No coração do semiárido nordestino, um parasita silencioso vem se instalando nos corações de cães domésticos sem que seus tutores sequer suspeitem de sua existência. O Hospital Veterinário da UFERSA registrou 33 casos confirmados de dirofilariose canina em apenas três meses, revelando uma circulação preocupante de um verme transmitido por mosquitos que pode levar à insuficiência cardíaca antes de dar qualquer sinal. A ciência já dispõe de ferramentas para prevenir e diagnosticar a doença — o que ainda falta, como tantas vezes na história da saúde pública, é que o conhecimento chegue a tempo às
Dirofilariose canina acende alerta em Mossoró; UFERSA registra 18 casos em três meses
O desconhecimento da doença ainda representa um dos maiores obstáculos
Por que essa doença está aparecendo agora em Mossoró? É realmente um aumento ou apenas melhor detecção?
Provavelmente é uma combinação. O clima semiárido da região favorece mosquitos transmissores, e agora temos equipamento de diagnóstico mais sensível na UFERSA. Mas o fato de 18 casos em três meses é um número que não pode ser ignorado.
Se muitos cães não mostram sintomas, como um tutor sabe que precisa levar o animal para exame?
Aí está o problema. Sem sintomas visíveis, a maioria não leva. Por isso os especialistas insistem em exames periódicos — é a única forma de pegar a doença antes que o coração seja danificado irreversivelmente.
A coleira repelente é realmente eficaz?
Segundo os professores, sim, mas precisa ser usada consistentemente. O desafio é que muitos tutores não sabem que precisam fazer isso porque desconhecem a doença inteiramente.
E se o teste rápido der negativo mas o cão estiver infectado?
Acontece. Por isso o exame de imagem é tão importante. Um teste negativo não significa que o animal está seguro — é preciso confirmar com ecocardiografia para ter certeza.
Qual é o maior obstáculo para controlar essa doença?
O desconhecimento. Não é falta de tratamento ou tecnologia. É que a maioria dos tutores nunca ouviu falar em dirofilariose, então não previne, não examina, e o parasita continua circulando.
El Pulso
- Em apenas três meses, 33 cães foram confirmados com dirofilariose em Mossoró, número que surpreende até os especialistas e sugere circulação ativa do parasita na região.
- O perigo maior está no silêncio da doença: o verme pode habitar o coração do animal por anos sem sintomas, tornando o diagnóstico tardio quase uma regra entre tutores desinformados.
- Testes rápidos de sangue se mostram insuficientes — apenas a combinação com ecocardiografia revela com segurança a presença dos parasitas adultos nas artérias pulmonares.
- A maioria dos tutores desconhece completamente a existência da dirofilariose, criando um vácuo de prevenção que nenhuma coleira repelente ou dedetização pode preencher sozinha.
- A UFERSA mobiliza pesquisadores, parcerias interinstitucionais e uma palestra nacional prevista para agosto, sinalizando que a resposta científica está em curso — mas a corrida contra o mosquito ainda não foi vencida.
No coração do semiárido nordestino, um parasita silencioso vem se instalando nos corações de cães domésticos sem que seus tutores sequer suspeitem de sua existência. O Hospital Veterinário da UFERSA registrou 33 casos confirmados de dirofilariose canina em apenas três meses, revelando uma circulação preocupante de um verme transmitido por mosquitos que pode levar à insuficiência cardíaca antes de dar qualquer sinal. A ciência já dispõe de ferramentas para prevenir e diagnosticar a doença — o que ainda falta, como tantas vezes na história da saúde pública, é que o conhecimento chegue a tempo às mãos de quem cuida.
Nos últimos três meses, o Hospital Veterinário da Universidade Federal Rural do Semi-Árido identificou 18 casos de dirofilariose canina por ecocardiografia e outros 15 por testes laboratoriais na Clínica Médica — totalizando 33 diagnósticos confirmados entre cerca de 385 atendimentos. Os números acendem um alerta para tutores de cães em Mossoró e região, onde a doença circula de forma silenciosa e ainda pouco conhecida.
O responsável pela enfermidade é o Dirofilaria immitis, verme que se instala no coração e nas artérias pulmonares dos cães após a picada de mosquitos infectados dos gêneros Aedes, Culex, Anopheles e Ochlerotatus. O aspecto mais traiçoeiro da doença é sua longa fase assintomática: muitos animais só apresentam tosse persistente, fadiga, dificuldade respiratória e emagrecimento quando a infecção já está avançada, podendo evoluir para insuficiência cardíaca e desmaios.
O veterinário João Marcelo destaca que o diagnóstico seguro exige mais do que um simples exame de sangue. Testes rápidos podem falhar em infecções leves ou em estágios específicos da doença, tornando a ecocardiografia indispensável para visualizar os parasitas adultos e avaliar possíveis danos cardíacos. A combinação dos dois métodos é hoje o padrão adotado pela instituição.
