Desnutrição causa 20% das mortes de pacientes com câncer; veja cuidados nutricionais

Desnutrição fragiliza pacientes com câncer, aumentando risco de infecções graves e morte, frequentemente não pelo tumor mas pela desnutrição associada.
O corpo precisa de mais combustível no exato momento em que consegue ingerir menos
O paradoxo metabólico que pacientes com câncer enfrentam durante o tratamento oncológico.
Mark

Como é que desnutrição mata mais do que o próprio câncer em um quinto dos casos? Isso parece contraditório.

Mimi

Não é que mate mais — é que mata um em cada cinco. O câncer enfraquece o corpo de várias formas, e uma delas é destruir a capacidade de se alimentar. Quando o paciente não consegue comer, o sistema imunológico cai. Infecções simples viram graves. O corpo não tem força para lutar.

Luke

Mas a pesquisa que você citou — ela diferencia morte por desnutrição de morte por complicações infecciosas causadas pela desnutrição? Porque são coisas diferentes.

Mimi

Boa pergunta. A pesquisa da Revista Europeia de Oncologia Médica documenta que desnutrição é responsável por 20% das mortes. Carrieri explica que muitas vezes a morte é registrada como infecção, mas a causa raiz foi a desnutrição que fragilizou o paciente.

Mark

E por que os pacientes não recebem acompanhamento nutricional desde o começo?

Mimi

Segundo Carrieri, falta acesso a tratamento nutricional de qualidade. Muitos pacientes não recebem orientações aprofundadas. Falta rede de apoio também — às vezes não há nutricionista disponível, ou o paciente não sabe que deveria ter um.

Luke

Isso é um problema de sistema de saúde ou de conhecimento médico? Porque se os oncologistas soubessem que desnutrição mata 20% dos pacientes, você esperaria que referenciassem nutricionistas automaticamente.

Mimi

Provavelmente ambos. Mas o ponto é que Carrieri defende avaliação nutricional periódica como padrão de cuidado, não como algo opcional.

Mark

E funciona? Se você começa a acompanhar nutrição desde o início, consegue evitar a desnutrição severa?

Mimi

A lógica é clara: se você identifica sinais de alerta cedo e adapta a alimentação conforme os sintomas aparecem, você evita chegar ao ponto de desnutrição severa. Mas o artigo não apresenta dados de resultado — não diz quantos pacientes foram salvos dessa forma.

Luke

Exatamente. O artigo é mais prescritivo do que descritivo. Diz o que deveria ser feito, não o que foi feito ou qual foi o resultado.

Mimi

Verdade. Mas a recomendação vem de especialistas em oncologia, então tem peso.

Mark

E esses sintomas — náuseas, perda de apetite, boca seca — são inevitáveis ou podem ser prevenidos?

Mimi

São efeitos colaterais esperados dos tratamentos. Não dá para evitar completamente, mas dá para gerenciar com estratégias específicas. Gengibre para náusea, alimentos macios para feridas na boca, frutas para estimular saliva.

Luke

Mas isso pressupõe que o paciente tem acesso a nutricionista que sabe essas estratégias. Se não tiver, fica sozinho tentando descobrir.

Mimi

Sim. Por isso Carrieri insiste que o acompanhamento nutricional deveria ser parte do protocolo de tratamento, não algo que o paciente tem que procurar por conta própria.

  • Desnutrição mata 20% dos pacientes com câncer — frequentemente mais do que o próprio tumor —, e muitos casos ocorrem sem que o paciente sequer saiba que estava em risco.
  • Quimioterapia, radioterapia e cirurgia alteram o apetite, o paladar e a digestão, criando um conflito cruel: o corpo exige mais nutrição no momento em que menos consegue absorvê-la.
  • Tumores gastrointestinais, de cabeça e pescoço são os mais perigosos nesse sentido, levando muitos pacientes a depender de sondas e suplementos apenas para sobreviver ao tratamento.
  • A falta de acesso a nutricionistas especializados e de redes de apoio deixa pacientes vulneráveis a infecções graves que, em corpos já fragilizados, rapidamente se tornam fatais.
  • Especialistas recomendam avaliação nutricional contínua e adaptada aos sintomas — náuseas, diarreia, feridas na boca, perda de paladar — como estratégia essencial para evitar a desnutrição severa.

Um em cada cinco pacientes com câncer não morre do tumor, mas da desnutrição que ele provoca — uma distinção que a medicina oncológica ainda luta para tornar visível. Pesquisa publicada na Revista Europeia de Oncologia Médica documenta essa proporção devastadora, enquanto especialistas alertam que essa morte, na maioria dos casos, é evitável. O corpo em tratamento precisa de mais combustível justamente quando menos consegue comer, e sem acompanhamento nutricional desde o início, esse paradoxo biológico pode ser fatal.

A desnutrição mata um em cada cinco pacientes com câncer. Não o tumor em si — a fome, a perda de peso, o corpo que deixa de processar alimento. Uma pesquisa publicada na Revista Europeia de Oncologia Médica documentou essa proporção, e especialistas alertam que essa morte é frequentemente evitável com acompanhamento nutricional desde o início do tratamento.

O problema começa com o diagnóstico. Os tratamentos oncológicos alteram profundamente a relação do paciente com a comida: o apetite desaparece, os sabores mudam, a boca dói, o estômago não suporta. Tudo isso é previsível — e ainda assim, segundo a nutricionista Adriana Carrieri, pesquisadora da Faculdade de Medicina Albert Einstein em Nova York, muitos pacientes nunca recebem orientação adequada. Falta acesso, falta rede de apoio, falta alguém que diga como e o que comer.

