Na Exposição Agropecuária do Crato, um stand de doces de empresa mineira transformou a alegria da feira em armadilha financeira: clientes eram convidados a escolher fatias sem conhecer o peso real, e só descobriam o valor — às vezes superior a R$ 300 — quando a balança já havia selado o destino da compra. O constrangimento social substituía a liberdade de escolha, e a opacidade dos preços tornava a transação menos um comércio e mais uma emboscada. O Decon interveio, constatou práticas abusivas e notificou a empresa, lembrando que a transparência não é cortesia — é direito.
Decon constata práticas abusivas em stand de doces da Expocrato após relatos de constrangimento
Se cortou, tem que levar — a pressão que ninguém consegue recusar
Por que isso funciona como armadilha? O cliente vê o preço escrito.
Vê o preço por 100 gramas, mas não consegue visualizar o que são 100 gramas em uma barra de 25 quilos. Quando pede o corte, está pedindo no escuro.
E por que o constrangimento é tão eficaz?
Porque acontece em público, na frente de outras pessoas. O vendedor fala alto, com simpatia, tornando recusar uma questão de vergonha social. É difícil dizer não quando todos estão olhando.
A empresa realmente não sabia que estava fazendo isso?
Eles alegam que não. Mas o padrão é muito consistente — dezenas de pessoas, valores sempre muito altos, sempre com pressão no final. Ou é negligência grave ou é intencional.
O que muda agora com a fiscalização?
O Decon exigiu que os preços fiquem claros e que os tamanhos sejam indicados. Se não fizerem, fecham o stand. Mas os clientes que já pagaram precisam entrar na justiça para recuperar o dinheiro.
Qual é o risco real para o consumidor médio?
Não é só o dinheiro. É a sensação de ter sido enganado, de ter cedido à pressão, de não ter conseguido dizer não. Alguns parcelaram no cartão de crédito sem costume de fazer isso. O dano é material e psicológico.
The Pulse
- Clientes saíam do stand com fatias de doce que custavam até R$ 330, valor que só descobriam depois do corte, quando recusar já parecia socialmente impossível.
- Funcionários pressionavam compradores com frases como 'você pesou, tem que levar', criando um ambiente de coerção disfarçada de regra de self-service.
- Pessoas que tentaram desistir foram confrontadas com insistência, voz alta e ofertas de parcelamento — algumas cederam, outras saíram convencidas de terem sido enganadas.
- O Decon fiscalizou o estabelecimento e confirmou a ausência de informações claras sobre preços e porções, caracterizando práticas abusivas contra o consumidor.
- A empresa foi notificada a fazer adequações imediatas, sob risco de interdição do stand, enquanto consumidores lesados têm respaldo legal para buscar reparação material e moral na justiça.
Na Exposição Agropecuária do Crato, um stand de doces de empresa mineira transformou a alegria da feira em armadilha financeira: clientes eram convidados a escolher fatias sem conhecer o peso real, e só descobriam o valor — às vezes superior a R$ 300 — quando a balança já havia selado o destino da compra. O constrangimento social substituía a liberdade de escolha, e a opacidade dos preços tornava a transação menos um comércio e mais uma emboscada. O Decon interveio, constatou práticas abusivas e notificou a empresa, lembrando que a transparência não é cortesia — é direito.
Na Exposição Agropecuária do Crato, um stand de doces de uma empresa mineira virou alvo de denúncias após dezenas de clientes relatarem cobranças muito acima do esperado. O modelo de venda era por peso — R$ 19,90 a cada 100 gramas —, mas os consumidores escolhiam as fatias sem noção real do tamanho ou do custo final. Só depois da pesagem o valor aparecia, e aí começava a pressão para que levassem o produto, independentemente do choque no preço.
O empresário Breno de Freitas resistiu quando viu dois pedaços chegarem a R$ 117, mas reconheceu que muitos não teriam coragem de recusar. Outros não conseguiram escapar: Wellington Barros pagou R$ 137 em três pedaços e teve o pedido de devolução negado; o biólogo Márcio Holanda desembolsou R$ 177 e terminou parcelando no cartão algo que nunca costumava fazer. Uma mulher de Juazeiro do Norte saiu convicta de ter sido enganada após pagar R$ 118 por dois pedaços.
A Doceria Deleites negou qualquer irregularidade, alegando que o cliente tem liberdade de escolha e que a impossibilidade de devolução segue orientação sanitária. Mas o Decon, após fiscalização na quinta-feira, constatou que os preços não estavam exibidos com clareza e que os produtos não tinham indicação de peso ou tamanho — condições que impediam o consumidor de saber quanto pagaria antes de decidir.
O promotor Thiago Marques reforçou que o cliente não é obrigado a concluir nenhuma compra, especialmente diante de inconsistências. O advogado Miguel Augusto Leitão lembrou que a legislação exige informação prévia, clara e precisa sobre o valor total — e que consumidores lesados podem buscar reparação tanto pelo valor pago quanto pelos danos morais sofridos. O stand foi notificado e pode ser interditado caso não faça as adequações exigidas.
