Quando uma grande empresa apresenta como inovação aquilo que um desenvolvedor independente já havia construído — e cujo aplicativo foi silenciosamente removido dias antes do anúncio —, a linha entre inspiração e apropriação torna-se matéria de tribunal. Kosta Eleftheriou, criador do FlickType, acusa a Apple de plagiar sua solução pioneira de teclado por deslizamento para o Apple Watch, após ver a funcionalidade reaparecer no Apple Watch Series 7. O caso levanta questões antigas sobre o poder assimétrico entre plataformas e os criadores que as habitam.
Desenvolvedor acusa Apple de plagiar função de teclado do Apple Watch Series 7
Removê-lo antes do anúncio elimina a comparação óbvia
Por que você acha que a Apple removeu o FlickType justamente antes de anunciar seu próprio teclado?
Não posso ter certeza, mas o timing é suspeito demais para ser acidental. Se eles estavam desenvolvendo esse recurso, teriam visto o FlickType na App Store. Removê-lo antes do anúncio elimina a comparação óbvia.
A tecnologia swype não é exclusiva do Eleftheriou, certo? Gboard e Swiftkey já fazem isso.
Verdade. Mas ninguém havia feito funcionar bem em um relógio até ele. Essa é a diferença. Ele resolveu um problema específico que a Apple depois reconheceu como real.
E quanto à justificativa da Apple para remover o app — "teclado para Apple Watch"?
É vaga demais para ser verdadeira. Se fosse uma regra real, haveria outras violações na loja. Parece mais uma desculpa genérica para justificar uma decisão que já havia sido tomada.
Você acha que Eleftheriou consegue ganhar na Califórnia?
As leis de concorrência desleal são fortes lá. Se conseguir provar que a Apple sabia do FlickType, rejeitou comprá-lo, removeu-o e depois copiou a funcionalidade, tem um caso sólido.
Qual é o risco para a Apple nesse processo?
Não é só dinheiro. É admitir que copia ideias de desenvolvedores menores quando eles recusam ser comprados. Isso muda como as pessoas veem a companhia.
O Pulso
- A Apple apresentou no Apple Watch Series 7 um teclado com deslizamento de dedos — recurso que o app FlickType já oferecia há meses, antes de ser removido da App Store sem explicação clara.
- A remoção do FlickType ocorreu dias antes do anúncio do novo relógio, sob justificativa vaga de violação de regras, sem indicação de qual norma específica teria sido infringida.
- Eleftheriou já havia processado a Apple em março, alegando que a empresa demonstrou interesse em comprar o app e, após a recusa, passou a criar obstáculos para sua permanência na loja.
- O desenvolvedor anunciou uma nova ação judicial, desta vez com base nas leis de concorrência desleal da Califórnia, buscando enquadrar legalmente o que descreve como apropriação deliberada.
- A ironia é aguda: o mesmo sistema de revisão que a Apple usa para justificar suas altas comissões mostrou-se incapaz — ou desinteressado — em proteger o desenvolvedor das práticas que ele próprio denunciava.
Quando uma grande empresa apresenta como inovação aquilo que um desenvolvedor independente já havia construído — e cujo aplicativo foi silenciosamente removido dias antes do anúncio —, a linha entre inspiração e apropriação torna-se matéria de tribunal. Kosta Eleftheriou, criador do FlickType, acusa a Apple de plagiar sua solução pioneira de teclado por deslizamento para o Apple Watch, após ver a funcionalidade reaparecer no Apple Watch Series 7. O caso levanta questões antigas sobre o poder assimétrico entre plataformas e os criadores que as habitam.
Kosta Eleftheriou assistia ao evento da Apple em 15 de setembro quando viu surgir, no Apple Watch Series 7, um teclado inteligente com deslizamento de dedos — a mesma funcionalidade central do seu aplicativo FlickType. Para ele, não era coincidência: era plágio.
O FlickType havia sido criado para resolver um problema concreto: digitar em um relógio é difícil. Eleftheriou adaptou o método swype — já popular em smartphones desde 2009 — para smartwatches, sendo pioneiro nesse nicho. O app estava na App Store até ser removido sem aviso, com a Apple alegando apenas que ele violava regras por ser um "teclado para Apple Watch", sem especificar qual norma ou por que a remoção ocorria justamente naquele momento.
Não era a primeira vez que os dois se enfrentavam. Em março, Eleftheriou já havia aberto uma ação acusando a Apple de plágio, fraude e violação contratual. Segundo ele, a empresa demonstrou interesse em adquirir o FlickType e, diante da recusa, passou a dificultar sua operação na loja. A ação citava diretamente a expectativa da Apple de que ele simplesmente cederia e venderia com desconto.