Alguns cânceres são particularmente severos nesse aspecto. Tumores do estômago, esôfago, cabeça e pescoço tornam a alimentação tão difícil que sondas e suplementos se tornam necessários para a sobrevivência. Mas Carrieri defende que nenhum câncer deveria ser tratado sem vigilância nutricional preventiva, independentemente da localização do tumor.

O que torna a desnutrição tão letal é o que ela faz ao sistema imunológico. Um paciente desnutrido tem defesas baixas; uma infecção simples vira grave; uma infecção grave vira morte. A família acredita que foi o câncer — mas foi a desnutrição que fragilizou o corpo ao ponto de não conseguir lutar.

Janainna Mazelli, nutricionista oncológica do hospital Sírio-Libanês, explica que pacientes com câncer precisam de mais calorias e proteína do que pessoas saudáveis, justamente porque o corpo está em combate. O tratamento, porém, reduz o apetite e a capacidade de ingerir alimentos — um conflito biológico sem solução simples.

As estratégias existem: adaptar a dieta aos sintomas, oferecer refeições pequenas e frequentes, usar gengibre para náuseas, evitar gordura e lactose em casos de diarreia, recorrer a purês mornos quando há feridas na boca. Quando a perda de peso é severa, suplementação oral pode ser necessária. O que emerge é uma verdade ao mesmo tempo simples e urgente: sem vigilância nutricional tão rigorosa quanto a oncológica, o paciente não morre do tumor — morre da fome que ele causou.

A desnutrição mata um em cada cinco pacientes com câncer. Não o tumor em si — a fome, a perda de peso, o corpo que não consegue mais processar alimento. Uma pesquisa publicada na Revista Europeia de Oncologia Médica documentou essa proporção devastadora, e especialistas agora alertam que essa morte é frequentemente evitável, se o paciente receber acompanhamento nutricional desde o início do tratamento.

O problema começa cedo. Quando alguém recebe um diagnóstico de câncer, o corpo muda. Os tratamentos — quimioterapia, radioterapia, cirurgia — alteram como a pessoa sente fome, como consegue engolir, como digere. O apetite desaparece. A comida fica com gosto estranho ou amargo. A boca dói. O estômago não aguenta. Tudo isso é esperado, documentado, previsível. E ainda assim, segundo Adriana Carrieri, nutricionista especializada em câncer e pesquisadora da Faculdade de Medicina Albert Einstein em Nova York, muitos pacientes nunca recebem orientação nutricional adequada. Falta acesso a tratamento de qualidade. Falta rede de apoio. Falta, muitas vezes, alguém dizendo ao paciente: você precisa comer, e aqui está como.

Alguns cânceres são particularmente cruéis nesse sentido. Tumores do estômago, esôfago, pescoço e cabeça tornam a alimentação tão difícil que muitos pacientes precisam de sondas ou suplementos nutricionais apenas para sobreviver. Mas Carrieri insiste que nenhum câncer deveria ser tratado sem vigilância nutricional preventiva. "O câncer é uma doença individualizada", ela disse em entrevista durante um congresso em São Paulo. "Independente do local do tumor, ele merece atenção preventiva para não deixar o paciente entrar em um estágio de desnutrição severa."

O que torna a desnutrição tão letal é o que ela faz ao sistema imunológico. Um paciente desnutrido tem defesas baixas. Uma infecção simples vira grave. Uma infecção grave vira morte. E aqui está o paradoxo cruel: o paciente morre, a família acredita que foi o câncer, mas na verdade foi a desnutrição que fragilizou o corpo ao ponto de não conseguir lutar. Carrieri descreve isso como "uma questão muito séria, que leva a essas complicações".

Os especialistas recomendam avaliação nutricional periódica — não uma vez, mas continuamente, conforme o tratamento avança e os sintomas mudam. A alimentação deve ser adaptada. Se o paciente tem náuseas, precisa de alimentos leves e gengibre. Se tem diarreia, precisa evitar gordura e lactose. Se perdeu o apetite, precisa de vitaminas líquidas e pequenas refeições frequentes. Se tem feridas na boca, precisa de purês mornos. Se perdeu o paladar, precisa de temperos fortes para tornar a comida interessante novamente.

Janainna Mazelli, nutricionista oncológica do hospital Sírio-Libanês, explica que pacientes com câncer têm demandas metabólicas específicas — precisam de mais calorias e mais proteína do que pessoas saudáveis, justamente porque o corpo está lutando contra a doença. Mas o tratamento causa toxicidades que reduzem o apetite e a capacidade de comer. É um conflito biológico: o corpo precisa de mais combustível no exato momento em que consegue ingerir menos.

Quando a perda de peso é severa ou a desnutrição é diagnosticada, suplementação oral pode ser necessária. Mas antes disso, há estratégias: água com limão para boca seca, aveia e linhaça para constipação, alimentos ricos em ferro e vitamina C para anemia. Hidratação constante. Alimentos bem cozidos, de boa qualidade, com selos de validade respeitados. Nada de álcool, ultraprocessados ou frituras.

O que emerge dessa orientação é uma verdade simples e complexa ao mesmo tempo: câncer é uma doença que exige vigilância nutricional tão rigorosa quanto vigilância oncológica. Sem ela, o paciente não morre do tumor — morre da fome que o tumor causou.

O câncer é uma doença individualizada, então independente do local do tumor, ele merece atenção preventiva para não deixar o paciente entrar em um estágio de desnutrição severa
— Adriana Carrieri, nutricionista especializada em câncer e pesquisadora da Faculdade de Medicina Albert Einstein
A morte ocorre, muitas vezes, não pelo câncer, mas da desnutrição que fragilizou esse paciente
— Adriana Carrieri
Vuoi la storia completa? Leggi l'originale su UOL ↗
Contattaci Domande frequenti