Na Exposição Agropecuária do Crato, que segue até domingo, um stand de doces de uma empresa mineira transformou a experiência de compra em armadilha financeira para dezenas de clientes. O esquema era simples na aparência: o estabelecimento anunciava o preço de R$ 19,90 por cada 100 gramas do produto. Um funcionário pedia ao cliente para marcar o tamanho desejado da fatia. Depois vinha a pesagem. E então o choque: valores que chegaram a R$ 330 por três pedaços, deixando consumidores constrangidos e sem saber como recusar.
O empresário Breno de Freitas foi um dos que resistiu. Atraído pela simpatia inicial do vendedor, viu o preço disparar para R$ 117 quando dois pedaços de doce foram pesados — mais de 500 gramas no total. Quando tentou desistir, o funcionário da balança começou a pressionar: "Você tem que levar, você pesou e aqui é self-service. Você pediu, tem que levar". Breno não cedeu, mas reconheceu o perigo: e se fosse um idoso, alguém sem coragem de dizer não, alguém que se deixasse vencer pela vergonha? Essa pessoa teria pago quase R$ 120 por dois pedaços de doce.
Outros não tiveram a mesma firmeza. Wellington Barros, criador digital, pagou R$ 137 em três pedaços de abóbora, maracujá com coco e mesclado de goiabada, queijo e doce de leite. Quando pediu devolução, foi negado. Quando disse não ter dinheiro, o vendedor insistiu em passar o cartão sem juros. Wellington cedeu para evitar mais transtornos. O biólogo Márcio Holanda desembolsou R$ 177 em dois pedaços — banana e misto de doce de leite com goiaba. Questionou o valor, foi rebatido com simpatia e voz alta ("se cortou, tem que levar"), e terminou parcelando em duas vezes no cartão de crédito, algo que não tinha costume de fazer. Uma mulher de Juazeiro do Norte pagou R$ 118 por dois pedaços de creme de avelã com amendoim e saiu da experiência convencida de que havia sido enganada.
O padrão era claro: o cliente não tinha noção real de quantas gramas estava pedindo. A barra de doce tinha formato incomum. Ninguém explicava com clareza que, uma vez cortado, o produto não poderia ser devolvido. E quando o valor final aparecia na balança, muito acima do esperado, vinha o constrangimento — a pressão social, a voz alta, a insistência, a oferta de parcelamento. Era um ambiente onde recusar parecia impossível.
A Doceria Deleites, empresa de Minas Gerais responsável pelo stand, negou que houvesse golpe ou enganação. Um representante chamado Fausto explicou que a empresa trabalha com doces de leite e cocadas há anos e nunca havia enfrentado situação parecida. Segundo ele, o cliente tem liberdade de escolher a fatia que deseja, e é impossível mensurar uma fração exata de 100 gramas em uma barra de 25 quilos. A empresa alega que explica a impossibilidade de devolução — algo que a vigilância sanitária teria instruído. Mas não comentou sobre as denúncias de constrangimento.
O Programa Estadual de Proteção e Defesa do Consumidor (Decon) realizou fiscalização no estabelecimento na quinta-feira e constatou práticas abusivas. Os inspetores verificaram que os preços não estavam exibidos de forma clara e os produtos não tinham indicação de tamanho ou peso. Os clientes compravam as porções sem saber quanto custaria. O promotor de Justiça Thiago Marques explicou que o adequado seria o cliente ver um produto e saber o que corresponde a 100 gramas, para depois pedir um tamanho parecido a ser pesado. Não é o mesmo que pedir "no olhômetro". Sobre o constrangimento, o promotor ressaltou que o cliente não é obrigado a finalizar a compra em nenhuma circunstância, especialmente quando percebe inconsistências.
O advogado Miguel Augusto Leitão, especialista em Direito do Consumidor, foi direto: a informação do estabelecimento deve ser clara, para não induzir o cliente ao erro. O consumidor tem direito a informações prévias, relevantes, claras e precisas sobre o valor total do produto oferecido. Se se sentir lesado, pode entrar com ação contra o estabelecimento buscando reparação material — pelo pagamento feito — e reparação moral, dependendo de como o comerciante atuou. No direito do consumidor, o ônus da prova é invertido: ao consumidor basta que a alegação seja plausível e minimamente verificável.
O Decon notificou o estabelecimento a fazer adequações. Se não cumprir, o stand pode ser interditado. Dezenas de consumidores já têm motivo para buscar reparação na justiça.
Notable Quotes
A pessoa tem a liberdade de escolher a fatia que ela quer levar para casa. Não tem como a gente mensurar numa barra de 25 quilos uma fração de 100 gramas exata.— Fausto, representante da Doceria Deleites
O consumidor tem direito a ter previamente toda informação relevante sobre o produto, de forma clara e precisa, tanto sobre o valor total do produto que é oferecido a ele.— Miguel Augusto Leitão, advogado especialista em Direito do Consumidor