Direita supera esquerda na identificação dos brasileiros, aponta Datafolha

27% dos petistas se identificam com a direita
A pesquisa revela incongruências profundas entre identificação ideológica e lealdade política partidária.

Em dezembro de 2025, o Datafolha mapeou o espectro ideológico de mais de dois mil brasileiros e encontrou não uma nação polarizada em dois blocos nítidos, mas um território de identidades fluidas e paradoxais. A direita lidera a autoclassificação com 35%, enquanto a esquerda reúne 22% — mas esses números se dissolvem quando confrontados com a realidade partidária: petistas que se dizem de direita, bolsonaristas que se reconhecem na esquerda. O retrato sugere que, no Brasil contemporâneo, as categorias herdadas da política moderna já não conseguem conter a complexidade das lealdades e das rejeições que moldam o cidadão comum.

  • A direita avança na autoimagem dos brasileiros, reunindo 46% quando somada à centro-direita, contra 29% do campo progressista — uma assimetria que redesenha o equilíbrio político nacional.
  • A tensão se aprofunda nas contradições internas: quase um terço dos petistas se declara de direita, enquanto um em cada dez bolsonaristas se identifica com a esquerda, revelando uma crise de coerência ideológica.
  • Lula é apontado por 9% dos entrevistados como a maior liderança da direita — número superior ao de Tarcísio de Freitas e Michelle Bolsonaro —, enquanto 5% enxergam Bolsonaro como referência da esquerda.
  • O fenômeno aponta para uma fragmentação em curso: as etiquetas ideológicas parecem funcionar mais como marcadores de identidade tribal do que como bússolas de princípios políticos consistentes.

Uma pesquisa do Datafolha divulgada em dezembro de 2025 traçou um mapa ideológico do Brasil que desafia as categorias convencionais. Ouvindo 2.002 pessoas em 113 municípios, o levantamento mostrou que 35% dos brasileiros se identificam com a direita e apenas 22% com a esquerda, com 17% no centro e 8% sem resposta definida. Quando os grupos intermediários são somados, o quadro se acentua: 46% se posicionam entre direita e centro-direita, contra 29% entre esquerda e centro-esquerda.

O cenário muda de figura quando a pergunta deixa de ser sobre espectro político e passa a ser sobre lideranças. Quarenta por cento dos entrevistados se declararam petistas e 34% bolsonaristas — uma inversão em relação à autoclassificação ideológica. Mais revelador ainda: 27% dos que se dizem petistas afirmaram identificar-se com a direita, e 11% dos bolsonaristas disseram pertencer à esquerda.

Essas contradições se estendem à percepção das lideranças. Nove por cento dos participantes apontaram Lula como a principal referência da direita brasileira — percentual superior ao de Tarcísio de Freitas (5%) e Michelle Bolsonaro (2%). No sentido oposto, 5% indicaram Bolsonaro como maior liderança da esquerda. O conjunto dos dados sugere que a identidade política dos brasileiros está menos fundada em princípios coerentes e mais ancorada em pertencimentos afetivos e rejeições, sinalizando que esquerda e direita podem ter adquirido significados próprios e distintos no imaginário popular do país.

Uma pesquisa do Datafolha divulgada na quinta-feira revelou um mapa ideológico do Brasil que desafia as categorias tradicionais. Quando perguntados sobre sua posição no espectro político, 35% dos brasileiros se identificam com a direita, enquanto apenas 22% dizem ter afinidade com a esquerda. O levantamento, que ouviu 2.002 pessoas com 16 anos ou mais em 113 municípios entre 2 e 4 de dezembro, apresenta uma margem de erro de dois pontos percentuais.

