Distância, medo e vergonha dificultam prevenção do câncer cervical no Brasil

O Amazonas registra a maior incidência de câncer cervical no Brasil, com 28,57 casos por 100 mil mulheres, o dobro da média nacional.
Horas dentro de um barco para chegar a um exame
Mulheres das comunidades quilombolas do Amazonas enfrentam barreiras geográficas e econômicas para acessar rastreamento de câncer cervical.
Mark

Por que o Amazonas tem incidência tão alta de câncer cervical?

Mimi

O estado registra 28,57 casos por 100 mil mulheres, o dobro da média nacional. As barreiras de acesso — distância, custo de deslocamento, falta de infraestrutura — fazem com que muitas mulheres nunca façam o rastreamento.

Luke

Mas a fonte não explica se a incidência alta é por falta de rastreamento ou se há fatores biológicos ou epidemiológicos específicos da região. Pode ser que o Amazonas simplesmente detecte mais casos porque agora está começando a rastrear.

Mark

E como a autocoleta resolve isso?

Mimi

A mulher recebe o kit em casa, coleta a amostra sozinha, sem precisar sair. Elimina a vergonha, o medo de ser atendida por um homem, o custo de deslocamento.

Luke

Mas a fonte mostra que a autocoleta teve "maior adesão" em um estudo de 2014-2016. Maior do que quê? Maior que o papanicolau, sim, mas qual era a taxa absoluta de adesão? Não sabemos.

Mark

O teste de DNA-HPV é realmente tão melhor?

Mimi

Detecta infecção em 97% dos casos contra 70% do papanicolau. E permite espaçar exames para cinco anos, o que ajuda o sistema a alcançar quem nunca fez rastreamento.

Luke

Verdade, mas um resultado positivo não significa câncer. Precisa de investigação adicional — colposcopia, biópsia. A fonte menciona isso, mas não diz quantas mulheres com resultado positivo realmente recebem acompanhamento.

Mark

Qual é o impacto esperado?

Mimi

O ginecologista Julio Cesar Teixeira estima que evitará cerca de 350 mortes mensais. Mas ele prevê que esse impacto demore 2 a 3 anos para aparecer.

Luke

Essa é uma estimativa de um pesquisador envolvido no projeto. Não há dados de outros países ou modelos que validem esse número. É uma projeção, não um resultado observado.

Mark

Quando isso vai estar disponível em todo o Brasil?

Mimi

O Ministério da Saúde prevê implementação em toda a rede pública até dezembro de 2026. Apenas quatro estados ainda não adotaram: Acre, Alagoas, Espírito Santo e Mato Grosso.

Luke

Faltam apenas três meses para o prazo. A fonte foi publicada em setembro de 2026. Seria útil saber se esse prazo foi cumprido ou se houve atrasos.

  • Amazonas tem 28,57 casos de câncer cervical por 100 mil mulheres, o dobro da média nacional
  • DNA-HPV detecta infecção em 97% dos casos versus 70% do papanicolau
  • Programa de Indaiatuba testou 20.551 mulheres com cobertura de 77,8% da população-alvo
  • Mais de 150 mil coletas de DNA-HPV já realizadas no Brasil até setembro de 2026
  • Estimativa de 350 mortes mensais evitadas com antecipação de diagnósticos

Teste de DNA-HPV detecta infecção por HPV em 97% dos casos, versus 70% do papanicolau, permitindo intervalos de cinco anos entre exames. Autocoleta vaginal dispensa ida à unidade de saúde, superando barreiras como distância, custo e vergonha que afastam mulheres do rastreio.

Brasil adota teste de DNA-HPV em substituição ao papanicolau para rastreamento de câncer cervical, com autocoleta facilitando acesso em regiões remotas como o Amazonas, que tem maior incidência da doença no país.

No Amazonas, chegar a um exame de prevenção do câncer cervical pode significar horas dentro de um barco. Mulheres das comunidades quilombolas de Tambor, em Novo Airão, e São Benedito, em Manaus, enfrentam deslocamentos que consomem combustível, tempo e a necessidade de deixar filhos sob cuidados de terceiros — tudo isso para alcançar uma unidade básica de saúde. Foi observando essa realidade que a farmacêutica Valquíria do Carmo, aos 55 anos, começou a pensar em formas diferentes de levar diagnóstico até quem o sistema de saúde não consegue alcançar.

O desafio não é exclusivo da região Norte. Mulheres em todo o Brasil deixam passar anos sem fazer o rastreamento do câncer de colo do útero, mesmo estando na faixa etária de 25 a 64 anos, justamente aquela para a qual o Sistema Único de Saúde oferece esse serviço. Desde os anos 1980, o método padrão era o papanicolau, um exame que coleta células do colo do útero para identificar lesões causadas pelo HPV, o papilomavírus humano responsável por quase todos os casos dessa doença. Em 2025, o Ministério da Saúde mudou de rumo: recomendou o teste de DNA-HPV oncogênico como método preferencial, substituindo gradualmente o papanicolau. Esse novo teste identifica a presença de tipos de HPV de alto risco antes mesmo de qualquer alteração celular se desenvolver. Sua sensibilidade é notavelmente superior — detecta a infecção em 97% dos casos, enquanto o papanicolau não ultrapassa 70%. Um resultado negativo permite espaçar o próximo exame para cinco anos, em vez dos intervalos mais curtos anteriores.

