No intervalo entre uma denúncia e uma resposta institucional, emerge uma questão que atravessa todas as campanhas de saúde pública: quem define a realidade — quem a vive no terreno ou quem a mede em números? A DGS refutou as alegações da USF-AN sobre falhas na distribuição de vacinas contra a gripe e a covid-19, apresentando dados que mostram uma cobertura superior à do ano anterior nos grupos mais vulneráveis. É um confronto entre a experiência quotidiana dos centros de saúde e a linguagem estatística da autoridade sanitária — e, como tantas vezes acontece, ambas podem ter razão ao mesmo temp
DGS nega falta de vacinas contra gripe e covid-19 e aponta aumento de cobertura
Não há falta de vacinas, mas há falhas na forma como chegam
Porque é que a USF-AN levantou estas preocupações se os números da DGS mostram um aumento de cobertura?
Os números globais podem estar a subir enquanto, simultaneamente, existem constrangimentos reais na distribuição. Uma coisa não exclui a outra. Os centros de saúde podem estar a trabalhar mais para atingir estes números apesar de falhas na entrega.
A DGS diz que a comunicação com as Unidades Locais de Saúde é constante. Porque é que a USF-AN não sente isto?
Comunicação constante não é a mesma coisa que resolução rápida. Pode haver diálogo permanente e ainda assim constrangimentos que levam semanas a ser ultrapassados. A USF-AN pode estar a falar de um ritmo de resolução que não corresponde à urgência que sentem.
O aumento de 75% para 79% em idosos com 85+ anos é significativo?
É modesto, mas é um aumento. O que importa é que aconteceu num grupo que só é vacinado nos centros de saúde, não nas farmácias. Se houvesse falta de vacinas, este número teria caído ou estagnado.
Porque é que a covid-19 está a descer enquanto a gripe sobe?
Hesitação vacinal. As pessoas mudaram de atitude face à vacina de covid. Pode ser fadiga, pode ser desconfiança, pode ser simplesmente que as pessoas acham que já têm proteção suficiente. A gripe não tem o mesmo problema.
O que significa que a campanha começou com um recorde de vacinas?
Significa que não havia escassez de doses no arranque. Mas distribuição é diferente de disponibilidade. Ter muitas vacinas no armazém não é a mesma coisa que tê-las nos centros de saúde quando as pessoas chegam.
A DGS está a ser defensiva ou está a responder a críticas legítimas?
Provavelmente ambas. A DGS tem números que a apoiam, mas os números não capturam a experiência diária de quem trabalha nos centros de saúde. Ambas as perspectivas têm mérito.
Der Puls
- A USF-AN acendeu um sinal de alerta: a campanha de vacinação sazonal arrancou tarde e as vacinas chegavam com atrasos aos centros de saúde, enquanto as farmácias pareciam não sofrer os mesmos problemas.
- A DGS respondeu com números concretos — a cobertura em maiores de 85 anos subiu de 75% para 79%, um grupo vacinado exclusivamente nos cuidados primários, o que torna a subida difícil de ignorar.
- A campanha deste ano começou com o maior stock de vacinas de sempre, e os dados globais mostram que a vacinação contra a gripe supera o ano anterior em todos os grupos etários elegíveis a partir dos 60 anos.
- Há, porém, uma brecha: a cobertura contra a covid-19 caiu face ao ano passado, e a DGS admite que a hesitação vacinal é a causa — uma confissão que contrasta com o tom triunfante do resto da comunicação.
- A Comissão Técnica de Vacinação Sazonal avalia ainda se recomenda a vacina contra o Vírus Sincicial Respiratório para adultos elegíveis, numa decisão que dependerá de evidência científica, custo-efetividade e sustentabilidade.
No intervalo entre uma denúncia e uma resposta institucional, emerge uma questão que atravessa todas as campanhas de saúde pública: quem define a realidade — quem a vive no terreno ou quem a mede em números? A DGS refutou as alegações da USF-AN sobre falhas na distribuição de vacinas contra a gripe e a covid-19, apresentando dados que mostram uma cobertura superior à do ano anterior nos grupos mais vulneráveis. É um confronto entre a experiência quotidiana dos centros de saúde e a linguagem estatística da autoridade sanitária — e, como tantas vezes acontece, ambas podem ter razão ao mesmo tempo.
Na quarta-feira, a USF-AN levantou a voz sobre a campanha de vacinação sazonal: a campanha tinha começado mais tarde do que o habitual e havia falhas persistentes na entrega de vacinas aos centros de saúde — constrangimentos que, curiosamente, não pareciam afectar as farmácias da mesma forma.
No dia seguinte, a DGS respondeu com dados. A cobertura vacinal em pessoas com 85 ou mais anos subiu de 75% para 79% face ao ano anterior — e este grupo é vacinado exclusivamente nos cuidados de saúde primários. Se não houvesse vacinas disponíveis, argumentou a DGS, este aumento seria impossível. A diretora-geral Rita Sá Machado descreveu uma monitorização permanente de stocks, doses administradas e comunicação constante com as Unidades Locais de Saúde, garantindo que os constrangimentos identificados são rapidamente ultrapassados.
