Dois brasileiros do 11/9 permanecem fora da lista oficial de mortos

Dois brasileiros desapareceram nos ataques de 11 de Setembro e nunca foram oficialmente reconhecidos como mortos, deixando famílias sem encerramento ou possibilidade de luto formal.
É muito difícil encarar uma morte sem um cadáver para enterrar
Pai de vítima oficialmente reconhecida reflete sobre o luto sem encerramento nos ataques de 11 de Setembro.
Mark

Por que esses dois nomes não entraram na lista oficial se havia evidência de que estavam lá?

Mimi

No caso de Nilton, a família recebeu formulários para fornecer DNA, mas nunca os enviou. Com Claudino, a situação é ainda mais complexa — sua família nem sabia que ele estava nos EUA.

Luke

Mas a questão é: como sabemos que eles estavam lá? Para Nilton, temos um email dele do 108º andar. Para Claudino, temos apenas o relato de um primo sobre trabalho no World Trade Center.

Mimi

Verdade. Não há confirmação de que ambos estavam nos edifícios no momento dos ataques. É por isso que nunca entraram na lista oficial.

Mark

E agora, com essa técnica de genealogia genética, seria possível identificá-los?

Luke

Teoricamente sim, se houvesse restos mortais que pudessem ser associados a eles. Mas sem amostras de DNA familiar, fica muito mais difícil.

Mimi

O OCME tem 47 perfis de DNA sem correspondência. Nilton e Claudino poderiam estar entre eles, mas sem amostras familiares para comparação, é impossível saber.

Mark

Então a privacidade da família de Nilton, ao não fornecer DNA, pode ter deixado seu desaparecimento permanentemente sem resolução?

Mimi

Sim. E no caso de Claudino, a família nunca soube que ele estava lá para ser procurado.

Luke

O que nos leva a uma pergunta maior: quantas outras pessoas podem estar nesse vazio entre a evidência de presença e o reconhecimento oficial?

Mark

Exatamente. Dois nomes que sabemos, mas quantos mais podem estar invisíveis?

Mimi

É por isso que o trabalho do OCME continua, vinte e cinco anos depois.

  • Nilton Cunha, engenheiro de 41 anos, estava no 108º andar da torre norte do World Trade Center
  • Claudino Braga, 48 anos, havia entrado ilegalmente nos EUA e trabalhava como engraxate no World Trade Center
  • Nenhum dos dois consta na lista oficial de 2.753 vítimas reconhecidas em Nova York
  • O OCME ainda tem 47 perfis de DNA de restos mortais sem correspondência familiar identificada
  • Vinte e cinco anos após os ataques, apenas 1.654 das 2.753 vítimas tiveram restos mortais identificados

Nilton Cunha, engenheiro capixaba de 41 anos, estava no 108º andar da torre norte do World Trade Center quando os ataques ocorreram, mas sua família nunca forneceu amostras de DNA. Claudino Braga, mineiro de 48 anos, havia entrado ilegalmente nos EUA e trabalhava como engraxate no World Trade Center; sua família nem sabia que ele estava nos Estados Unidos.

Nilton Cunha e Claudino Braga desapareceram em Nova York nos ataques de 11 de Setembro, mas nunca foram incluídos na lista oficial de 2.753 vítimas reconhecidas, apesar de evidências de que estavam no local.

Vinte e cinco anos após os ataques de 11 de Setembro, dois brasileiros que desapareceram em Nova York permanecem ausentes da lista oficial de mortos. Nilton Albuquerque Fernão Cunha e Claudino Antunes Braga não constam entre as 2.753 vítimas reconhecidas na cidade, nem têm seus nomes gravados no Memorial do 11 de Setembro. Suas histórias revelam uma lacuna persistente na documentação de um dos maiores desastres da história moderna — casos onde a evidência de presença é forte, mas a confirmação oficial nunca chegou.

Nilton Cunha era engenheiro capixaba de 41 anos que havia viajado a Nova York para uma semana de trabalho. Atuava de forma autônoma para empresas interessadas em importação de componentes eletrônicos e, dias antes dos ataques, escreveu em um email que estava "cem andares acima do solo" e conseguia sentir frio. Acredita-se que ele estava no 108º andar da torre norte, em um escritório de uma empresa japonesa. Tinha passagem de volta para o Brasil marcada para 12 de setembro de 2001. Filho único, deixaria a mãe, então com 72 anos, no Brasil. Um empresário que era cliente seu, Marcelo Chagas Menezes, comunicou seu desaparecimento ao Consulado do Brasil em Nova York. Autoridades americanas enviaram formulários para que a família fornecesse amostras de DNA para eventual identificação, mas a família nunca as enviou. Nilton nunca entrou na lista oficial.

