibilidade de juros mais altos por mais tempo nos Estados Unidos. Kevin Warsh, empossado como novo presidente do banco central americano nesta sexta, sinalizou que a inflação pode ser mais baixa e o crescimento mais forte, mas manteve a preocupação com pressões de preços. Simultaneamente, dúvidas sobre o progresso nas negociações de paz no Oriente Médio levaram investidores a buscar proteção na moeda norte-americana. O real, porém, teve desempenho inferior ao de seus pares — o dólar australiano e o canadense se comportaram melhor — um sinal de que fatores locais começavam a pesar.
Em casa, a pesquisa Datafolha divulgada no meio da tarde trouxe um novo elemento ao cenário político. O levantamento mostrou que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) perdeu fôlego após a revelação de que havia pedido recursos ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para financiar uma cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. No primeiro turno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu 9 pontos de vantagem sobre Flávio: 40% contra 31%. Sessenta e quatro por cento dos entrevistados disseram ter ouvido falar do caso, e igual percentual achou que Flávio agiu mal. Ainda assim, em simulação de segundo turno, ambos aparecem tecnicamente empatados, com Lula em 47% e Flávio em 43%.
Operadores atribuíram o enfraquecimento do real não apenas às falas do Fed, mas também a um possível fluxo de saída da bolsa doméstica e ao redesenho do quadro eleitoral. Eduardo Aun, gestor de fundos multimercados da AZ Quest, observou que o real passou a ter desempenho inferior aos pares após o episódio político, sugerindo aumento do peso de fatores locais na formação da taxa de câmbio. "A questão eleitoral está muito ligada à perspectiva de manutenção da política fiscal atual, que não garante a sustentabilidade da dívida pública", afirmou Aun. Apesar da retração de Flávio, operadores ouvidos pela Broadcast avaliaram que o quadro momentâneo de fraqueza ainda não autoriza apostas em naufrágio da candidatura do senador.
O contexto global, porém, permanece desafiador para o real. Apesar de já avançar 1,52% em maio, a moeda americana ainda acumula desvalorização de 8,39% no ano em relação ao real — o que coloca a moeda brasileira entre as três divisas com maiores ganhos no período, ao lado do novo shekel israelense e do rublo russo. Pares latino-americanos como os pesos mexicano e chileno exibem apreciação bem mais modesta, entre 2% e 3%. Aun destacou que dois pilares de sustentação do real — a melhora da balança comercial com a alta dos preços do petróleo e a atratividade do carry trade na esteira de cortes modestos da taxa Selic — seguem em pé. A dúvida é como a moeda brasileira vai reagir nos próximos meses diante de um possível cenário desfavorável à oposição na corrida presidencial e de fortalecimento global da moeda americana.
No mercado de ações, o Ibovespa conseguiu acomodar as perdas abaixo de 1% no fechamento, acima dos 176 mil pontos, após ter flertado com o nível dos 174 mil na mínima do dia. Apesar da contenção do ajuste, o índice não evitou nova retração na semana de 0,61% — a sexta semana consecutiva no campo negativo. Em maio, o Ibovespa recua 5,93%, limitando o avanço do ano a 9,36%. Nomes do setor metálico se desgarraram da correção, com destaque para CSN (ON +6,15%) e Usiminas (PNA +5,61%), enquanto Petrobras (ON -0,30%, PN -1,05%) e bancos como Itaú (PN -1,72%) e Santander (Unit -1,78%) tiveram dia majoritariamente negativo.
Nos juros futuros, a sessão foi de oscilações contidas e baixo apetite por risco. O contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 subiu de 14,043% no ajuste anterior para máxima intradia de 14,115%. O DI para janeiro de 2029 teve alta a 13,895%, enquanto o DI para janeiro de 2031 registrou tímida queda, de 14,012% para 14%. Marcos Praça, diretor de análise da Zero Markets Brasil, afirmou que o mercado estava "em cima do muro", sem disposição para assumir mais riscos antes do fim de semana e do feriado do Memorial Day nos Estados Unidos na segunda-feira. "Claramente o mercado não quis assumir mais riscos", disse Praça. Profissionais de renda fixa avaliaram que o levantamento do Datafolha trouxe dois lados para o cenário eleitoral, mas que parece ter preponderado o "positivo" — sinalizando maior probabilidade de uma transição de governo em 2027 rumo a uma agenda mais fiscalista. O bloqueio de R$ 23,7 bilhões no Orçamento, acima do esperado, também foi monitorado pelo mercado, contribuindo para o comportamento dos ativos de risco.
Citazioni salienti
A questão eleitoral está muito ligada à perspectiva de manutenção da política fiscal atual, que não garante a sustentabilidade da dívida pública— Eduardo Aun, gestor de fundos multimercados da AZ Quest
Claramente o mercado não quis assumir mais riscos— Marcos Praça, diretor de análise da Zero Markets Brasil