Cuba enfrenta crise humanitária severa com apagões de até 40 horas, falta de medicamentos, cirurgias atrasadas e mortalidade infantil duplicada desde o bloqueio energético de Trump em maio. Governo aprovou 176 medidas econômicas abrindo espaço para setor privado, mas Díaz-Canel nega tratar-se de capitalismo, argumentando que principais meios de produção permanecem sob controle estatal.
Díaz-Canel nega capitalismo e afirma que Cuba 'está em pé e não se rende' sob bloqueio dos EUA
Aqui estamos, em pé, lutando, sem nos render
Como o senhor explica que, mesmo com todas essas reformas econômicas, Cuba ainda se chama socialista?
Porque os principais meios de produção continuam nas mãos do Estado, como representante do povo. Estamos em um processo de construção socialista, não em uma restauração capitalista. Há um Partido Comunista que controla e aplica essa reforma, há unidade da maioria do povo em torno desse partido, e há participação popular. Esses três elementos são a garantia de que não haverá restauração capitalista.
Mas o senhor não teme que, uma vez que o capitalismo se consolida, seja impossível voltar atrás?
Aqui é diferente porque o povo sabe o que a revolução significou em matéria de benefícios. Eles não permitiriam uma restauração. Além disso, estamos bloqueados. Se fôssemos capitalistas, estaríamos como nos anos 1950, com todas as nossas riquezas nas mãos de monopólios americanos. Era dependência total.
Quando o senhor fala em resistência indefinida, está pedindo ao povo que sofra indefinidamente?
Não temos alternativa senão resistir. Mas não é sofrimento sem propósito. É a defesa da dignidade, da soberania, da independência. Fidel nos ensinou que os reveses se transformam em vitória e que nenhum inimigo, por mais poderoso que seja, é invencível.
E se o povo não quiser mais resistir? Se preferir negociar, render-se?
A maioria desse povo está disposta a dar a vida pela Revolução e já demonstrou isso em outras ocasiões. Se trinta e dois combatentes cubanos deram a vida na Venezuela, o que milhões não fariam para defender a Revolução?
O senhor realmente acredita que há um genocídio em curso?
É uma avaliação perfeitamente correta. Construiu-se uma rede de sanções e pressões coercitivas que se transformam em um genocídio. Crianças estão morrendo porque não há medicamentos, porque não há energia para os hospitais. Essas são mortes que poderiam ter sido evitadas.
E se o mundo não intervir? Se permitir que isso continue?
Então o mundo estará sendo cúmplice. O que pode acontecer hoje com Cuba, e que já aconteceu na Venezuela e em Gaza, poderá acontecer com qualquer nação se permitirmos que o mundo se renda aos desígnios dessa administração.
El Pulso
- Em sete meses, apenas um navio com combustível chegou a Cuba; o país precisa de sete navios por mês
- Mortalidade infantil mais que dobrou; 64 mil crianças com imunização atrasada; 12 mil aguardando cirurgias
- Governo aprovou 176 medidas econômicas abrindo setor privado, mas Díaz-Canel nega tratar-se de capitalismo
- Apagões duram até 40 horas; país perdeu 1.400 megawatts de capacidade por falta de combustível
Cuba enfrenta crise humanitária severa com apagões de até 40 horas, falta de medicamentos, cirurgias atrasadas e mortalidade infantil duplicada desde o bloqueio energético de Trump em maio. Governo aprovou 176 medidas econômicas abrindo espaço para setor privado, mas Díaz-Canel nega tratar-se de capitalismo, argumentando que principais meios de produção permanecem sob controle estatal.
Em entrevista exclusiva, o líder cubano Miguel Díaz-Canel afirma que os EUA promovem um genocídio silencioso contra Cuba através de bloqueio energético e econômico, negando que reformas recentes representem guinada capitalista e reafirmando que o país não se renderá.
Miguel Díaz-Canel, aos 66 anos, governa Cuba em seu momento mais crítico. Desde maio, o bloqueio energético imposto pelo governo Trump cortou o fornecimento de combustível à ilha, deixando o país à beira do colapso. Em sete meses, apenas um navio carregando cem mil toneladas de petróleo bruto chegou a Cuba; o país precisa de sete navios por mês. Sem energia, faltam luz, água, transporte, alimentos e remédios. O lixo fica dias nas ruas. Os apagões duram vinte, trinta, às vezes mais de quarenta horas. Quando o sistema desliga completamente, a recuperação leva dias.