O quadro se complica quando se observam as posições intermediárias. Dezessete por cento dos entrevistados se colocam no centro do espectro político, 11% se identificam com a centro-direita, e 7% com a centro-esquerda. Oito por cento não souberam responder. A pesquisa utilizou uma escala de 1 a 7, onde 1 representa a extrema esquerda e 7 a extrema direita. Aqueles que marcaram 5, 6 ou 7 foram agrupados como mais próximos da direita, enquanto os que escolheram 1, 2 ou 3 foram classificados como esquerda, e o 4 como centro.

Quando esses grupos são consolidados, o deslocamento ideológico fica mais evidente: 46% dos brasileiros se posicionam entre direita e centro-direita, contra apenas 29% que se colocam entre esquerda e centro-esquerda. Essa distribuição sugere uma reconfiguração significativa do mapa político nacional, com a direita ampliando sua base de identificação.

Mas a pesquisa revelou algo ainda mais intrigante quando mudou de perspectiva. Ao perguntar aos entrevistados sobre sua identificação em relação aos dois principais polos políticos do país — o ex-presidente Jair Bolsonaro e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva — os números se inverteram. Quarenta por cento se declararam petistas, enquanto 34% se posicionaram como apoiadores de Bolsonaro. Dezoito por cento se colocaram na faixa de neutros, 6% disseram não apoiar nenhum deles, e 1% não soube responder.

Essas duas formas de medir a identificação política revelam incongruências profundas. Vinte e sete por cento dos entrevistados que se declaram petistas afirmaram se identificar com a direita. No sentido oposto, 11% dos que se declaram bolsonaristas disseram se identificar com a esquerda. Essas contradições sugerem que muitos brasileiros não entendem a ideologia da mesma forma que as elites políticas, ou que as categorias tradicionais de esquerda e direita não capturam adequadamente as divisões políticas reais do país.

Essas confusões ideológicas aparecem também quando se pergunta sobre lideranças políticas. Nove por cento dos participantes apontaram o presidente Lula como a principal liderança da direita — um percentual superior ao atribuído ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, citado por 5%, e à ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, mencionada por 2%. No sentido inverso, 5% dos entrevistados indicaram Bolsonaro como a maior liderança da esquerda. Esses dados sugerem que a identificação ideológica dos brasileiros está menos ancorada em princípios políticos coerentes e mais fragmentada, refletindo talvez uma rejeição às categorias tradicionais ou uma compreensão distinta do que significam esquerda e direita no contexto brasileiro atual.

27% dos entrevistados que se dizem petistas afirmaram se identificar com a direita
— Datafolha
9% dos participantes apontaram o presidente Lula como a principal liderança da direita
— Datafolha
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Como explicar que 27% dos petistas se identifiquem com a direita? Isso não é contraditório?

Model

Não necessariamente. Muitos eleitores votam em um candidato ou partido por razões práticas — economia local, saúde, segurança — sem que isso signifique que adotem toda a plataforma ideológica. A direita e a esquerda como conceitos abstratos podem não fazer muito sentido para quem vive fora das bolhas políticas.

Inventor

E quando 9% dos entrevistados apontam Lula como liderança da direita? Como isso é possível?

Model

Sugere que as pessoas estão usando "direita" e "esquerda" para significar coisas muito diferentes do que os analistas políticos entendem. Talvez para alguns, "direita" signifique autoridade, ordem, ou até pragmatismo econômico — qualidades que veem em Lula independentemente de seu histórico no PT.

Inventor

A pesquisa mostra fragmentação ou apenas confusão?

Model

Provavelmente ambas. Há fragmentação real — 46% na direita e centro-direita contra 29% na esquerda e centro-esquerda. Mas há também confusão genuína sobre o que essas palavras significam. O Brasil pode estar em um momento em que as categorias ideológicas tradicionais estão perdendo poder explicativo.

Inventor

O que isso significa para a política prática?

Model

Significa que candidatos e partidos não podem contar com lealdades ideológicas automáticas. Precisam falar a linguagem das pessoas, não a linguagem dos manuais de política. E significa que coalizões políticas podem ser mais instáveis e menos previsíveis do que parecem.

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