Claudino Antunes Braga tinha uma história ainda mais invisível. Mineiro de 48 anos, morador da periferia de Belo Horizonte, havia entrado ilegalmente nos Estados Unidos pelo México algumas semanas antes dos ataques. Sua mulher e seus três filhos nem sequer sabiam que ele estava fora do país. Em seu último contato com um primo, contou que havia conseguido trabalho como engraxate no World Trade Center. Depois do ataque, não houve mais notícias. Seu nome também não aparece no memorial.

O Itamaraty afirmou à Folha que não dispõe de uma lista oficial de brasileiros mortos nos atentados e que cabe às autoridades americanas determinar as vítimas. Segundo a assessoria de imprensa do ministério, o Consulado-Geral em Nova York recebeu, ao longo de setembro de 2001, pedidos de busca por 93 brasileiros que não haviam entrado em contato com suas famílias após os ataques. Após buscas em hospitais, listas oficiais, empresas do World Trade Center e contatos com parentes e amigos, a maior parte foi localizada. No fim de setembro, apenas cinco nomes permaneciam na lista de brasileiros ainda não localizados. Os familiares desses cinco receberam assistência do consulado para fornecer amostras de DNA e eventual localização entre as vítimas, mas o ministério não revelou quem eram os cinco nem forneceu detalhes sobre a assistência prestada individualmente, sob argumento de preservar privacidade.

Três brasileiros, por outro lado, são oficialmente reconhecidos como mortos nos ataques: Ivan Kyrillos Fairbanks Barbosa, 30 anos; Anne Marie Sallerin Ferreira, 29 anos; e Sandra Fajardo Smith, 37 anos. Ivan e Anne Marie trabalhavam na Cantor Fitzgerald, empresa financeira nos andares mais altos da torre norte. Sandra era contadora da Marsh & McLennan, no 98º andar. No vigésimo aniversário dos ataques, em 2021, a Folha entrevistou o médico Ivan Fairbanks Barbosa, então com 80 anos, pai de Ivan Kyrillos. "É muito difícil encarar uma morte sem um cadáver para enterrar", disse. Ele contou que a família passou dias atrás de informações contraditórias sobre o filho, recebendo notícias erradas sobre hospitalizações que não existiam. Essa busca durou ao menos 15 dias.

Vinte e cinco anos depois dos ataques, o trabalho de identificação das vítimas ainda não terminou. O OCME, órgão de medicina legal de Nova York, conseguiu associar restos mortais a 1.654 das 2.753 vítimas oficialmente reconhecidas. Outras 1.099 fazem parte da lista de mortos, mas ainda não tiveram restos identificados. A identificação mais recente foi divulgada há cerca de duas semanas — uma mulher cuja identidade não foi revelada a pedido da família, e foi a primeira vítima identificada com ajuda da genealogia genética investigativa forense, a FIGG. A técnica cruza DNA extraído de restos mortais com perfis disponíveis em bancos de genealogia genética comerciais. Mesmo sem amostras de parentes próximos, coincidências com parentes distantes podem permitir a construção de árvores familiares e levar a uma provável identidade.

O OCME tem ainda 47 perfis de DNA obtidos de restos mortais do World Trade Center que não correspondem às amostras familiares de referência disponíveis. Segundo uma antropóloga forense do órgão ouvida recentemente pela ABC News, é nesse grupo que os investigadores concentram agora os esforços com a genealogia genética. Para Nilton Cunha e Claudino Braga, porém, nenhuma amostra de DNA familiar foi fornecida — um no caso de Nilton por decisão da família, no outro porque a família de Claudino nem sabia que ele estava nos Estados Unidos. Suas ausências da lista oficial permanecem, vinte e cinco anos depois, como um vazio que a tecnologia moderna talvez nunca possa preencher.

É muito difícil encarar uma morte sem um cadáver para enterrar
— Ivan Fairbanks Barbosa, pai de vítima oficialmente reconhecida
As comunicações foram interrompidas, aí chegavam informações erradas, como a de que Ivan estava no hospital x. Ligávamos no lugar e nada. Essa busca durou ao menos 15 dias, até que não havia mais informação para checar.
— Ivan Fairbanks Barbosa, sobre a busca por seu filho após os ataques
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