Agora, com o lançamento do novo recurso, o desenvolvedor anunciou pelo Twitter que processaria a Apple novamente — desta vez com base nas leis de concorrência desleal da Califórnia, que proíbem publicidade enganosa e práticas comerciais injustas.
A tecnologia de deslizamento não era invenção exclusiva de Eleftheriou, mas ele foi o primeiro a implementá-la de forma funcional em um relógio inteligente. A questão central não é a originalidade do conceito, mas se a Apple rejeitou uma compra, removeu o app e depois lançou a mesma solução como própria. Eleftheriou está disposto a deixar um tribunal responder.
Kosta Eleftheriou estava observando quando a Apple apresentou o Apple Watch Series 7 na quarta-feira, 15 de setembro. Entre os novos recursos anunciados havia um teclado inteligente que permitia aos usuários digitar arrastando os dedos pela tela — exatamente o que seu aplicativo FlickType fazia há meses. Para Eleftheriou, a coincidência não era coincidência. Era plágio.
O desenvolvedor criou o FlickType especificamente para resolver um problema real: digitar em um relógio é incômodo. Sua solução usava o método swype, aquele deslizar dos dedos que já existia em teclados de telefone desde 2009 e que aplicativos populares como Gboard e Swiftkey tornaram comum. Mas para relógios inteligentes, o FlickType era pioneiro. Eleftheriou havia colocado seu trabalho na App Store, onde permaneceu até ser removido sem aviso prévio. A justificativa da Apple foi vaga: o aplicativo violava as regras da companhia por ser um "teclado para Apple Watch". Nenhum detalhe sobre qual regra específica havia sido quebrada. Nenhuma explicação de por que a remoção acontecia justamente agora, dias antes do anúncio do novo relógio.
Esta não era a primeira vez que Eleftheriou e a Apple se viam em tribunal. Em março daquele ano, ele havia aberto uma ação acusando a gigante de Cupertino de plágio, fraude e violação de seu contrato como desenvolvedor. Naquela ocasião, descreveu uma campanha de pressão: a Apple teria demonstrado interesse em comprar seu aplicativo, e quando ele recusou, enfrentou obstáculos crescentes para manter o FlickType na loja. "Evidentemente, a Apple pensou que o Requerente simplesmente desistiria e venderia seu aplicativo com um desconto", dizia a ação. Agora, com o anúncio do novo recurso no Apple Watch Series 7, Eleftheriou tinha o que parecia ser prova concreta de que sua recusa havia resultado em algo pior que pressão — em apropriação.
O desenvolvedor anunciou via Twitter que processaria a Apple novamente. Desta vez, planejava usar as leis de concorrência desleal da Califórnia, o estado onde fica a sede da companhia. Essas leis proíbem publicidade falsa ou enganosa e protegem contra práticas comerciais injustas — exatamente o tipo de ferramenta legal que poderia enquadrar o que Eleftheriou descrevia.
Há uma ironia na história. A App Store funciona com um sistema de revisão que a Apple mantém através das altas taxas de comissão que cobra dos desenvolvedores. O sistema é conhecido por ser severo, supostamente para proteger usuários de fraudes e aplicativos falsos. Eleftheriou havia denunciado repetidamente a presença de aplicativos fraudulentos na loja — cópias descaradas de outros programas, incluindo versões falsas de seu próprio teclado, além de apps projetados especificamente para enganar usuários. Mas quando se tratava de sua própria reclamação contra a Apple, a severidade do sistema parecia desaparecer.
A tecnologia swype em si não era propriedade de Eleftheriou. Ele não havia inventado o conceito de arrastar dedos para digitar. Mas havia sido o primeiro a implementá-la de forma prática e funcional em um relógio inteligente, resolvendo um problema que a Apple aparentemente reconheceu como real o suficiente para incluir em seu novo produto. A questão agora não era se a ideia era original — era se a Apple havia tomado o trabalho de um desenvolvedor independente, rejeitado sua oferta de compra, removido seu aplicativo da loja e depois lançado a mesma funcionalidade como sua própria inovação. Eleftheriou estava pronto para deixar que um tribunal decidisse.
Citações Notáveis
Evidentemente, a Apple pensou que o Requerente simplesmente desistiria e venderia seu aplicativo com um desconto— Ação judicial de Kosta Eleftheriou contra a Apple, março de 2021