A crise humanitária é severa e mensurável. Há uma fila de espera com mais de noventa e oito mil pacientes aguardando cirurgias, entre eles doze mil crianças. Cento e dezessete mil pacientes com câncer não recebem tratamento oncológico; cerca de mil e duzentas delas são crianças. Mais de três mil pessoas enfrentam dificuldades para receber hemodiálise. Sessenta e quatro mil crianças têm seus esquemas de imunização atrasados—algo que nunca havia acontecido. A mortalidade infantil, que era de quatro a cinco mortes a cada mil nascidos vivos, mais que dobrou. Faltam medicamentos nos hospitais. Milhares de contêineres com alimentos, peças de reposição, sistemas fotovoltaicos e matérias-primas para produzir remédios estão presos em portos do mundo porque as companhias marítimas temem sanções americanas. Cuba consegue cobrir apenas trinta por cento de sua lista básica de medicamentos. Metade dos hotéis está fechada; vinte e sete mil trabalhadores do turismo foram afastados.
Diante dessa realidade, o governo cubano aprovou há dois meses um pacote de cento e setenta e seis medidas econômicas que abrem espaço para o setor privado de forma inédita. Empresários privados podem ter mais de dois negócios com mais de cem empregados. Ações podem ser negociadas livremente. Companhias estrangeiras podem explorar a terra por até noventa e nove anos. Em entrevista exclusiva à Folha em Havana, Díaz-Canel nega que essas reformas tragam capitalismo de volta a Cuba. "O povo não permitiria", disse ele. Afirma que as medidas buscam fortalecer a empresa estatal socialista e dar maior autonomia ao Estado, não representam concessão ao governo Trump. "Os EUA não têm moral para nos pedir nenhuma concessão, nem nós estamos dispostos a fazê-las."
O líder cubano caracteriza a situação como genocídio silencioso. Diz que os Estados Unidos promovem uma guerra multidimensional—ideológica, cultural, econômica e midiática—tentando asfixiar Cuba economicamente para provocar uma explosão social que leve à queda da Revolução. Compara a situação a Gaza, onde setenta mil palestinos, sessenta por cento deles mulheres e crianças, foram mortos. Alerta que o que acontece em Cuba pode acontecer com qualquer nação se o mundo permitir. Confrontado com críticas à burocracia interna e às restrições políticas, Díaz-Canel admite erros mas rejeita que sejam a causa central da crise. Insiste que o bloqueio é determinante. Sem ele, haveria combustível, não haveria apagões, haveria alimentos, Cuba produziria seus medicamentos.
Quando questionado sobre a possibilidade de uma intervenção americana e seu próprio destino, endurece o discurso. "Se chegar a minha hora, chegou. Mas não vai ser com fraqueza e covardia. Vai ser lutando." Afirma que o povo cubano está disposto a dar a vida pela Revolução, como demonstraram os trinta e dois combatentes que morreram na Venezuela. Diz que há uma estratégia defensiva baseada em guerra de guerrilha, herdada da tradição histórica de independência e da Sierra Maestra. "Temos nossos segredos, que não vamos revelar." Todas as semanas há um Dia Nacional da Defesa; as estruturas estão ativadas.
Sobre negociações com os Estados Unidos, Díaz-Canel diz que Fidel sempre defendeu o diálogo, e que houve uma relação mais avançada com Barack Obama. Mas afirma que não pode haver diálogo sob opressão. O canal está estancado. Há funcionários do governo cubano que conversaram com os americanos, mas não houve avanço. Agora o secretário de Estado Marco Rubio anuncia que cortará todas as formas de escape que Cuba possa encontrar. Vazam informações sobre operações da CIA contra a ilha. Díaz-Canel rejeita a ideia de que as reformas econômicas sejam concessões aos EUA. Diz que são resultado de um debate de aperfeiçoamento que ocorre há mais de dez anos. A situação pode se prolongar indefinidamente, como vem ocorrendo há mais de sessenta anos, mas nunca de forma tão crítica. O Período Especial dos anos noventa foi muito crítico, quando o bloco socialista desmoronou e os EUA apostaram tudo na queda da Revolução. Agora, Díaz-Canel acredita que o mundo não assistirá passivamente a esse genocídio. "Aquilo que pode acontecer hoje com Cuba, e que já aconteceu na Venezuela e em Gaza, poderá acontecer com qualquer nação se permitirmos que o mundo se renda aos desígnios dessa administração."
Citas Notables
O povo não permitiria que as reformas tragam capitalismo de volta a Cuba— Miguel Díaz-Canel
Se chegar a minha hora, chegou. Mas não vai ser com fraqueza e covardia. Vai ser lutando— Miguel Díaz-Canel