Mas a mudança de método não resolve sozinha o problema do acesso. A diretriz do Ministério prevê que a amostra possa ser coletada pela própria mulher, em casa, dispensando a necessidade de ir até uma unidade de saúde. É nesse contexto que funciona a Rede Previna-se, iniciativa que reúne pesquisadores de várias regiões do Brasil para estudar o rastreamento a partir da autocoleta vaginal. Valquíria do Carmo integra esse grupo. No projeto, mulheres com falhas de rastreio recebem o kit de coleta em visita de agentes comunitários de saúde, que depois analisam o resultado e oferecem orientação. Entre agosto de 2025 e junho de 2026, a equipe incluiu 200 mulheres residentes no Amazonas — um estado que carrega o peso de ter a maior incidência de câncer cervical do país, com 28,57 casos para cada 100 mil mulheres, o dobro da média nacional.

Os estudos que fundamentam essa estratégia começaram em 2014, coordenados pela professora Márcia Consolaro, da Universidade Estadual de Maringá. Naquele projeto inicial, mulheres que não haviam feito rastreamento nos quatro anos anteriores foram divididas em três grupos: um recebeu papanicolau, outro fez autocoleta e um terceiro pôde escolher. A autocoleta teve maior adesão, sinalizando seu potencial. Consolaro também investigou por que as mulheres evitavam o preventivo. O medo de receber um diagnóstico de câncer apareceu como o principal motivo. Depois vieram a vergonha do exame, o receio de serem atendidas por um homem, a oposição do marido e questões religiosas. A enfermeira Sandra Palloso, que trabalha há mais de 30 anos na prevenção dessa doença, encontrou situações que ilustram essas barreiras de forma crua: uma mulher que usava tornozeleira eletrônica havia seis anos sem fazer o preventivo por ter vergonha do dispositivo de monitoramento.

Em Indaiatuba, São Paulo, um programa municipal implantado em 2017 em parceria com a Unicamp oferece um modelo de como integrar o novo teste ao sistema. Lá, o DNA-HPV foi adotado com acompanhamento das mulheres desde a convocação até o tratamento. Ao todo, 20.551 mulheres foram testadas, alcançando 77,8% da população-alvo. O programa identificou 258 lesões precursoras de alto grau e 29 casos de câncer — 83% deles em estágio 1, quando o tratamento é mais efetivo. Enfermeiros foram treinados para fazer a coleta e registrar cada etapa, evitando que uma mulher desaparecesse do sistema após um resultado positivo. Esse modelo se tornou referência para a mudança nacional.

Segundo o Ministério da Saúde, mais de 150 mil coletas de DNA-HPV já foram realizadas no Brasil. O objetivo é levar o novo método a toda a rede pública até dezembro de 2026, com apenas quatro estados ainda fora dessa transição: Acre, Alagoas, Espírito Santo e Mato Grosso, onde o papanicolau permanece. Um resultado positivo de DNA-HPV não significa câncer — a equipe de saúde deve verificar se há lesão e definir os próximos passos, que podem incluir papanicolau, colposcopia ou biópsia. Flávia Miranda Corrêa, consultora médica da Fundação do Câncer, ressalta que nenhum teste é perfeito: "Não adianta fazer rastreamento se você não tem uma linha de cuidado para investigar e tratar quem tiver resultado positivo."

O ginecologista Julio Cesar Teixeira, professor da Unicamp que coordena pesquisa sobre o DNA-HPV no SUS desde 2017, estima que a antecipação de diagnósticos evitará cerca de 350 mortes mensais por câncer cervical no Brasil. Ele prevê que o impacto sobre a mortalidade poderia começar a aparecer de 2 a 3 anos após a implantação do novo método. Teixeira defende que o intervalo de cinco anos após um resultado negativo ajuda o sistema a alcançar mulheres que hoje ficam fora do rastreamento. "Em vez de concentrar recursos em exames repetidos de mulheres que já tiveram resultado negativo, a estratégia permite buscar quem nunca fez o teste ou está há anos sem realizá-lo." É uma mudança que reconhece uma verdade simples: o melhor exame é aquele que a mulher realmente faz.

O principal motivo apontado foi o medo de receber um diagnóstico de câncer. Em seguida, apareceram a vergonha do exame e o receio de serem atendidas por um homem.
— Márcia Consolaro, professora da Universidade Estadual de Maringá
Não existe teste perfeito. Não adianta fazer rastreamento se você não tem uma linha de cuidado para investigar e tratar quem tiver resultado positivo.
— Flávia Miranda Corrêa, consultora médica da Fundação do Câncer
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