Os números globais reforçam esta posição: a vacinação contra a gripe supera o ano anterior em todos os grupos elegíveis a partir dos 60 anos, e para os menores de 60 anos já foram vacinadas mais de 340 mil pessoas contra a gripe e cerca de 140 mil contra a covid-19. A meta de 75% de cobertura foi já atingida para os maiores de 85 anos.
Há, porém, uma sombra. A cobertura contra a covid-19 é inferior à do ano passado, e a DGS atribui-o à hesitação vacinal — uma admissão que contrasta com a confiança expressa em relação à campanha de gripe. Em paralelo, a Comissão Técnica de Vacinação Sazonal avalia se recomenda a vacina contra o Vírus Sincicial Respiratório para adultos elegíveis, numa decisão que a DGS tomará com base em evidência científica, custo-efetividade e sustentabilidade.
O que fica claro é a divergência entre quem trabalha no terreno e quem lê os indicadores: uma campanha que, apesar de desafios logísticos reais, parece estar a atingir — e em alguns casos a superar — as metas de cobertura do ano anterior.
Na quarta-feira, a associação que representa as Unidades de Saúde Familiar levantou a voz sobre a campanha de vacinação sazonal em curso. O problema, segundo a USF-AN, era duplo: a campanha tinha começado mais tarde do que o habitual, e havia falhas persistentes na entrega de vacinas aos centros de saúde — constrangimentos que, curiosamente, não pareciam estar a afectar as farmácias da mesma forma.
No dia seguinte, a Direção-Geral da Saúde respondeu de forma directa. Não há falta de vacinas, insistiu a DGS. Para o demonstrar, apresentou números: a cobertura vacinal em pessoas com 85 ou mais anos subiu de 75% no ano anterior para 79% este ano. Este grupo etário é vacinado exclusivamente nos cuidados de saúde primários, o que torna a comparação particularmente relevante. Se não houvesse vacinas, argumentou a DGS, este aumento não seria possível.
A direção-geral, liderada por Rita Sá Machado, descreveu o seu papel na campanha como abrangente. Monitoriza permanentemente as vacinas disponibilizadas tanto nos centros de saúde como nas farmácias, supervisiona os stocks, acompanha o número de doses administradas e reforça a comunicação ao longo de toda a campanha. A comunicação com as Unidades Locais de Saúde tem sido constante, permitindo identificar constrangimentos que são, segundo a DGS, rapidamente ultrapassados.
Os números globais da campanha reforçam a posição da DGS. A vacinação contra a gripe é superior em todos os grupos etários elegíveis a partir dos 60 anos, comparativamente ao período equivalente do ano anterior. Para as pessoas com menos de 60 anos, já foram vacinadas mais de 340 mil contra a gripe e cerca de 140 mil contra a covid-19. A meta de cobertura de 75% foi já atingida para os maiores de 85 anos e deverá ser alcançada para os maiores de 80 anos na semana seguinte. Para o grupo dos 65 ou mais anos, a DGS espera atingir esta meta ainda este ano, pelo menos para a gripe.
Há, porém, uma sombra neste quadro. A cobertura vacinal contra a covid-19 é inferior à do ano anterior. A DGS atribui isto à hesitação vacinal — uma mudança no comportamento dos cidadãos face a esta vacina em particular. É uma admissão importante, que contrasta com a confiança expressa relativamente à campanha de gripe.
A campanha deste ano começou com um recorde: o maior número de vacinas disponíveis desde o início destas campanhas sazonais. Isto permitiu aos centros de saúde e às farmácias começarem com um grande número de doses. Apesar das críticas da USF-AN sobre atrasos e falhas na distribuição, a DGS mantém que não existem barreiras ao acesso e que o princípio da equidade está a ser assegurado.
Em paralelo, a Comissão Técnica de Vacinação Sazonal está a avaliar se deve recomendar a vacinação contra o Vírus Sincicial Respiratório em adultos elegíveis. Quando este parecer estiver concluído, será enviado à DGS, que decidirá se integra a vacina no Plano Nacional de Vacinação. A decisão terá em conta dados epidemiológicos, evidência científica, custo-efetividade, disponibilidade no mercado e sustentabilidade.
O que fica claro é que existe uma divergência entre a perspectiva dos centros de saúde, representados pela USF-AN, e a narrativa da DGS. Uma fala de constrangimentos operacionais; a outra, de números crescentes e acesso garantido. A verdade provavelmente situa-se em algum ponto entre estas duas posições — uma campanha que, apesar de desafios logísticos, está a atingir ou a superar as métricas de cobertura do ano anterior.
Bemerkenswerte Zitate
Esta cobertura reforça que não existem barreiras ao acesso em comparação com o ano passado, nem falta de vacinas— Direção-Geral da Saúde
A campanha de vacinação sazonal está longe de atingir as metas ideais e persistem falhas na disponibilização de vacinas aos centros de saúde— Associação de Unidades de Saúde Familiar (USF-AN)