Na frente da prevenção, as professoras Nilza Dutra Alves e Ana Carla Diógenes Suassuna Bezerra apontam caminhos práticos — coleiras repelentes, eliminação de água parada, dedetizações periódicas — mas reconhecem o obstáculo central: a maioria dos tutores sequer sabe que a doença existe. Sem essa consciência, nenhuma medida preventiva é adotada.
A UFERSA já acumula pesquisas sobre o tema, incluindo uma dissertação de mestrado concluída, e mantém parceria com a Universidade Federal Rural de Pernambuco. Em agosto, o professor Leucio Alves, referência nacional no assunto, ministrará uma palestra na instituição. Embora a dirofilariose tenha tratamento, ele é complexo e exige acompanhamento rigoroso — razão pela qual especialistas reforçam que prevenir, examinar periodicamente e diagnosticar cedo continuam sendo as melhores armas contra o avanço da doença na região.
Nos últimos três meses, o Hospital Veterinário da Universidade Federal Rural do Semi-Árido registrou 18 diagnósticos confirmados de dirofilariose canina — uma doença parasitária que infecta o coração dos cães e permanece amplamente desconhecida entre tutores da região. Entre abril e junho de 2026, esses casos surgiram entre 185 exames de ecocardiografia realizados pela instituição. A Clínica Médica da mesma universidade identificou outros 15 cães positivos para microfilárias em aproximadamente 200 atendimentos, detectados por testes rápidos e exames laboratoriais. Embora o Brasil ainda não exija notificação compulsória da doença, esses números acendem um alerta para proprietários de animais de estimação em Mossoró e arredores.
O verme Dirofilaria immitis, causador da enfermidade, se aloja principalmente no coração e nas artérias pulmonares dos cães. A transmissão ocorre através da picada de mosquitos infectados — particularmente espécies dos gêneros Aedes, Culex, Anopheles e Ochlerotatus. Um dos aspectos mais perigosos da doença é sua capacidade de permanecer silenciosa. Muitos animais não apresentam sinais clínicos durante meses ou até anos. Quando os sintomas finalmente emergem, incluem tosse persistente, fadiga anormal, dificuldade respiratória, emagrecimento e, nos casos mais graves, insuficiência cardíaca e desmaios.
Segundo João Marcelo, médico-veterinário responsável pelos registros no hospital, o diagnóstico exige mais do que testes de sangue convencionais. "O exame de imagem é fundamental. Ele permite visualizar o verme adulto no coração e nas artérias pulmonares, além de mostrar se o animal já apresenta hipertensão pulmonar", explica. Essa abordagem dupla — teste laboratorial associado a ecocardiografia — tornou-se essencial porque os testes rápidos nem sempre identificam todos os casos. Animais com infecções leves ou em estágios específicos da doença podem apresentar resultado negativo no teste enquanto a imagem revela claramente a presença dos parasitas.
A prevenção permanece como a estratégia mais eficiente. Nilza Dutra Alves, professora envolvida no trabalho, recomenda o uso de coleiras repelentes para manter os mosquitos transmissores afastados dos cães. As mesmas medidas adotadas contra o mosquito da dengue — manter ambientes limpos, eliminar água parada, realizar dedetizações periódicas — reduzem significativamente o risco de transmissão. Porém, Ana Carla Diógenes Suassuna Bezerra, outra professora da instituição, identifica um obstáculo fundamental: a maioria dos tutores desconhece completamente a existência da doença, suas formas de transmissão e, consequentemente, não adota qualquer medida preventiva.
A UFERSA já desenvolveu pesquisas aprofundadas sobre o tema, incluindo uma dissertação de mestrado concluída, e mantém parceria com pesquisadores da Universidade Federal Rural de Pernambuco. Em agosto, o professor Leucio Alves, referência nacional em dirofilariose canina, ministrará uma palestra na instituição abordando o panorama atual de transmissão e prevenção. Embora a doença seja tecnicamente uma zoonose — capaz de infectar humanos — a transmissão em pessoas é extremamente rara. Ainda assim, a circulação do parasita entre cães reforça a urgência do controle de mosquitos e da vigilância animal. Os especialistas alertam que, embora a dirofilariose possua tratamento, ele é complexo e exige acompanhamento veterinário rigoroso. Por isso, a prevenção contínua, exames periódicos e o diagnóstico precoce permanecem como as principais defesas para proteger os cães e conter a circulação da doença na região.
Citas Notables
O exame de imagem é fundamental. Ele permite visualizar o verme adulto no coração e nas artérias pulmonares, além de mostrar se o animal já apresenta hipertensão pulmonar.— João Marcelo, médico-veterinário da UFERSA
A forma de prevenção mais eficiente é utilizar coleira repelente para manter afastado do animal o mosquito transmissor.— Nilza Dutra Alves, professora da UFERSA